CRÍTICA: Happy Feet 2

Animações
// 24/11/2011

Com uma estética impressionante, músicas e coregorafias animadas e um 3D que colabora para a sua execução, Happy Feet 2 tem todas as qualidades técnicas de uma animação merecedora de um Oscar. Entretanto, não seria exagero dizer que é decepcionante ver o declíneo entre o primeiro longa e o atual na capacidade de contar uma história e assimilar a música com os objetivos da trama. E aí o merecimento de um prêmio como o agarrado por Happy Feet em 2007 já não existe mais.

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Happy Feet 2
por Caíque Bernardes

Em 2006, Happy Feet: O Pinguim iniciou a história de Mano nas telas com uma trama de claro conflito: um pinguim cujo único talento é sapatear acaba tendo problemas com sua tribo de pinguins cantores, que não o aceitam pelo que ele é. Partindo deste pano de fundo, a animação aproveitou para se utilizar de números musicais diversos e coreografias mirabolantes para deixar seus espectadores deslumbrados. O resultado de tudo, que também incluía uma moral ecológica que colocava os seres humanos em cheque, resultou no Oscar de Melhor Animação um ano depois. Agora em 2011, um ano particularmente fraco para as animações (a Pixar que o diga), o filme se transforma em uma série com Happy Feet 2, em 3D, para tentar repetir o feito – além de ganhar mais dinheiro, é claro.

Se tratando de uma continuação, os produtores se preocuparam em resgatar a maioria dos elementos que transformaram o primeiro longa em um sucesso. Mas é interessante observar como isso resulta em uma experiência que acerta alegremente em alguns aspectos apenas para falhar miseravelmente em outros. A principal carência do filme é não ter sequer algum – qualquer – desenvolvimento em seu roteiro. E as canções já não são aptas a resolver este tipo de problema.

Simplificando, a história dessa vez gira em torno de Mano e seu filho Eric tentando tirar todos os outros pinguins de sua tribo de um buraco criado pelo deslizamento de uma geleira. Para “colorir” o enredo, até há a inserção de novos personagens, minitramas e conflitos, mas tudo é absolutamente artificial. Tamanha artificialidade pode ser facilmente notada nos primeiros quarenta minutos de projeção, que mostram os personagens vagando de um lado para o outro sem propósito algum, soltando frases de efeito e lições de moral sobre o ato de crescer, se tornar parte de algo e enfrentar medos; fora tantas outras questões de amadurecimento pessoal. Nada faz muito sentido e a história demora a engatar.

Nesse aspecto, o que faz o Happy Feet 2 valer a pena é a história paralela (inserida de uma forma parecida com a do esquilo Scrat em A Era do Gelo) de Will e Bill, dois Krill (espécie semelhante ao camarão) que resolvem se rebelar de seu cardume e viverem por si mesmos, virando predadores. Por ser uma subtrama, o desvio consegue manter uma evolução durante o filme apesar da decadente história principal. Carismáticos e com diálogos genuinamente engraçados, a dupla é definitivamente a melhor parte do filme; junto com os números musicais.

E se tratando de um longa que traz a dança e a música como o espetáculo principal e o “trabalho em grupo para atingir um objetivo maior” como a moral principal (que a partir da metade finalmente se decide sobre o que se trata), os números musicais têm realmente seu valor endossado por deslumbrantes coreografias de grupos dos mais diversos animais, principalmente nos planos gerais, realçados pelo 3D. E ainda que a escolha das músicas seja acertada, podem parecer jogadas vez ou outra. Na verdade, a questão toda se confunde por não existir padrão algum em quais músicas são deixadas em inglês e quais são traduzidas na versão dublada do filme. O que não ajuda a mascarar a maior falha da animação.

Houve um tempo em que se poderia justificar a existência de Happy Feet 2 argumentando que este é, antes de mais nada, uma animação feita para crianças. Mas é um fato, porém, o quanto esta defesa não pode ser usada no atual momento. Animações, sendo elas para o público infantil ou não, têm plena capacidade de contar histórias emocionantes e envolventes e isso tem sido mostrado desde Toy Story. O primeiro Happy Feet era, inclusive, um ótimo exemplo de que a animação infantil pode proporcionar personagens carismáticos e fluência no enredo; um motivo para que tivesse sido recompensado no seu ano. Sua sequência, porém, pode muito bem ter a estética de um merecedor de Oscar, mas é estufado com uma história digna de títulos que saem direto para o home-vídeo. E para isso não há desculpas.

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Happy Feet 2 (Austrália, 2011). Animação. Warner Bros. Pictures
Direção: George Miller
Elenco: Elijah Wood, Robin Williams.
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Animações, Críticas