CRÍTICA: Guerra ao Terror

Críticas
// 05/02/2010

Após receber o prêmio de melhor filme do ano pelo sindicado de críticos norte-americanos e mais recentemente o de melhor direção pelo DGA (o sindicato de diretores), Guerra ao Terror tomou a dianteira na corrida pelo Oscar, desbancando o antes favorito Avatar. O filme da cineasta Katheryn Bigelow (diga-se de passagem, ex-mulher de Cameron) concorre ao lado da superprodução em 6 das 9 categorias que ambos disputam. Lançado por aqui em 2009, apenas em DVD, o público tem agora além da chance, também motivos para conferí-lo nos cinemas.


Guerra ao Terror
por Matusael Ramos

Quando em 1927 o filme Asas consagrou-se como o primeiro grande vencedor do Oscar, Hollywood já sinalizava sua predileção pelos dramas de guerra. Nas décadas seguintes, dezenas de produções do gênero foram premiadas, inclusive com a estatueta de melhor filme – o que viria a alimentar críticas bem-humoradas sobre a proporção de veteranos de guerra entre os membros votantes da Academia. O fato é que mais uma vez, ressalvadas as óbvias particularidades, um drama de guerra surge como favorito ao prêmio principal. Em Guerra ao Terror, porém, não há espaço para discussões sobre ideais ou mesmo sobre as razões do conflito: se passa no Iraque, mas poderia, por assim dizer, se passar em qualquer outro lugar.

Guerra ao Terror relata a história de três soldados americanos que integram um esquadrão antibombas que atua no Iraque. Seu trabalho consiste essencialmente em averiguar suspeitas de bomba, para então, com a ajuda de robôs ou vestimentas próprias, desarmá-las. Todo o procedimento, entretanto, é rigorosamente monitorado pelos demais soldados, de modo a impedir eventuais ataques ou a presença de civis.

Coube a três atores, até então pouco conhecidos do grande público, a missão de injetar vida à personagens de um roteiro a princípio bastante simples, dotado de um caráter de relato e portanto quase desprovido de conflitos. Enquanto o sargento JT Sanborn (Anthony Mackie), desempenha sua função com toda a disciplina e a cautela que o definem, William James (Jeremy Renner, ótimo) faz as vezes do soldado inconsequente, de ousadia e coragem invejáveis. O especialista Owen Eldridge (Brian Geraghty), por sua vez, retrata toda a insegurança de uma nova geração de recrutas norte-americanos.

A linguagem tendendo ao documental, com poucos (mas precisos) diálogos, garante, de certa forma, maior veracidade àquilo que se espera ser a vida nessas condições, além de agir como ferramenta de aproximação com o público. Afinal de contas, antes de soldados, são todos também rapazes, sujeitos portanto, aos mesmos anseios e conflitos que quaisquer outros; nesses casos potencializados pelas circunstâncias – como fica evidenciado na cena em que o sargento JT cogita forjar um acidente para se ver livre de William. O que parece ser uma intriga causada pela insubordinação se confunde com a frustração por ele próprio não ser tão impetuoso quanto o companheiro.

Predominantemente silencioso, pontuado aqui e ali pelos sons de tiros e explosões ou ainda por uma trilha sonora sutil, Guerra ao Terror, tem muitas das características que revelam uma mente feminina por trás das câmeras. A começar pelas cenas em câmera super-lenta, que exploram detalhes que de outro modo passariam despercebidos pelo público. Tomadas como aquelas em que gatos famintos perambulam pelas ruas ou de planos sem nada em evidência, conferem um quê de delicadeza à trama. Outro ponto forte, a fotografia, tratada em tons de amarelo –  consequência do bom proveito da luz natural – denuncia toda a rudeza das locações.

A despeito de sua filmografia inconstante, pode se dizer que a diretora Kathryn Bigelow se saiu muito bem no comando de Guerra ao Terror. Com um orçamento reduzido, de pouco mais de 10 milhões de dólares, Bigelow soube extrair da trama linear do roteirista Mark Boal bons momentos de suspense. O resultado é um filme que, ao se limitar a expor um elemento da guerra em particular – os esquadrões antibomba – dispensa toda uma série de clichês inerentes ao gênero. A dimensão do conflito, porém, reduzida ao ponto de vista dos três personagens principais, acaba por limitar também o desenrolar da trama: as cenas tornam-se repetitivas e o filme, como um todo, algo aborrecido.

Mas nada vai tirar de Bigelow a chance de se tornar a primeira mulher na história a vencer o Oscar de direção. Ainda que despretensioso, seu filme é daqueles que tem todos os elementos necessários para agradar a Academia. É esperar para ver.

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The Hurt Locker (EUA, 2009). Guerra. Imagem Filmes.
Direção: Katthryn Bigelow
Elenco: Jeremy Renner, Anthony Mackie e Brian Geraghty

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Críticas, Drama