CRÍTICA: Destinos Ligados

Críticas
// 13/08/2010

Samuel L. Jackson e Naomi Watts sorrindo um para o outro com as testas coladinhas é um dos casais mais estranhos que já se viu num pôster. Eram inimagináveis como um casal; não por mera diferença física, mas pela diferença da filmografia e de papéis que separa os dois atores. Outro ponto que coopera para a estranheza é a concepção do pôster que remete a uma comediazinha romântica para mocinhas emocionáveis. Felizmente, não é disso que se trata o filme e a propaganda é facilmente explicada durante a película; ou não explicada, melhor dizendo. Muito diferente da proposta do pôster brasileiro, Destinos Ligados é um drama que enfoca assuntos bem específicos: adoção e maternidade; nada de romancezinho choroso.

Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Destinos Ligados
por Henrique Marino

Na trama, cada personagem central é responsável por uma linha narrativa que, no fim, será ligada às demais – como anuncia o título de Destinos Ligados. Karen (Annette Bening) é uma quarentona amarga que vive numa relação difícil com a mãe já idosa. Em sua adolescência, Karen teve uma filha, Elizabeth (Naomi Watts), que logo foi levada à adoção, visto que não poderia ser criada pela sua própria mãe, ainda muito jovem. Elizabeth, então, cresce na ausência do amor materno e se torna uma mulher independente e forte. Enquanto isso, há o drama de Lucy (Kerry Washington) que, infértil, busca uma criança para adoção.

Rodrigo García, que assina a direção e o roteiro, se mostra muito competente enquanto diretor. Todas as particularidades do filme – edição, fotografia, direção do elenco, trilha sonora, produção, decoração, figurino, etc. – estão devidamente concatenadas com as suas escolhas. Seu estilo sutil, objetivo e frio se mostra presente em cada detalhe.

A fotografia é o departamento em que sua direção se faz mais pujante. Sutileza nas nuances da luz, coloração sempre pálida tendendo ao azul e uma câmera distante das personagens, mas que enfoca objetivamente o assunto principal da cena.

A edição e o desenrolar da história também mostram o tamanho do controle de Rodrigo García. Sem perder o tempo, o diretor consegue a lentidão precisa ao seu desejo; as cenas enunciam o que devem, e se demoram num discurso delicado que o diretor quer comunicar. Os cortes vêm concisos, conferindo à edição objetividade e simplicidade.

O roteiro é simples. Entremeia as três histórias com clareza, espantando qualquer confusão que poderia acontecer pelas diferentes histórias. García consegue isso sem apelar para obviedades, o que é incrível. Seu cinema diz o que deve ser dito, mas numa simplicidade muda.

O resultado de toda essa ordem e sutileza que são vistas nos departamentos técnicos, então, joga grande importância à atuação do elenco, que trabalha muito bem e cumpre com essa responsabilidade.

Na história, podem-se dividir os personagens em dois grupos: as protagonistas, que são as forças motrizes, e os coadjuvantes, que servem de apoio ou obstáculo no caminho das protagonistas. A grande diferença entre os dois grupos de personagens está na dimensão de suas personalidades. Todos os protagonistas têm dimensionalidade e sofrem mudanças no decorrer do longa, assim revelam a uma maleável firmeza. Enquanto isso, os coadjuvantes são imóveis, se revelando meros bonecos da trama. Essa divisão precisa na divergência das personagens ressalta o rigor da criação de García.

Contudo, o argumento do filme denuncia a maior falha, se é que se pode dizer assim, de Rodrigo García. Apesar do seu esforço em humanizar as personagens, a moral que ele impõe a elas grita o domínio claustrofóbico que ele exerce no filme. O drama quase escapa em um final tolo e parcialmente feliz, onde, de certa forma, há um expurgo maniqueísta dos protagonistas.

Mother and Child (EUA, Espanha, 2010). Drama. Romance. PlayArte.
Direção: Rodrigo Garcia
Elenco: Naomi Watts, Annette Bening, Samuel L. Jackson.

Comentários via Facebook
Categorias
Críticas, Drama, Romance