CRÍTICA | Harry Potter e a Ordem da Fênix

Críticas
// 03/02/2009
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Escrito sob constantes pressões contratuais e pessoais, o quinto volume da maior conquista do mercado editorial precisou vencer obstáculos quase que implacáveis para vir ao mundo. Sendo este o primeiro livro inédito após o lançamento do primeiro filme de uma promissora série cinematográfica, a cobrança era evidente e o receio, perverso.

Após ficar meses abaixo das listas semanais de mais vendidos, enfim, retorna às prateleiras do TOP 10 o maior fenômeno cultural já visto. Mas o sucesso não foi resultado apenas de estratégias de marketing geradas pelo medo dos editores e da Warner Bros (detentora dos direitos associados ao nome). A conquista do ápice é mérito tão somente de J.K. Rowling, que, mesmo enfrentando torturas psicológicas que beiram ao mazoquismo (cogitou quebrar o próprio braço para não ter de encarar o teclado do computador por algumas semanas), conseguiu criar um enredo atraente e inteligente. Cercado de subtramas e temas políticos, Rowling adentrou fundo de forma fria na mente do protagonista; em suas linhas como sempre muito detalhadas. Desta vez, usou a inteligência do público como arma para desenvolver uma história que pode ser refletida no mundo real e usa a magia apenas como realce de seus contornos. Os leitores em – maioria não mais crianças -, já estavam aptos para entenderem que até mesmo o fantástico mundo de Harry Potter não é sinônimo de maravilha. E é esta maturidade por parte do conto e de seus seguidores ávidos que se reflete no melhor e mais bem produzido filme da franquia.

Com roteiro sólido e bem filtrado – deixando-se por completo todas as subtramas de fora – Harry Potter e a Ordem da Fênix inova. Utiliza os efeitos visuais – num deslumbre que não era enxergado no início da série – apenas quando necessários, proporciona uma evolução grosseira na percepção de mundo dos personagens e examina com cuidado cada centímetro das relações mantidas por cada um. Tudo de maneira singela e agradável, sem exageros, perdas de tempo desnecessárias ou momentos entediantes.

Sendo David Yates o segundo diretor britânico a comandar, o filme constrói progressivamente tudo o que os outros episódios – por melhor que tenham sido desde O Prisioneiro de Azkaban – não foram capazes de fazer. Isto deve-se, talvez, justamente ao fato de o diretor saber e entender as limitações do público em massa e ter enxergado além do que ainda era necessário ser posto nas telas. Famoso por seus filmes produzidos para a TV inglesa, Yates demonstrou ser mestre em extrair o máximo possível das atuações, criando um novo visual para a série que, pela primeira vez, pode ser analisado não somente pela técnica.

De fato, visualmente Ordem da Fênix é o melhor, a direção de arte conseguiu ser ainda mais luxuosa do que seu antecessor, os efeitos visuais beiram o brilhantismo não pela sua formação, mas pelos momentos e fases em que são inseridos; uma prova da capacidade ainda em exploração de David. Mas há ainda mais prós; começando pelas atuações.

A melhor de todas as surpresas, sem dúvida, é Imelda Staunton. Sua performance da professora Umbridge é invejável e ofusca com facilidade qualquer trabalho já realizado do gênero na série. O trio principal também evoluiu. Apesar de Daniel Radcliffe ainda não ser um exemplo de ator, esta foi a primeira vez que consegue convencer o público, mesmo que em percentagem consideravelmente menor que seus colegas. Mas isto, talvez, não seja desmérito do mesmo. Não é de hoje que Harry Potter reúne o melhor do teatro britânico e, apesar do pouco tempo e espaço reduzido em cena, Maggie Smith, Emma Thompson e Alan Rickman – este último principalmente – fazem-nos esquecer que há coadjuvantes na película (com destaque para Helena Bohan Carter que, por menor que seja sua soma de minutos, faz sua movimentação em cena digna de aplausos).

Levando-se em consideração as mais de 700 páginas de história (na versão brasileira) fica, evidentemente, impossível transpor tanto para apenas 138 minutos de fita. Ficava. O novo roteirista Michael Goldenberg soube neutralizar tudo aquilo que para grande parte dos leitores deixava a leitura cansativa. A exmplo, Grope, o meio-irmão gigante de Hagrid, personagem de Robie Coltrane, teve setenta porcento de suas passagens reduzidas na tela, sobrando apenas o que é essencial para o contexto. Até mesmo Umbridge e o padrinho de Harry, Sirius Black, sofreram com os cortes que para muitos significou uma mutilação na história. Mas tudo deve ser analisado. Goldenberg foi inteligente, aproveitou a linha central e puxou de suas ramificações o que ele sabia que poderia interferir no futuro da série no cinema. Resumiu de tal maneira que criou um roteiro redondo, sem interferências bobas que soam egocêntricas por parte da própria história. Evitou o grande erro que Steve Kloves (que estará de volta para Harry Potter e o Enigma do Príncipe, próximo longa) cometeu em A Câmara Secreta e deixou o filme menos exaustivo e borrado por explicações infindáveis.

Claro que mesmo com sua sagacidade e dinâmica, o livro que originou o filme tem seus erros, suas falhas. Mas não é nada grosseiro. Seu grande pecado foi tentar enraizar o leitor em suas páginas por intermédio de linhas que partiam do centro da trama e pareciam, muitas vezes, não acabar; engordando assim o tijolo de celulose que é A Ordem da Fênix. Mas o filme acertou em tudo aquilo que o original errou. Cometeu erros, de fato, mas nada que comprometa o sucesso artístico e comercial da saga. Alguns podem julgá-lo simples e vazio na hora de retratar tudo o que Rowling exibiu, mas a capacidade de entreter e alto nível técnico e principalmente cultural, em suma, não pode ser mencionado na lista de futuras correções.

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Harry Potter and The Order of The Phoenix (EUA, Reino Unido, 2007). Ação. Fantasia. Warner Bros. Pictures.
Direção: David Yates
Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Imelda Stauton, Ralph Fiennes, Michael Gambom, Alan Rickman

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Categorias
Críticas, Fantasia