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Charada cada vez mais perto do filme


Meryl Streep está cansada. Após quatro indicações ao Oscar sem vitórias seguidas, a atriz já declarou que se sente infeliz quando perde o prêmio, mais até do que quando não é indicada, como se seu trabalho não tivesse sido bom o suficiente. Seria com Dúvida, sua quinta indicação ao prêmio que Streep finalmente vai subir sorridente ao palco receber a estatueta dourada?

Dúvida
Por Breno Ribeiro

Em 2005, a peça Doubt: A Parable (Dúvida: Uma Parábola) foi agraciada com o prêmio Pulitzer na categoria Drama. O prêmio, considerado um dos mais importantes da área nos Estados Unidos, não foi o único dado à peça e a seu autor John Patrick Shanley. Ao todo, foram seis prêmios conseguidos pela peça. Tal reconhecimento fez com que Shanley (conhecido também por sua originalidade em roteiros para o cinema, tendo sido premiado em 1988 com o Oscar de Roteiro Original por Feitiço da Lua) decidisse por trazer a história às telas do cinema, tanto roteirizando o original como o dirigindo.

Passado em meados dos anos 60 em uma escola ligada a uma paróquia no Bronx, Dúvida nos apresenta à Irmã Aloysius cujos métodos ortodoxos em lidar com os alunos não são utilizados pelo padre da paróquia, Padre Flynn. Já contra o temperamento condescendente e gentil do padre e depois de ser advertida pela bondosa Irmã James, uma das professoras da escola, Irmã Aloysius passa a ter certeza de que Padre Flynn abusou do único aluno negro da instituição.

Cheio de metáforas imagéticas (as luzes que se apagam, o pássaro no teto da igreja visto por Donald, o abrir e fechar de janelas constante, dentre outros), o longa conta com roteiro e direções impecáveis. Embora ainda com resquícios de sua origem teatral (pouquíssimas locações, diálogos longos e expositivos e etc), o filme nunca soa forçado ou arrastado. Seu tema-título é abordado pela maior parte do tempo através de seu paradoxo: a certeza. A certeza cega e sem provas da Irmã Aloysius é, além de tudo, uma prova de sua fé. Colocar tal sentimento à prova é como duvidar de sua própria fé. Provar a culpa de Padre Flynn é, para a freira, tão importante quanto provar a um ateu a existência de Deus, mesmo embora não tendo provas.

A certeza cega dela tornaria sua personalidade vazia se não fosse pela maestria da cena final e pela atuação magnífica de Meryl Streep. A atriz cria um personagem complexo desde o início. Em praticamente todos os diálogos com o padre Flynn (do excelente Philip Seymour Hoffman), a atriz traz lágrimas aos olhos apenas para segurá-las e não deixá-las cair, um reflexo do orgulho e das incertezas da personagem. Já Amy Adams confere à Irmã James um olhar sempre ingênuo, embora duvidoso, diante das acusações de sua superior.

O figurino e a trilha são outros pontos altos do filme. Enquanto o primeiro acerta ao trajar as freiras com uma mistura de capuz com boné que não as bloqueia de sua visão periférica (em uma clara menção à certeza cega da personagem principal que não é capaz de ver tudo que a cerca, mas só o que deseja), o segundo é sábio ao criar o espírito certo em suas melodias dentro da igreja e em momentos de tensão, mas principalmente por se ausentar durante os diálogos enérgicos entre a freira e o padre, para que não haja nada que prenda mais a atenção do público do que o que se mostra na tela.

Como o próprio subtítulo do original já prevê, Dúvida é, antes de mais nada, uma parábola sobre o sentimento-título. Desta forma, se o sermão que abre o longa é apenas uma introdução ao que veremos a seguir, a última e intrigante cena fecha o ciclo ao mostrar que não há certeza ou dúvida absoluta, da mesma forma que não há apenas Bem ou Mal. Embora cheio de qualidades e diálogos muito bem escritos, tenho quase certeza (olha ela aí) de que o longa não agradará a todos, muito mais pela forte e profunda complexidade emocional de sua composição do que falta de competência de quem o fez. Mesmo assim, o projeto foi um dos melhores filmes feitos ano passado pela indústria cinematográfica, sem dúvida.


Doubt (EUA, 2008). Drama. Buena Vista.
Direção: John Patrick Shanley
Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Philip Seymour Hoffman

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10 respostas para »CRÍTICA: Dúvida»
  1. Quase não leio críticas do Pipoca Combo, só quando são filmes que eu quero ver. -q Gostei muito dessa, vou correndo comprar o meu ingresso. :’)

  2. *que eu quero ver mesmo

  3. Bom, pelo menos ele falou do figurino.

  4. SHAUIshauishaiusaiuh Árion.

    Infelizmente, esse ano ela não ganha de novo.

  5. Para de agorar Arthur…
    Já vi o filme duas vezes… as atuações de todos os 4 indicados está excelente…

  6. [...] Feitiço da Lua) decidisse por trazer a história às telas do cinema … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]

  7. Aaaah *.*
    Quero ver, quero ver, quero ver >.<

  8. Não achei o filme nem metade do que eu esperava. (:

  9. Pode-se esperar maestria com Meryl Streep. Sempre.
    É maravilhoso ver a sofisticação com a delicadeza que ela (o mito) imprime.

    Concordo com o primeiro parágrafo da crítica. Aloysious ficaria vazia , não fosse pela cena final.

  10. Willis de Faria diz:

    “Duvida”, tem o roteiro desenvolvido na Escola São Nicolau, localizada no Bronx, freqüentada em grande parte por descendentes de imigrantes católicos irlandeses. A paróquia liderada por um padre, que em sua pregação verbaliza temas refletivos, de forma tornar comunidade-escola, uma relação mais amigável. Amy Adams é a Irmã James e Meryl Streep é a assustadora e rigorosa Irmã Aloysius Beauvier. Ambas as mulheres vêem-se apanhados em uma história em que elas acreditam que o sacerdote, padre Brendan Flynn (Phillip Seymor Hoffman) é, de fato, um pedófilo, explorador de crianças. Mas até onde você pode viajar na busca da justiça sem provas? Tudo começa quando a Irmã James observa o padre transportando para uma reunião privada um novo aluno, o único negro da escola, que atua como coroinha nas missas, e depois coloca uma camisa suja de volta no seu armário. Ela conta o fato para a rigorosa Irmã Aloysius. Aí começa esgrima verbal entre Padre Flynn e Irmã Aloysius, magnificamente trazida para a vida pelas performances de Hoffman e Streep. “Dúvida” é um intelectual de jogo de gato e rato, não tanto com as emoções do público, mas com os seus processos de pensamento, e sentimento de crença. “Duvida” vai abaixo da superfície e analisa a ação sistêmica de questões que lhe permitia acontecer, a fé absoluta, o patriarcado da Igreja Católica e da inerente inferioridade da mulher religiosa na referida igreja. Para interação e intriga, o filme usa apena como efeitos especiais uma lâmpada que queima explodindo e um vento uivante nas janelas. Dúvida é um acentuado drama escrito sobre um único evento que se desenvolve em uma feroz luta pelo poder entre uma freira e um padre liberal. Nota: 9,0

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