CRÍTICA | Hereditário

Críticas
// 08/07/2018
hereditario

Aclamado internacionalmente como, talvez, o grande expoente do horror cinematográfico em 2018, Hereditário é uma experiência que se revela mais brutal nos alicerces realistas da trama do que nos elementos sobrenaturais que a posicionam indiscutivelmente no sombrio nicho que ocupa. Embora, após uma primeira meia hora simultaneamente tenebrosa em seus acontecimentos e sublime em sua desconfortável eficácia, a história se encaminhe para direções e resoluções não tão originais, o trabalho seguro e impiedoso de câmera e direção de Ari Aster, o uso exemplar de som e trilha, e a atuação impressionante de Toni Collette sustentam o interesse – e a tensão – até o fim das mais de duas horas de exibição.

A impecável sequência de abertura do filme estabelece o funeral de Ellen Tapir Leigh, uma respeitável senhora que sofreu, em seus últimos anos de vida, com os efeitos de uma deterioração mental que se tornara demência. A filha de Ellen, Annie (Collette), discursa de forma sincera, e levemente inquietante, sobre a vida da mãe. Ao longo dos próximos minutos, somos apresentados aos demais parentes próximos de ambas: o marido e genro Steve (Gabriel Byrne), sobre quem recai a responsabilidade de direcionar a família em momentos aparentemente difíceis como esse, e o casal de filhos, composto pelo típico adolescente Peter (Alex Wolff) e a nada típica Charlie (Milly Shapiro), curiosamente distante e infantil aos 13 anos.

Logo fica claro que circunstâncias sombrias cercam, há tempos, esse núcleo familiar. Ainda assim, o terrível estopim para os acontecimentos narrados em Hereditário é detonado não por forças do além, e sim pelas mãos do acaso, em uma tragédia que pode acontecer – e acontece – com qualquer pessoa, o que só torna tudo mais assustador. Uma sequência de acontecimentos brilhante e inquietantemente encadeados leva a alguns dos momentos mais impactantes do cinema recente, mostrados com esmero e firmeza pelo diretor e roteirista, estreante em longas-metragens, Ari Aster, e levados a cabo com visceralidade e dedicação por parte do ótimo elenco. Collette, em especial, entrega possivelmente a melhor performance de uma carreira respeitável, que já flertava com o horror desde que a atriz interpretou a mãe de Haley Joel Osment em O Sexto Sentido, há quase duas décadas.

Depois do auge, por definição, só é possível descer, ao menos de imediato. E esse princípio lógico prejudica o ritmo de Hereditário, que, daí em diante, nunca recupera a majestade insinuada no primeiro ato. A trama continua intrigante, e reserva mais alguns momentos memoráveis de tensão e mesmo de desenvolvimento e aprofundamento pessoal para os personagens, mas, quanto mais se explica, mais banal o filme se torna. O final, ainda que coerente, também chocante e até revoltantemente belo em sua mórbida plasticidade, se assemelha a incontáveis outras obras do gênero. Nada disso invalida a marcante experiência inicial, mas deixa uma leve sensação de potencial não aproveitado. E, claro, incômodas memórias de certas imagens, que podem voltar à mente na próxima vez que faltar luz.


Hereditary (EUA, 2018). Horror. PalmStar Media.
Direção: Ari Aster
Elenco: Toni Collette, Gabriel Byrne, Milly Shapiro, Alex Wolff, Ann Dowd.

 

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Críticas, Terror