CRÍTICA: Gran Torino

Críticas
// 19/03/2009

Como poucos, Clint Eastwood consegue mostrar o quão inatingível está. E não é uma mera ausência na noite do Oscar que o abate. Em sua nova produção, Gran Torino, a qual dirige e protagoniza, Eastwood comanda um revival de sua excelente carreira cinematográfica tanto como ator quanto como diretor, diante de um drama de primeira que testemunha a favor dele mesmo. Confira a crítica.

Gran Torino
Por Arthur Melo

Clint Eastwood é o tipo de profissional em Hollywood difícil de se adjetivar. Sua carga artística é tão densa que o coloca num patamar deveras superior a seus concorrentes. Hoje, Eastwood é um dos diretores mais aclamados. Sua confiabilidade é indiscutível. As produções realizadas e comandadas por ele jamais atrasam os prazos e nem estouram orçamentos. Sua imposição nos sets é soberana e ao mesmo tempo serena. Durante os últimos vinte anos, pelo menos, o ator e diretor tem feito um trabalho invejável neste segundo ofício, mas mantendo um brilhantismo impressionante no primeiro, de modo que um não ofusco o outro. Pelo contrário, se completam.

De fato, as contribuições de Eastwood para a sétima arte são memoráveis e estão acima de qualquer nariz torto. Seja em suas críticas discretas nos filmes que comanda, ou no tipo machão impresso em longas como Dirty Harry, Clint, agora com 78 anos, tem em suas mãos um acervo soberbo que se transforma em várias peças do grande mural de sua carreira que é Gran Torino.

O veterano da guerra da Coréia, Sr. Kowalski, é um velho ranzinza cuja relação familiar não se sustenta de modo saudável. Após a morte de sua mulher, o homem se vê desorientado diante do mundo que o envolve, dividindo o tempo agora com o seu cachorro e com suas velharias dentro de casa. É quando uma família coreana se muda para a casa vizinha que Kowalski é pego de surpresa por si mesmo. Apesar da total aversão aos moradores do lado, o velho constrói uma bonita amizade com o rapaz Thao Vang Long após o defender em uma briga.

O espetáculo em Gran Torino pode não estar demarcado em um nível de conduta em cena exemplar do elenco, como de costume nos filmes dirigidos por Clint Eastwood. Até porque, exceto pelo próprio Eastwood, não há este nível. Bee Vang, intérprete do garoto Thao, protagoniza cenas de total insegurança e artificialidade. O prazer em acompanhar a projeção está em identificar cada um dos elementos que formam o trajetória do diretor e ator, passando pelos melhores de seus trabalhos atuais até seus clássicos mais antigos. A relação de aprendizado entre Kowalski e Thao é tão pura e cristalina quanto a observada em Menina de Ouro, ora que a postura rude e de machão, floreada pelo divertido humor negro do protagonista, reflete seu personagem de Dirty Harry (alguns até imaginaram que o personagem seria reprisado neste longa). Tudo permeado pelo mais nítido preconceito, presente à flor da pela de Kowalski, que vai sendo destruído cena por cena de forma delicada.

É incrível como uma única pessoa pode manter a mesma qualidade e sofisticação em duas posições simultâneas e ainda ser coerente e respeitoso com o próprio trabalho. Eastwood faz de Gran Torino uma prova de afeto e orgulho ao que vem desenvolvendo desde o início de sua carreira, e o faz de maneira calorosa e interessante. O apogeu da obra está em mostrar, ao final da projeção, que condizer consigo mesmo é ir contra o comumente esperado. Ser previsível dentro do que já foi visto em suas obras e ainda satisfazer com isso é provar estar muito além do esperado.

Gran Torino (EUA, 2009). Drama. Warner Bros.
Direção: Clint Eastwood.
Elenco: Clint Eastwood, Bee Vang.

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Críticas, Drama