CRÍTICA | Estrelas Além do Tempo

Críticas
// 01/02/2017
estrelas alem do tempo

Uma das produções mais importantes entre os favoritos ao Oscar este ano, Estrelas Além do Tempo, indicado a três das principais categorias, lança mão de um charmoso, ainda que um tanto asséptico, recorte moderno para narrar a história real de três mulheres negras que tiveram participação fundamental no projeto norte-americano – e humano – de chegar ao espaço e, eventualmente, à Lua.

Com a vantagem de um trio excepcional de protagonistas e o tempero de uma ótima trilha sonora, a cargo do visionário pop Pharrell Williams, que também está entre os produtores do filme, e do onipresente compositor cinematográfico Hans Zimmer, o longa dialoga com propriedade com o atual momento de ruptura política e social atravessado não apenas pelos autoproclamados Estados Unidos da América, mas também por nós aqui no Brasil e, em maior (Síria) ou menor (Canadá) grau, por boa parte do mundo civilizado (?) atual.

O título em português, curiosamente metafísico, não faz jus ao original, que faz referência tanto às literais “figuras escondidas” da História, na forma de Katherine Goble (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughn (Octavia Spencer, indicada ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante) e Mary Jackson (Janelle Monáe), quanto aos números buscados nos cálculos dessas profissionais da NASA. Afinal, como o personagem de Kevin Costner – o fictício diretor Al Harrison, criado a partir de três personalidades reais da agência espacial – destaca mais de uma vez ao longo do filme, o que estava em jogo era uma matemática que até então não existia, uma vez que não conhecíamos quase nada sobre as condições físicas a serem enfrentadas ao deixarmos a atmosfera terrestre pelas primeiras vezes. Kirsten Dunst e Jim Parsons (o Sheldon de The Big Bang Theory) completam o elenco principal, interpretando a obrigatória parcela de personagens preconceituosos nojentinhos.

O filme apresenta uma cota de momentos chocantes no que se refere à delicada posição das protagonistas na sociedade extremamente machista e racista dos Estados Unidos na década de 1960, mas na maior parte do tempo o diretor Theodore Melfi mantém tais questões no nível das insinuações, sem adentrar de fato o tema. Assim, fica a cargo do ótimo elenco transmitir a visceralidade da luta de Katherine, Dorothy e Mary para obter o simples reconhecimento de suas capacidades e conquistas em um meio que as enxerga como cidadãs de segunda classe. Taraji Henson, criminosamente ignorada pela Academia, é responsável por um discurso-desabafo de arrancar lágrimas, enquanto o ex-super-astro Costner apresenta sua atuação mais relevante em pelo menos uma década.

Em tempos de redefinição de valores e polarização exacerbada de ideais, Estrelas Além do Tempo é um documento valioso, que atesta com fatos históricos a importância da empatia, abertura e reconhecimento mútuo entre seres humanos, independentemente de tradições e princípios pré-estabelecidos. Que essa mensagem esteja sendo transmitida por pura visão comercial das tendências comportamentais contemporâneas, ou por um real processo de esclarecimento dos grandes players de Hollywood, pouco importa. Resta esperar que ela alcance os olhos e ouvidos certos.


Hidden Figures (EUA, 2016). Drama. 20th Century Fox.
Direção: Theodore Melfi
Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons.

8-pipocas

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Categorias
Críticas, Drama