CRÍTICA | Divertida Mente

Animações
// 18/06/2015

Há algum tempo a Pixar vem pisando na bola e, por consequência, pisando em ovos. Mas Divertida Mente retorna à mesma conexão filme/espectador que só Toy Story 3 conseguiu nos últimos cinco anos.

“Este filme é dedicado às nossas crianças. Por favor, não cresçam. Nunca.”. Posicionada em algum ponto próximo à tradicional lista de production babies – bebês de envolvidos no projeto que nasceram durante a produção – nos créditos finais de Divertida Mente, esta dedicatória atravessou meus olhos ainda marejados ao final da sessão para se estabelecer como o golpe final da sucessão de bordoadas emocionais deferidas pela mais nova animação dos estúdios Pixar, que se aventura em um estudo inusitado sobre o processo de amadurecimento com doses equilibradas de humor, doçura e melancolia.

Escrito por Josh Cooley, Meg LeFauve e pelo diretor Pete Docter, o filme nos transporta para o interior da mente da jovem Riley (Kaitlyn Dias), onde as emoções Alegria (Amy Poehler), Tristeza (Phyllis Smith), Raiva (Lewis Black), Medo (Bill Hader) e Nojinho (Mindy Kaling) dividem o comando de uma central de operações responsável pelos estímulos e pela criação e armazenamento de memórias da garota. Porém, quando a família de Riley muda de cidade e a menina é exposta a uma série de ambientes e situações inéditos e desafiadores, Alegria e Tristeza são acidentalmente extraídas e afastadas da Sala de Comando e passam a enfrentar uma série de dificuldades para retornar, deixando a jovem sob os cuidados do Raiva, do Medo e da Nojinho.

Abraçando com vigor e sem receios a hipótese mais infantil e fantasiosa sobre o funcionamento do corpo humano – a de que pessoinhas desempenham tarefas específicas dentro de nós -, Divertida Mente lança um olhar lúdico e imaginativo sobre os mecanismos mentais de um indivíduo sujeito a um intenso processo de transformação, em um momento revelador e emblemático da vida. Nesse sentido, a produção acerta ao abraçar a complexidade da mente humana e abrir mão de um rigor lógico na concepção do universo psicológico: essencialmente, todas as leis em vigor naquele cenário são repletas de arbitrariedades – o que não impede, entretanto, que gerem fascinação e possuam alguma coerência própria. Assim, mesmo que as ilhas de personalidade criadas a partir de memórias-base não apresentem qualquer função prática, por exemplo, é impossível não se encantar com a forma como todos os elementos da trama mental refletem a montanha russa emocional que Riley embarca nos primeiros dias de sua nova vida: o desmoronamento da Terra da Bobeira, por exemplo, é um evento que deve despertar a identificação de boa parte dos espectadores, especialmente os mais grandinhos.

E é justamente aí que reside a grande beleza de Divertida Mente, cuja ambição resgata o brilhantismo que se tornou marca registrada da Pixar, mas não era visto desde Toy Story 3, de 2010. Com sensibilidade ímpar, o filme mostra como crescer e amadurecer é um processo tortuoso, desafiador, repleto de obstáculos, incertezas e perdas, que surpreende o indivíduo com rasteiras inesperadas e demanda que novas ferramentas sejam criadas para o enfrentamento de cada desafio extra apresentado pela vida. Além disso, o longa também merece nota por levantar a hipótese de que acolher emoções tidas como negativas, como a Tristeza, pode ser não só uma experiência catártica, mas também combustível para eventuais emoções positivas – uma ousadia admirável para um filme supostamente voltado para as superprotegidas crianças do século XXI. Como se não bastasse, Divertida Mente vai além e extrai alguns dos melhores frutos de sua premissa ao sugerir que o acervo de memórias-base (tidas como definidoras de personalidade) de um indivíduo pode, eventualmente, contar com uma parcela de recordações tristes – ou, ainda, de memórias agridoces, marcadas por emoções mistas, complexas, sem que tudo isso comprometa irremediavelmente a estabilidade emocional de uma pessoa.

E a eficiência com que Divertida Mente trabalha seus temas (incluindo aí, também, a excepcional cena em que damos uma bisbilhotada reveladora nas mentes dos pais de Riley durante um jantar) é tamanha que, mesmo apresentando um universo rico e prolífero, a produção não deixa a impressão de que grandes oportunidades foram desperdiçadas. Muito pelo contrário: com muitíssimo bom humor, o filme faz graça com situações corriqueiras (como sentir o cérebro congelar com alguma bebida ou ficar com uma música presa na cabeça), além de utilizar com extrema habilidade elementos previamente introduzidos sem maior alarde para tocar ou solucionar conflitos. Como não poderia deixar de ser, os aspectos técnicos da produção correspondem às altas expectativas no que diz respeito à qualidade e à riqueza de detalhes, embora o design da maioria dos personagens e de alguns cenários não esteja entre os mais memoráveis da Pixar.

Homenageando o Cinema ao atribuir à Fábrica de Sonhos (rótulo comumente atribuído à sétima arte) da mente de Riley uma fachada hollywoodiana clássica inconfundível, Divertida Mente é uma produção cuja imensidão do triunfo narrativo está diretamente vinculada à acessibilidade de seus temas e à sensibilidade com que são trabalhados. Afinal, que atire a primeira pedra aquele que nunca permitiu se afetar pelas dores implacáveis e recompensas revigorantes desse fantasma chamado amadurecimento.


Inside Out (EUA, 2015). Disney/Pixar. Animação.
Direção: Pete Docter
Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Richard Kind, Bill Hader, Lewis Black, Mindy Kaling, Kaitlyn Dias, Diane Lane, Kyle MacLachlan e John Ratzenberger.

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Animações, Críticas