CRÍTICA | Foxcatcher

Críticas
// 22/01/2015
Recheado de ótimas atuações e exalando o doce perfume do Oscar, Foxcatcher conta uma história que, tendo chocado o mundo ou não, convida o espectador a observar com calma e de perto personagens que jamais revelam-se menos que instigantes.

Foxcatcher
por Eduardo Monteiro
O subtítulo nacional de Foxcatcher figura entre as decisões mais mesquinhas tomadas por uma distribuidora brasileira nos últimos tempos. Explicitando o teor de um episódio que só é apresentando ao público em um momento tardio da narrativa, o subtítulo assume deliberadamente o risco de prejudicar a experiência daqueles que, como eu, entrarem na sala de cinema sabendo pouco ou nada sobre os acontecimentos reais que inspiraram a produção – e considerando que o “choque” só é consumado de fato nos minutos finais da projeção, a distribuidora acaba provendo ao público brasileiro duas horas de inquietude e expectativas desnecessárias que fatalmente comprometem, mesmo que em pequeno grau, o impacto do desfecho.
Felizmente, o filme é eficaz o bastante para resistir, alheio a esses prejuízos, como uma obra suficientemente interessante. Escrito por E. Max Frye e Dan Futterman, o roteiro acompanha Mark Schultz (Channing Tatum), um lutador que, como muitos esportistas, segue uma rotina de treinamento em que sua dedicação é inversamente proporcional ao suporte financeiro que recebe. Nesse contexto, Mark é surpreendido pela proposta do multimilionário John E. du Pont (Steve Carell), que lhe oferece remuneração mensal, moradia completa e acesso às instalações de ponta em sua propriedade, de modo que o sujeito ingresse na Equipe Foxcatcher e dê sequência à sua preparação para os Jogos Olímpicos de 1988.
O que exatamente o misterioso e endinheirado du Pont pretendia obter como retorno do investimento é uma dúvida que imediatamente intriga os personagens e, como não poderia deixar de ser, acaba sendo compartilhada pelo público – e este é apenas o embrião do cuidadoso estudo de personagem que conduz a narrativa dali em diante, quando os realizadores passam a investigar e tentar decifrar a personalidade por trás da fala mansa, da postura travada e das ações eventualmente inusitadas do milionário. Nesse sentido, o desempenho de Steve Carell é certeiro e louvável: conhecido por seu impecável timing cômico, o ator surge em cena com diversas próteses faciais e investe em uma composição (do tom de voz à linguagem corporal) ao mesmo tempo marcante e contida, transformando du Pont em um indivíduo absolutamente difícil de ser lido.
Por essas e outras, é natural e esperado que o filme se afaste, pelo menos em alguns aspectos, da história real – e mesmo sem estar familiarizado com os detalhes do caso, tudo me leva a crer que os realizadores acertaram ao investir mais na construção de uma figura consistente como personagem do que no retrato fiel de uma personalidade real, especialmente em se tratando de um indivíduo cujas reais percepções sobre o mundo permanecem um mistério. Dessa forma, os roteiristas pincelam várias pistas ao longo da narrativa que ajudam o público a especular sobre as motivações por trás das atitudes mais extremas do personagem: socialmente inapto, solitário e ególatra inveterado, du Pont parece assumir um comportamento obsessivo e possessivo na relação com Mark, que foge dos padrões esperados tanto de uma amizade quanto de um vínculo profissional. Além disso, a prioridade dada à família em detrimento da carreira e a personalidade centrada do irmão do atleta, o também lutador David Schultz (Mark Ruffalo), parecem soar como uma pedra no sapato de du Pont, já que, ao contrário do caçula, o personagem de Ruffalo não parece enxergar motivo para ceder tão facilmente aos caprichos do ricaço – como fica evidente na passagem em que David fica visivelmente desconfortável ao ser induzido a tecer elogios inverídicos sobre du Pont diante de uma câmera e na presença do próprio.
Porém, embora o treinador vivido por Steve Carell seja a figura mais marcante e intrigante da trama, os demais personagens não são negligenciados pelo longa: com uma abordagem desapressada e intimista que remete a seu trabalho em Capote, o diretor Bennett Miller constrói o progresso e a eventual ruína de Mark de forma correta e cuidadosa, contando com um bom desempenho do esforçado Channing Tatum. Já Mark Ruffalo, dando sequência a um ano admirável após o excelente trabalho no telefilme The Normal Heart, destaca-se por transformar com enorme talento David em um sujeito simples, batalhador, centrado e imensamente devoto à família – o que, eventualmente, o obriga a se dividir entre o irmão (conduzindo-o, de tabela, para perto de du Pont) e a esposa e os filhos, conforme as necessidades mais imediatas de cada um.
Dominado por uma atmosfera sempre fria e triste, Foxcatcher apresenta ao público uma história que, por incrível que pareça, não conta com um potencial cinematográfico tão evidente assim – e o simples fato de ter resultado em uma obra tão surpreendentemente eficaz já diz bastante sobre seus méritos.
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Foxcatcher (EUA, 2014). Drama. Sony Pictures.
DireçãoBennett Miller 
Elenco: Steve Carell, Mark Ruffalo, Channing Tatum
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Categorias
Críticas, Drama