CRÍTICA | Garota Exemplar

Críticas
// 06/10/2014
Com um elenco enxuto, versátil e eficiente, Garota Exemplar reforça mais uma vez o talento do diretor David Fincher no comando de suspenses investigativos e dá início extraoficialmente à temporada de pitacos e palpites para o Oscar 2015.


Garota Exemplar
por Eduardo Monteiro

A cabeça loura de Rosamund Pike acomodada no colo de Ben Affleck é a primeira imagem que vemos em Garota Exemplar, enquanto a narração em off do ator compartilha com o público o desejo do personagem de entender melhor o que se passa na cabeça da esposa. Entretanto, o que chama a atenção na abertura do novo trabalho de David Fincher não é essa mera constatação sobre a relação do casal, mas a forma inusitadamente atroz como ela é feita: Nick Dunne confessa ter vontade de arrebentar o crânio de Amy e desembolar seu cérebro para ver se, assim, consegue decifrar o funcionamento da mente da mulher.

E estes são apenas os vinte primeiros e levemente perturbadores segundos de uma obra intrigante e complexa que vai de suspense investigativo a thriller psicológico ao longo de suaves duas horas e vinte e nove minutos. Escrito por Gillian Flynn com base em seu próprio romance, o roteiro gira em torno da investigação do desaparecimento de Amy, que some misteriosamente de sua casa no quinto aniversário do casamento com Nick. Com vestígios que apontam para a possibilidade da ocorrência de um crime, o caso gradativamente muda de figura quando passa a receber uma cobertura minuciosa e sensacionalista da mídia, que vê o comportamento levemente apático e aéreo de Nick como digno de suspeita.

Com uma admirável carreira fortemente fundamentada no gênero suspense investigativo (de Seven a Millennium, passando por Zodíaco), David Fincher soa como uma escolha óbvia e perfeita para a adaptação: mestre em manter o público curioso, interessado e intrigado (e aí podemos incluir também seu trabalho em O Quarto do Pânico e, especialmente, em Clube da Luta e Vidas em Jogo), o diretor conduz o excelente roteiro de Flynn com precisão e atenção especial aos detalhes; pistas e respectivas recompensas são inseridos na narrativa sempre de forma clara, mas sem subestimar a inteligência do público (repare, por exemplo, como o hábito de leitura de Amy é mencionado sem muito alarde por Nick durante um depoimento, mas ressurge como um elemento significativo durante um importante flashback). Além disso, o diretor e a roteirista são hábeis em manter o espectador tão desinformado quanto cada etapa da narrativa exige: quando descobrimos que Nick traía Amy, por exemplo, nosso palpite sobre a provável harmonia do casal começa a cair por terra, junto com a imagem de bom moço do sujeito.

Affleck, aliás, contraria a fama de ator inexpressivo (ou talvez se aproveite dela) e surge como uma escolha adequada para o papel, transformando Dunne em um sujeito falho, progressivamente ansioso e naturalmente despreparado para a situação em que acaba envolvido. Já Carrie Coon (da série The Leftovers) inspira confiança e lealdade como a irmã gêmea e braço direito de Nick, ao passo que Kim Dickens exala competência, inteligência e experiência – características essenciais à detetive encarregada do caso. Por fim, Rosamund Pike reforça bem o seu talento como atriz ao acompanhar o crescimento da personagem com entrega, intensidade e ambiguidade.

A estrutura corajosa do roteiro é outro dos méritos de Garota Exemplar – e também um de seus principais defeitos. Por um lado, a decisão de encerrar a trama investigativa de forma inesperadamente antecipada revela-se não só acertada, como também necessária para que a narrativa evolua, ainda que por rumos distintos – e essa transição, embora notável, praticamente não é sentida pelo espectador, em termos de ritmo e interesse pelas surpresas que o roteiro ainda reserva. A virada final, entretanto, não merece os mesmos elogios: sim, a atmosfera de thriller psicológico que se instaura no último ato da projeção é correta e coerente com o restante da narrativa, mas cria no público expectativas que não chegam a ser cumpridas e abre uma porção de pequenos furos que a autora prefere ignorar, fazendo com que o desfecho, embora emblemático, deixe uma leve sensação de frustração no ar.

Ganhando pontos ainda por alfinetar a cobertura normalmente nociva e sensacionalista da imprensa em torno de investigações criminais específicas (a tempestade esquizofrênica de flashes fotográficos que invade a residência dos Dunne em diversas ocasiões é perfeita) e pela habilidade de estabelecer a natureza de situações ou personagens através de minúcias e sutilezas (como, por exemplo, uma cuspida em certa bebida sedimentando de vez a sociopatia de determinada figura), Garota Exemplar é uma agradável surpresa para aqueles que não tiverem dificuldade de se adaptar às leves mudanças de tom da narrativa e estiverem interessados na psique curiosa dos personagens que Flynn, Fincher e seus atores juntaram forças para construir.

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Gone Girl (EUA, 2014). Drama. Fox.
Direção: David Fincher
Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike

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Críticas, Drama