CRÍTICA | Fausto

Críticas
// 28/06/2012

Chega ao Brasil o último vencedor do Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza. Sua 68º edição ocorreu em setembro do de 2011 e o filme premiado concorreu com alguns já chegados e conhecidos por aqui, como Shame, Tudo Pelo Poder, Um Método Perigoso, O Espião Que Sabia Demais e Deus da Carnificina. A qualidade da seleção é notável pelas críticas publicadas aqui. Fausto, de Aleksandr Sokurov, não fica para trás.

Fausto
por Henrique Marino 

Logo de início há o aviso de que este Fausto é uma adaptação livre do de Goethe. Não poderia ser diferente, pois aquele tem seus objetivos críticos muito claros quando inserido em seu contexto histórico. Seria descabido, em pleno século XXI e num formato audiovisual, trazê-los todos. Apenas o essencial é focado.

O plano inicial é um amplo movimento de câmera, que desce das estrelas e passa por nuvens, onde um espelho preso numa corrente (que está presa onde?) aparece, dele um lenço se desprende e vai caindo, a câmera acompanha sua queda, mostrando a face da terra (montanhas, florestas, mares, rios). O lenço cai numa cidadezinha encravada no mundo. O foco está nessa cidade, onde mora o protagonista e onde ocorre a ação do filme. Do celestial e místico, descemos ao terreno.

No plano seguinte, somos apresentados a Fausto, homem cansado de sua ciência, enfastiado de tanto saber. Sua primeira aparição é uma pedra angular na concepção do personagem. Precedido por um close em órgãos genitais masculinos flácidos e mortos, logo a câmera o revela retirando o órgão interno de um defunto. Seu ajudante Wagner o indaga sobre a alma, onde ela estaria. Fausto nunca a encontrara. O corpo é um objeto, um instrumento para a ciência. Diz o assistente que só Deus e o Diabo sabem onde a alma está. Fausto quer saber onde estão esses dois, então. Wagner responde que Deus está em todas as coisas e o Diabo, no dinheiro e que, por isso, dizem ser este um cara seboso na praça, um penhorista.

Mas Fausto não sofre apenas das dores da alma, seu corpo também está faminto, ele não tem dinheiro, assim como todos na cidade. Nessa urgência, procura o pai, que lhe nega dinheiro e comida. Então vai atrás do penhorista na tentativa de conseguir algum dinheiro penhorando um anel com uma pedra filosofal. Há, enfim, o encontro entre Fausto e Mefistófeles (nunca mencionado dessa forma, mas isso não impede que ele seja reconhecido assim logo de início, já que a interpretação de Anton Adasinsky, sempre ótimo ao longo da película, denuncia, pelos modos estranhos e argumentos cínicos, o personagem). Num primeiro instante, não há acordo nenhum, nem o anel é penhorado. No entanto, Mefistófeles se aproxima de Fausto, engendrando um plano para conquistar sua alma, que, ao contrário da história comum, não é apostada nem vendida antes das aventuras.  A história, contudo, é a clássica. Mas é melhor deixar que o leitor a descubra (ou reveja) por si. Sinopses não acrescentam muito e só destruiriam certas surpresas.

Ao contrário do que se pode pensar, por este ser um filme europeu, de um diretor russo consagrado, vencedor num festival “cult”, não estamos diante de uma obra lenta e ininteligível. Ela é, sim, cheia de símbolos de difícil compreensão (como o espelho no primeiro plano, entre outros que aparecem sucessivamente na película), porém, em nada isso atrapalha o entendimento da trama, pelo contrário, só a enriquece, instigando a curiosidade sobre os elementos mais subjetivos que o autor nos oferta. No mais, o texto é claro e direto e, embora tenha seus relampejos de filosofia, não se atém detidamente a eles por muito tempo, de modo que a trama e as questões mais profundas fluem rapidamente — talvez até demais. Em certos momentos, a relação de Fausto e Mefistófeles chega a ser cômica e meio atrapalhada, sem ser apelativa. Fausto quer dinheiro e comida; Mefistófeles o enrola cinicamente no seu plano. Isso contribui para que o filme seja mais tragável a um público desinteressado em cinema, embora o objetivo de ser desse modo não seja esse. O próprio personagem de Mefistófeles acrescenta uma graça carregada de crítica aos homens e à Igreja; afinal, sendo o Diabo, ele deve zombar de tudo. A montagem também evita que o filme se desenrole lentamente, pois oferece planos geralmente curtos.

A fotografia merece um comentário em especial, porque ela é especial. Em primeiro lugar, o formato da janela é quadrado, fechando as imagens e tornando-as mais rígidas, como nos filmes antigos. Assim, Sokurov usa de bastante movimento de câmera e dos objetos filmados para contrabalançar a rigidez do formato. Os movimentos de câmera, bem como os enquadramentos, são usados com precisão: lentos ou rápidos, próximos ou distantes, fechados ou abertos, todos usados quando devem ser. Em alguns momentos a proporção da imagem é distorcida, ressaltando ainda mais o movimento e a confusão. Outro aspecto da fotografia, talvez o mais chamativo, é sua palheta de cores. As cores são esmaecidas, são tons pastéis e dificilmente uma cor muito vibrante ou quente aparece. Há predomínio de amarelos, verdes e azuis. Em algumas cenas, há domínio apenas de uma dessas cores, como se o quadro fosse todo pintado em diversos verdes. As cores não são usadas à toa, mas para dar o teor correto da cena. A luminosidade sutil e difusa, muito curiosa, unida a essa palheta de cores enriquece a fotografia, pois aumenta o número de tonalidades. O resultado é uma fotografia muito bonita, lembrando um quadro pintado ou um sonho. Quem assina a direção de fotografia é Bruno Delbonnel, ótimo também em Amélie Poulain, Harry Potter e O Enigma do Príncipe (filmes estes pelos quais recebeu indicações ao Oscar) e no recente Sombras da Noite.

Quem merece todos os elogios por esse trabalho é Sokurov, que propôs um estilo e o seguiu fielmente até o final. Suas imagens misturam uma realidade bruta e cruel com distorções subjetivas de cores e proporções. Seu texto é reflexivo e fluído. E velhas perguntas são refeitas: quanto vale nossa alma? O que estamos dispostos a matar e corromper para satisfazê-la? Ou será que ela nem existe?

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Faust (Rússia, 2011). Drama. Imovison.
Direção: Aleksandr Sokurov
Elenco: Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dychauk, George Friedrich

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Críticas, Drama