CRÍTICA: Desenrola

Comédia
// 12/01/2011

Nesta sexta-feira estreia o longa nacional Desenrola. Hoje, o Pipoca Combo lança a sua crítica como a primeira parte da matéria sobre o filme, que será concluída amanhã com um novo texto feito a partir do bate-papo que nós tivemos com a diretora Rosane Svartman e o elenco principal.

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Desenrola
por Arthur Melo

A velocidade com que os jovens mudam seus valores alcançou um ritmo no qual, hoje, gerações são identificadas por seu ano de atuação, não mais pela década de origem. Com esses valores rotatórios, ideias e concepções acerca do mundo e das relações destes seres humanos em formação se tornam cada vez mais passageiras, compondo uma adolescência cada vez mais volátil. Surgem vocábulos máximos da expressividade jovial, preconceitos entram no limbo propondo novas assimilações e modismos atingem o apogeu e o solo em espaços de tempo curtíssimos (o atual, os “coloridos” – espero). Desenrola, de Rosane Svartman, é uma leitura próxima da dinâmica social deste universo quase paralelo – e praticamente próprio dos jovens –, cujo ponto de abordagem é apenas mais uma dentre tantas pedras no sapado quando nesta idade: o momento da primeira transa.

Priscila (Olivia Torres – super confortável em cena) é uma garota de 16 anos que se encontra sozinha em casa pela primeira vez por conta de uma viagem de trabalho da mãe (Cláudia Ohana). O momento não poderia ser o mais oportuno para que a garota dê o passo adiante na sua tentativa de perder a virgindade com aquele rapaz que deseja há tempos: Rafa (Kayky Brito). Para chegar às vias de fato, contará com o apoio do amigo Caco (Daniel Passi), da irmã de seu príncipe encantado (Juliana Paiva – segura) e de certa contramão de Boca e Amaral (Lucas Salles e Victor Thiré – que funcionam muito bem juntos). A premissa é simples, não deixa de ser verdade. Chega a ser impossível, partindo da breve sinopse acima, não imaginar uma história que patine na mesmice dos filmes adolescentes cujos clichês são a linha condutora e, onde o que vale é uma ou outra novidade coadjuvante. As reciclagens até estão presentes, entretanto, em Desenrola esses papéis se invertem graças a um roteiro aberto às interferências do mundo real.

Saem a popularidade concentrada em grupinhos, as gírias infindáveis e toscas, o amor cem por cento platônico e zero por cento consumado, o prolongado desgaste da personagem central em nome da atenção do garoto de seus sonhos e entra um círculo social coerente, no qual todos os membros inseridos têm algo honesto a oferecer para a trama. Obviamente que todas as ações dos personagens se prestam em primeiro plano a definir a trajetória de Priscila na narrativa, mas todos são jogados em campo de maneira transparente e com uma personalidade própria espelhada no que definitivamente se vê em um grupo normal de jovens. Levando em conta o método de desenvolvimento do roteiro, sempre passível a transformações sugeridas pelos próprios atores adolescentes quando diante de algum elemento que cause estranhamento, é de se esperar – se de maneira controlada pela criação, claro – que quase nada soe artificial. E isto fica evidente.

Desenrola, desde seus primeiros minutos, tem uma preocupação extremamente necessária para um filme como este não cair no ridículo (um adjetivo que a novelinha “Malhação” carregou por muito tempo): naturalidade. Em uma de suas cenas do primeiro ato da trama, um grupo de trabalho escolar sobre estatística, liderado por Priscila, resolve checar quantas garotas ainda são virgens na escola. A sequência diverte mais pelas figuras em cena (e suas respectivas atuações) do que pelo texto. Não há sequer um tipo repetido ou deixado de fora. O resgate a época de escola para os que já a encerraram é preciso como um retrato e ganha um ar favorável ao êxito nas mãos de um elenco cuja mecânica se deu por conta das interações reais dentro do set.

Claro que, visto o público alvo, o longa tem certos vícios que se deixados de lado comprometeriam um resultado positivo com a plateia em questão, algo que vai de certos quesitos da estética visual a elementos que vêm e voltam no texto ou no roteiro, mas estão distantes de comprometerem o produto final. Um bloqueio à queda que se enxerga na direção de Rosane Svartman, que em não raras ocasiões sabe explorar a tomada de sentimento dos personagens através de sutilezas bem vindas, expressividade dos atores bem aproveitada ou opções interessantes, como o foco no público espectador da cena final do personagem Amaral. Ainda, Svartman tem ao seu lado uma fotografia cuja colaboração reflete o quão um quesito técnico pode influenciar ao se contar uma história.

Adolescente em sua totalidade, Desenrola acerta a mão ao descartar a ideia de propor uma representação piegas e repetitiva de uma descoberta assustadora do sexo (ainda mais considerando o fato de que este assunto já não é mistério para uma massa esmagadora de adolescentes) e se ater em apenas retratar como o processo como um todo se dá no princípio da juventude. Em uma geração (espera-se passageira) em que há tanta procura por pseudo-metáforas protagonizadas por seres folclóricos defasados, o longa desenrola bem o assunto.

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Desenrola (Brasil, 2011). Comédia. Globo Filmes.
Direção: Rosane Svartman
Elenco: Olívia Torres, Lucas Salles, Kayky Brito, Victor Thiré,Juliana Paiva, Marcelo Novaes, Cláudia Ohana, Letícia Spiler
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