CRÍTICA: Entre Lençóis

Críticas
// 03/12/2008

Tem muita gente que adora o cinema brasileiro. Seja pelo simples motivo de prestigiar o que é nosso ou porque sabe que vai encontrar aquelas figuras certas da Rede Globo na tela grande, que tão acostumados já estão a encarar. Entre Lençóis, romance com Paola Oliveira e Reinaldo Gianecchini, estréia nessa sexta-feira no Brasil, com muitas, mas muitas cenas onde o despudor é claro.

Entre Lençóis
por Arthur Melo

“Todo mundo vive isto em algum momento: conhecer uma pessoa e querer transar imediatamente com ela”. Não é uma mentira. Mas o diretor colombiano Gustavo Nieto Roa, dono dessas palavras, faz todo o percurso até as vias de fato parecer ridiculamente mais curto do que o previsto. Com uma trama sem história e baseada em diálogos corridos, o nacional Entre Lençóis procura se firmar em cenas de sexo intensas pelo despudor, mas delicadas pelo modo como são tratadas.

Em uma balada, Reynaldo Gianecchini encontra Paola de Oliveira e, movidos pelo ardor da tensão sexual instantânea sem nenhuma palavra como mediadora, vão parar num motel onde passam a noite. Antes apenas sexo, o encontro que deveria ser rápido é prolongado a cada princípio de discussão, desencadeando num divã entre fronhas e lençóis onde cada mágoa se transformará em um stopim para não só conhecer o parceiro do dia, mas a si próprios. O desejo que era só carnal evolui para a necessidade da companhia do outro e, por mais belo que possa soar, essa busca não o objeto de desejo do diretor.

O texto se sai bem, apesar dos lugares comuns, com réplicas objetivas e interessantes que vez ou outra caem em frases feitas que dão a impressão de ter havido uma improvisação por parte da dupla em cena que foi além das cenas mais cômicas. Gianecchini claramente progrediu se comparado aos seus últimos trabalhos na TV. Sua expressividade e postura estão mais apuradas e Paola Oliveira se manteve no mesmo nível. Os momentos de intimidade e nudez fluem com delicadeza, mas chegam próximos do banal. A verdadeira tentação parece ter surgido em Nieto Roa, que multiplica as seqüências de sexo para uma quantidade desnecessária, totalmente voltado para a exploração dos corpos do casal.

Com um ritmo quebrado constantemente pelos intervalos para propagar os atos físicos dos protagonistas, o enredo perde a essência bem construída pela curiosidade das descobertas em conjunto por pessoas estranhas para dar lugar a um drama que não se consolida por não ter se preocupado em desenvolver os personagens. A paixão nova e imatura que sustentava o sexo tão prazeroso do casal vira coadjuvante de uma repentina alteração das motivações de riso e felicidade para lágrimas. O maior desencaixe do longa. Situados numa relação com um duração que se resume a algumas voltas do relógio, Paula e Roberto se vêem diante do impasse de alterar por completo a importância do que já viveram antes do encontro e no rumo de suas vidas, algo que não convence em uma união tão recente. Pelo menos não da maneira como é tratada.

A destruição de todo o conto daquela noite vem na forma como o casal passa a estabelecer suas prioridades, gerando ressentimentos e desconfianças de dimensões exorbitantes para uma situação que deveria ser passageira. É nessa passagem das carícias para as acusações que o diretor se descuida. A conversão é imediata, exigindo de Paola e Gianecchini uma responsabilidade de domar as emoções que eles ainda não têm, causando uma decadência de suas atuações enfatizada pelo despreparo que o diretor já apontava desde os minutos iniciais e que agora se confirmam.

Em termos de contribuição, Entre Lençóis pouco deve ser lembrado pelos que se interessam por um romance intenso que muda algumas visões sobre as paixões- relâmpago ou sobre a vida a dois duradoura. Em questão de aproveitamento, o filme se limita ao pouco que a história de amor instiga. No fim das contas, tudo não passou de um relacionamento de ocasião entre a obra e o espectador, que acaba no fim da sessão.


Entre Lençóis (Brasil, 2008). Romance. Imagem Filmes
Direção: Gustavo Nieto Roa
Elenco: Paola de Oliveira e Reinaldo Gianecchini

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