CRÍTICA | Educação

Críticas
// 18/02/2010
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Concepção de mundo, firmeza de valores, atalhos para a vida perfeita com que sonha todo jovem começando a vida, decepções e o aprendizado que está além dos livros. Esses e outros temas alternam-se no filme da diretora dinamarquesa Lone Scherfig. Adaptado da autobiografia da jornalista britânica Lynn Barber, Educação retrata os dilemas que repentinamente surgem no caminho da adolescente Jenny, interpretada por Carey Mulligan, numa atuação que lhe rendeu, além de outros prêmios no circuito cinematográfico, a merecida indicação ao Oscar de Melhor Atriz. Apesar de trazer em seu roteiro um acabamento moral não tão inovador, o longa contém uma proposta interessante.

Vivendo numa Europa ainda com lembranças recentes da Segunda Guerra, a estudante londrina Jenny cumpre a rotina comum para garotas de sua idade. Em pleno início dos anos 60, cabia às jovens, além do conteúdo didático de qualquer colegial, estar preparada para ser uma boa esposa, mãe e dona-de-casa. Às aulas de literatura em que a menina se destaca das demais colegas, mesclam-se ensinamentos de etiqueta, de como se portar como uma dama. Mas Jenny sonha mais alto, enquanto sua família sonha mais alto por ela. A garota encara com disciplina e dedicação seus estudos, tudo em nome de conquistar uma vaga na universidade de Oxford, objetivo também de seu próprio pai. O problema é que a mentalidade de Jenny vai além do status de estudar em uma conceituada instituição; ela ama, sobretudo, a arte em todas as formas de sua representação. Um de seus amores é a França, país em que nunca esteve, mas que sonha conhecer. Para alcançar todos os seus desejos, ela não se deixa distrair nem pelo flerte atrapalhado do colega.

Jenny começa questionar seus métodos de vida quando conhece um homem mais velho, David (Peter Sarsgaard), e se encanta por ele. O rapaz oferece à estudante um mundo mais divertido do que as horas de confinamento que gasta em seu quarto em cima de dicionários de latim. De uma hora para a outra, a jovem se vê diante da possibilidade de frequentar festas elegantes, concertos de música clássica e ter contato com a arte, isso tudo sem o calvário de inúmeras horas de estudo diárias. A menina se deslumbra por este novo universo e se deixa levar pelas aventuras de David e seus amigos Danny (Dominic Cooper) e Helen (Rosamund Piker). Aos poucos, Jenny vai percebendo que o rapaz não é o poço de virtude que ela e sua família pensavam ser.

É interessante observar no longa como a atitude do pai de Jenny, Jack (Alfred Molina), muda gradualmente. Se antes ele se incomodava até mesmo com o fato de que a filha queria dedicar mais tempo às lições na orquestra juvenil e, segundo ele mesmo, isso deveria ser apenas um hobby, aos poucos também vai se deixando seduzir pela lábia de David e sendo conivente com as constantes saídas e viagens da menina. O pai vê em David e nos contatos que o rapaz constantemente alardeia possuir uma nova possibilidade de futuro para a filha. Isso pelo menos ameniza a fragilidade moral por que passa Jenny. Se a garota se deixa levar pelo glamour de um mundo colorido, seu pai, muito mais experiente e disciplinador, tampouco consegue escapar dos mimos que David oferece.

O âmbito em que Educação mais foi feliz sem dúvida é o das atuações. Enquanto Carey Mulligan esbanja o frescor, a delicadeza e ao mesmo tempo a determinação da juventude que existe em Jenny, seus companheiros de cena não ficam atrás. Alfred Molina, no papel do pai autoritário, demonstra as nuances de seu personagem em pequenos detalhes. O trio de amigos boêmios formado por David, Helen e Danny encantam o espectador assim como conquistaram a confiança de Jenny. Um pena, porém, que as excelentes Emma Thompson e Olivia Williams, diretora e professora de Jenny respectivamente, foram mal aproveitadas no elenco e pouco puderam mostrar, especialmente Williams, com cuja personagem a jovem chega a entrar em conflito de valores.

Como já foi dito, o filme tem um fechamento moral um tanto quadrado e não deixa muita brecha para que o próprio espectador tire suas conclusões. Seria mais interessante que o longa deixasse em aberto o conflito entre o ensinamento formal e o aprendizado com as experiências vivenciadas. Jenny pôde experimentar as duas formas de lição, não há por que negar nenhuma delas a quem assistirá ao longa de Scherfig. Apesar disso, não há dúvidas de que a experiência trazida na adaptação é agradável e bastante elucidativa. Com certeza muitos jovens irão se identificar com os questionamentos de Jenny sobre qual o caminho certo e o fácil.


An Education (Reino Unido, 2009). Drama. Sony Pictures.
Direção: Lone Scherfig
Elenco: Peter Sarsgaard, Carey Mulligan, Alfred Molina.

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Críticas, Drama