CRÍTICA: Frost/Nixon

Biografia
// 21/02/2009

À vespera do Oscar, o PipocaCombo lançou hoje a crítica de um dos favoritos da premiação Quem Quer Ser Um Milionário? e coloca no ar agora a crítica do último dos cinco filmes que concorrem ao prêmio máximo da noite de amanhã. Um retrato histórico dos Estados Unidos, Frost/Nixon é o mais novo filme de Ron Howard e narra as entrevistas entre os personagens-título depois do escândalo estadunidense de Watergate. Confira a crítica abaixo.

Frost/Nixon
Por Breno Ribeiro

O escândalo de Watergate, conhecido como um dos maiores casos de corrupção presidencial nos EUA, aconteceu em 1972, quando um grupo de republicanos foi preso depois de arrombar e entrar no Comitê Democrático Nacional, no complexo de prédios Watergate, em Washington. Na época, o presidente Richard Nixon lutava pelo seu segundo mandato à frente da Casa Branca. Depois de anos de investigação, o FBI revelou que os homens estavam a serviço dos Republicanos. Em 1974, Nixon renunciaria à presidência dos EUA, sem ter se considerado culpado ou envolvido no caso. É justamente neste ponto da História que tem início o mais novo filme do diretor Ron Howard, Frost/Nixon.

Depois de uma rápida e ágil introdução sobre os acontecimentos que precederam à renúncia de Nixon, somos apresentados ao ambicioso apresentador inglês David Frost. Frost, sempre em busca de audiência, decide, ao lado de seu produtor, convidar Nixon para uma série de entrevistas. Assim, Nixon vê na falta de experiência e seriedade do show-man uma oportunidade para reerguer sua moral com o povo americano, enquanto Frost busca o reconhecimento e fama que ele acredita merecer.

Diferente do que pintariam outros roteiros ou do que pinta o próprio slogan do filme (“Uma batalha épica pela verdade.”), o script escrito por Peter Morgan a partir de sua peça de mesmo nome não tenta estabelecer personalidades virtuosas para nenhum dos dois lados. Frost não espera trazer a verdade à tona, muito menos um pedido de desculpas ao povo por parte de Nixon (notem como ele tenta esconder surpresa ao descobrir que essas eram as intenções de um de seus colaboradores). Tampouco Nixon deseja uma redenção pelo que fizera no passado, estando apenas interessado em conseguir popularidade suficiente para uma eventual futura eleição.

Dessa forma, o roteirista emprega boa parte do tempo do filme em algo alheio ao público (uma vez que as entrevistas e o final das mesmas são nacionalmente conhecidos nos EUA): as dificuldades e empecilhos encontrados pelo apresentador para conseguir o patrocínio necessário para arrecadar o dinheiro cobrado pelo ex-presidente. Adotando ainda um caráter mais documental (com cenas de pequenas entrevistas com os personagens secundários narrando fatos ocorridos), diretor e roteirista conseguem alcançar, com facilidade, a aura histórica que o filme transpira antes mesmo de sua primeira cena. Ainda, Howard é feliz ao conferir planos e seqüências que trazem o clima de batalha e disputa à tela. Perceba, por exemplo, como o diretor posiciona sua câmera quando os companheiros de Frost e os subordinados de Nixon se encontram pela primeira vez antes do início das entrevista; um plano óbvio para filmes épicos, mas que aqui soa inspirado por alcançar o nível de disputa conferido pelo texto.

Ainda que surja em um primeiro plano com um papel de maior tempo em tela do que Frank Langella (Nixon), Michael Sheen é facilmente “destruído pelo oponente”. Langella, indicado justamente ao Oscar de Melhor Ator, nos apresenta a um Nixon aparentemente forte, mas frágil e sozinho sob a casca que o cobre. O humor por vezes ácido do ex-presidente é retratado pelo ator tão sutilmente que é como ele não estivesse atuando (como na cena em que Nixon, ao saber de algo que considera ruim no passado de Frost, nos mostra seus reais pensamentos apenas com um leve levantar de sobrancelha, antes de soltar um leve “Oh…”). Muito embora aquém de Langella, Sheen também nos introduz a um personagem deveras complexo. Sempre com um sorriso no rosto, Frost, assim como Nixon, esconde suas inseguranças através da imagem sempre feliz, o que é perceptível desde o começo do longa. Isso torna a cena em que o apresentador finalmente desfaz seu sorriso galante em uma das entrevistas ainda mais arrasadora, uma vez que apenas algo bem sério poderia abalar uma falsa imagem de otimismo tão bem construída.

Fadado a um final que claramente não trará surpresa alguma ao espectador, o longa se dá ao luxo de tentar fazê-lo mesmo assim. Dessa forma, quando achamos que o filme finalmente acabará com óbvios letreiros nos informando o final de cada personagem (o que de fato acontece logo após), nos é mostrada uma cena que em poucos minutos resume não só o filme em si, mas a personalidade instigante e imprevisível de seus protagonistas. Ainda, a trilha de Hans Zimmer é desenvolvida parcimoniosamente ao desenvolver o clima de tensão e expectativa apenas nos momentos em que são esperados.

Muito embora recheado de qualidades, Frost/Nixon não agradará a todos. É notável dizer que poucas pessoas gostam ou mesmo se interessam em política e nem ao menos procurarão assistir ao longa. Entretanto, Frost/Nixon está um passo acima da simples disputa e contextualização político-histórica na qual está inserido. O longa (e suas atuações) se encontra muito mais ligado às questões da psique de seus personagens, porém claramente não se desvencilha de todo da política. Mesmo assim, sugiro uma leitura rápida em um ou dois parágrafos sobre o caso Watergate, apenas para que possam saborear cada uma das nuances que o filme oferece.

Frost/Nixon (EUA; 2008) Drama, Biografia. Universal Pictures.
Direção: Ron Howard
Elenco: Michael Sheen, Frank Langella, Kevin Bacon.

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Biografia, Críticas, Drama