CRÍTICA | G.I. Joe: Retaliação

Ação
// 29/03/2013

A unidade militar de elite americana que soluciona complexos impasses geopolíticos na base do chumbo retorna com um elenco repaginado em uma sequência sem pudores em reconhecer os próprios absurdos com um leve toque de humor – que infelizmente parece passar despercebido pelo novo protagonista Dwayne “The Rock” Johnson.

G.I. Joe: Retaliação
Por Gabriel Costa

Há vários caminhos para seguir na adaptação de um material de base tão tênue e vago quanto o dos nossos caros Comandos em Ação. Afinal, os brinquedos originais mal tinham uma história por trás de sua concepção, enquanto o enredo do desenho animado era basicamente “os Cobras são maus e os G.I. Joe os impedem de fazer coisas ruins”. É possível seguir a escola Transformers de Michael Bay e inserir elementos contemporâneos e um ponto de vista jovem a partir do qual acompanhar a trama dos personagens-título. Outra opção é apelar para uma estética arrojada cool para ofuscar as inconsistências de uma história essencialmente infantil, como foi feito no primeiro filme dos Joes, de 2009. Já em G.I. Joe: Retaliação, o diretor Jon Chu, do, hã, documentário Justin Bieber: Never Say Never, assume a franquia e opta por assumir os excessos em nome do entretenimento raso, puro e simples, sem falsas justificativas – ou medo de parecer ridículo.

O enredo da sequência-que-na-verdade-é-um-novo-começo segue a tradicional receita de colocar os heróis não apenas às voltas com seus adversários, mas também com a traição de seus próprios superiores, uma vez que o governo americano foi infiltrado pela organização terrorista Cobra no nível mais elevado: o próprio presidente dos Estados Unidos foi secretamente substituído pelo mestre dos disfarces Zartan, que aparece em poucas cenas com sua “aparência real”, vivida por Arnold Vosloo, e permanece a maior parte do tempo na pele de um surpreendentemente divertido Jonathan Pryce. Com a ajuda de Storm Shadow (Lee Byung-hun) e Firefly (Ray Stevenson, o Frank Castle de Justiceiro: Zona de Guerra), Zartan arquiteta a eliminação dos G.I. Joe e a fuga do caricato arquivilão Comandante Cobra (Luke Bracey que substitui Joseph Gordon-Levitt no papel) de uma prisão de segurança ultramáxima.

Após uma emboscada desproporcionalmente devastadora, os Joes são reduzidos apenas a Flint (D.J. Cotrona), Lady Jaye (Adrianne Palicki), Roadblock (Dwayne Johnson), que assume a liderança que antes cabia a seu amigo Duke (Channing Tatum), e o implacável Snake Eyes (Ray Park), que está no Japão. Cabe aos heróis remanescentes, com a ajuda da ninja novata Jinx (Elodie Yung) e do veterano general Joseph Colton (Bruce Willis, em participação pouco expressiva como uma espécie de John McClane desorientado), o G.I. Joe original, desmascarar o impostor antes que ele provoque uma crise internacional da qual somente os Cobras sairão vitoriosos.

À primeira vista, fica evidente que o design ultramoderno de uniformes, equipamentos e veículos do primeiro filme deu lugar a itens de aparência militar pesada que lembram mais os brinquedos originais. A mudança, no entanto, não prioriza o realismo: os bons efeitos trabalham em conjunto com o uso eficiente da tecnologia 3D na construção de sequências de ação que não têm nem um pé na realidade, e por isso mesmo são impressionantes, como o combate de Snake Eyes e Jinx com ninjas assassinos entre os picos do Himalaia.

Chu coordena a ação inverossímil com o ocasional tom semi-irônico do longa, que funciona como um agradável contraponto à trama rasa. As sequências no Japão, por exemplo, chegam ao cúmulo do ridículo, mas não deixam de apresentar um charme caricato no estilo do Pai Mei de Tarantino em Kill Bill, evidente referência para o rapper RZA em sua caracterização do Blind Master. A abordagem simplista quanto às questões políticas também recebe o tempero de um breve comentário irônico sobre a tendenciosa Fox News e diversas alfinetadas às políticas da Coreia do Norte. Confortável na caracterização de militar durão, Johnson, que desde o início parece praticar bullying com os demais personagens para reafirmar a posição de protagonista, é o único que destoa do tom geral e busca uma seriedade completamente fora de contexto, e chega a provocar risadas involuntárias com suas eventuais lições de moral.

Com pouquíssimas surpresas além de um acontecimento inicial claramente propiciado por questões práticas e comerciais fora do roteiro, o filme, assim como o anterior, faz questão de deixar bem claras as pontas abertas para o desenvolvimento de novas continuações. A soma do apelo original da franquia à ação irreal mas adrenalizante e os bem-vindos elementos de humor forma uma receita fértil para o bom divertimento fast food que não precisa de tramas sérias e conteúdo emocional para funcionar. Caso alguém tenha coragem de contar isso para um sujeito do tamanho de Dwayne Johnson, pode ficar melhor ainda.

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G.I. Joe: Retaliation (EUA, 2013) Ação. Paramount Pictures
Direção: Jon Chu
Elenco: Dwayne Johnson, D.J. Cotrona, Adrianne Palicki, Bruce Willis, Channing Tatum

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Ação, Críticas