CRÍTICA | Divergente

Críticas
// 22/04/2014
divergente

 

Enquanto novembro não chega trazendo consigo a estreia da primeira parte de A Esperança, terceiro livro da série Jogos Vorazes, os fãs de histórias ambientadas em mundos distópicos e protagonizadas por personagens femininas fortes, determinadas e independentes têm a opção de ir aos cinemas para conferir Divergente, longa que dá início à saga que narra a jornada de Tris (Shailene Woodley) e Quatro (Theo James). O nome da autora dos livros, Veronica Roth, tem pipocado constantemente nos sites e blogs, isso porque, como já é de conhecimento de 9 entre 10 fãs da trilogia – que, como já foi confirmado, será transformada em 4 filmes, pois o último será dividido em 2 longas, uma tendência das adaptações deste século –, a jovem escritora de apenas 25 anos conseguiu a proeza de vender os direitos de sua obra para o Cinema antes mesmo do lançamento do primeiro volume. Os livros, então, possuem tal nível de genialidade a ponto de alguém apostar no sucesso da série antes de saber a repercussão entre o público? Não necessariamente. É mais provável que enredo seja responsável pelo voto de confiança com o qual Roth foi agraciada. Ao filme propriamente dito, pois.

Divergente se passa, como já brevemente mencionado, em uma realidade distópica. O lugar é uma Chicago pós-guerra e dividida em facções que separam pessoas de acordo com suas diferentes virtudes. Quando chegam à idade de 16 anos, os jovens de todas as facções participam de uma seleção que os direcionará e classificará de acordo com suas características para uma determinada facção: Grifinória, Sonserina, Corvinal e Lufa-Lufa Audácia, Abnegação, Erudição, Amizade e Franqueza. Mas depois de se submeter à simulação que deveria apontar a qual possui maior tendência, a protagonista Tris acaba apresentando qualidades que a classificaria em diferentes facções. Resumo da ópera: Tris é uma divergente, o que significa, entre outras coisas, que as simulações não funcionam da mesma forma com ela. Essa peculiaridade assombra Tris durante boa parte do longa, pois aqueles que sabem as implicações de ser um divergente se recusam a explicar a situação completa para a garota, que só sabe que deve esconder o segredo de todos.

Após escolher ingressar na Audácia, desertando a facção de sua família, a Abnegação, Tris, juntamente com seus companheiros, é obrigada a frequentar aulas de Poções com Snape luta, autodefesa e desenvolver habilidades bélicas típicas do seu novo lar. Entre uma surra e outra, a garota vive um affair com Quatro, o sisudo e misterioso instrutor da Audácia. Além disso, Tris é progressivamente cercada pelos perigos que envolvem ser uma divergente, perigos esses representados principalmente pela figura de Jeanine Mattheus, líder da Erudição interpretada por uma Kate Winslet, à época, grávida em estágio avançado, o que a obrigou a carregar um tablet entre uma cena e outra para esconder a barriga.

A maior parte do filme se concentra nos rituais de iniciação a que são submetidos os jovens que escolhem ser parte da Audácia e nos riscos que a facção apresenta para Tris. Além do fator “divergente”, a protagonista também é vista como uma ameaça por seus supostos companheiros e precisa lidar com as hostilidades que chegam de todos os lados. Neste ponto é importante observar como o longa falha em desenvolver os relacionamentos positivos construídos por Tris. Até mesmo a história com Quatro parece um tanto corrida e pouco aprofundada quando o filme é finalizado. De forma ainda mais clara, há pouca conexão perceptível entre Tris e aqueles que deveriam ser seus amigos. Quando chegamos ao desfecho da história de Divergente, pouco importam os destinos de Christina, All e Will, pessoas relevantes na narrativa construída nos livros. Nem mesmo a ameaça vinda de Jeanine é trabalhada de forma aprofundada. A personagem de Kate Winslet acaba sendo limitada a uma vilã maniqueísta. A Chicago futurística e pós-apocalíptica é, sinto dizer, bastante insossa e pouco sedutora.

Divergente não representa nenhuma novidade no mundo do entretenimento. Shailene e Theo são atores simpáticos e é notável que ambos possuem uma boa química e fizeram sua parte para que o filme funcionasse da melhor forma possível. Entretanto, é impossível ignorar a sensação de “já vi esse filme antes”. A obra de Veronica Roth repete as fórmulas vigentes que dominam o cenário pop das produções para young adults (expressão obviamente criada para aliviar a culpa que sentem aqueles que já se encontram em seus vinte e poucos anos e têm uma queda por produtos juvenis): a obra destinada ao público infantojuvenil e adaptada de um best-seller traz mais uma protagonista feminina, vivendo em um ambiente futurista, reprimida por um sistema controlador, que precisa superar novos desafios ao mergulhar no desconhecido, vivendo um romance com o mocinho habilidoso (pelo menos aqui não temos triângulos amorosos).

A propósito, a constante comparação com Jogos Vorazes me parece injusta, pois a única semelhança entre as obras é a sociedade distópica e subdividida em grupos. Em Divergente, a luta não é propriamente de um povo contra um governo tirano, mas do ser humano contra suas próprias escolhas, muitas vezes deturpadas devido à absorção das ideias de uma forma de governo que classifica e divide pessoas dizendo a elas quem elas devem ser dentro do sistema de facções. Com todas as características que adequam a trilogia de Roth ao que é esperado para o gênero e apresentando um roteiro limitado às expectativas artísticas do seu público-alvo, Divergente era uma aposta fácil para qualquer estúdio. Ousadia, aqui, apenas por parte das protagonistas.

———————————————
Divergent (EUA, 2014). Ficção Científica. Aventura. Paris Filmes.
Direção: Neil Burger
Elenco: Shailene Woodley, Theo James Ashley, Maggie Q, Kate Winslet

Comentários via Facebook