CRÍTICA | Guardiões da Galáxia

Ação
// 30/07/2014

Apresentar uma equipe pouco conhecida pelo público em geral – e até por aficcionados em quadrinhos – como aposta para a expansão do universo cinematográfico Marvel pode parecer arriscado. Mas um elenco afinado, visual acachapante e o tom leve e certeiro do longa eclipsam até a trama sem pé nem cabeça de uma aventura que, de forma astuta, mantém a conexão com o cenário ao mesmo tempo em que traz uma bem-vinda respirada longe da S.H.I.E.L.D. e suas confusões.

Guardiões da Galáxia
Por Gabriel Costa

Levando em conta a ambientação predominantemente urbana do que foi apresentado do universo Marvel nos cinemas ao longo da última década e meia, pode não parecer evidente, mas o lado space opera – subgênero da ficção científica voltado para cenários exóticos e personagens épicos na linha de Star Wars – representa uma fatia importante do material original em que essa leva de superproduções é baseada. Já nos anos 60, enquanto acordava o Capitão América do congelamento pós-Segunda Guerra e colocava o Homem de Ferro para enfrentar comunistas – e não esqueçamos dos dramas adolescentes do Homem-Aranha e X-Men, ainda que esses personagens não estejam sob os cuidados da própria editora na tela grande – Stan Lee e o desenhista Jack Kirby, pais de quase todos esses personagens, também introduziam raças alienígenas e questões cósmicas que estariam presentes nas histórias de todos desde então. E, com a introdução de uma dessas raças no primeiro filme dos Vingadores, estava aberto o caminho para que esse aspecto fosse abordado de forma mais aprofundada em um dos longas dessa fase da companhia.

“Aprofundado”, contudo, não seria um dos termos imediatos a serem associados a Guardiões da Galáxia. Impressionante, divertidíssimo, previsível, sonoro e até comovente – embora só quando não tenta ativamente ser – são palavras que se aproximam mais do filme dirigido por James Gunn, do trash Seres Rastejantes e do proto-Kick-Ass Super. Apesar do tom mais simples, praticamente infanto-juvenil, em relação às demais adaptações recentes da Marvel, o filme tempera saborosamente a clara inspiração nas grandes aventuras cinematográficas dos anos 80 com bem sacadas referências modernas e uma trilha sonora que, por uma engenhosidade do roteiro, tem todo o potencial para alcançar status cult.

A receita bem medida de Gunn, contudo, não teria metade da efetividade que alcança não fosse por Chris Pratt. Na pele do autointitulado Senhor das Estrelas, ou Peter Quill, o ator da série Parks and Recreation é provavelmente o protagonista mais divertido de um filme da Marvel desde que Robert Downey Jr. tornou interessante o muitas vezes insosso Tony Stark. Abduzido ainda criança por um grupo de saqueadores intergaláticos, Quill passou a vida inteira no espaço sideral, sem qualquer contato com a cultura de seu planeta natal a não ser um walkman com uma fita cassete de hits dos anos 70 e 80, gravada pela falecida mãe. E, para se ter uma ideia, a interpretação de Pratt entretém tanto que torna inevitável ignorar como tudo isso, de um ponto de vista lógico, deveria torná-lo um sujeito amargo e cheio de problemas psicológicos.

Essa dicotomia está presente na maioria dos aspectos da trama. Os desdobramentos que envolvem Quill roubar um artefato cobiçado pelo kree genocida Ronan (Lee Pace), dando início a uma perseguição interestelar que envolve a dupla de caçadores de recompensa Rocket e Groot (um guaxinim e uma árvore humanoides dublados por Bradley Cooper Vin Diesel, respectivamente), a enigmática Gamora (Zoe Saldana), o lunático verborrágico Drax (Dave Bautista), os saqueadores liderados por Yondu (Michael Rooker, o Merle de The Walking Dead) e a impiedosa Nebulosa (Karen Gillan) são tão inconsistentes quanto facilmente ignoráveis em prol das hilárias interações entre os personagens e deslumbrantes sequências de ação, ainda que estas últimas fraquejem em termos de ritmo ao longo de basicamente toda a primeira hora de exibição. Da mesma forma, todo o elenco principal, com exceção do exagerado Pace e da monótona Saldana, tem seus momentos de destaque, incluindo o lutador profissional Bautista e a voz de Vin Diesel. Cabe ainda um destaque negativo para o pastiche de David Bowie que é o Colecionador de Benicio Del Toro e para os péssimos figurantes da prisão espacial Kyln.

Em relação ao panorama geral do universo habitado pelos personagens Marvel, as ligações que conectam os Guardiões da Galáxia a Capitão América, Hulk e companhia permanecem, por enquanto, tênues, mesmo que haja definitivamente um personagem que é link direto entre os dois times de heróis. De qualquer forma, se aqui temos um longa que sem dúvida se sustentaria como obra independente, o fato de que ele na verdade apresenta todo um novo escopo para um cenário já consideravelmente rico só torna as coisas ainda mais interessantes.

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Guardians of the Galaxy (EUA, 2014) Ação/Ficção Científica. Marvel Studios.
Direção: James Gunn
Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Bradley Cooper, Dave Bautista, Vin Diesel

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Ação, Críticas, HQ's