
Com o anúncio dos indicados ao Oscar no último dia 24, admiradores da sétima arte em todo o mundo já começaram a fazer suas apostas. Detentor de 4 indicações ao prêmio – entre elas, melhor filme e atriz – é a vez do drama Histórias Cruzadas, sucesso de público, aterrissar por aqui. Vale o ingresso?
Histórias Cruzadas
por Matusael Ramos
Desde 1915, com o lançamento da controversa obra-prima do produtor e diretor D. W. Griffith, O Nascimento de Uma Nação, a temática da segregação racial tem sido explorada por Hollywood das mais diferentes maneiras e com os mais diferentes propósitos. Como qualquer outra forma de manifestação artística – e talvez pelo inegável apelo popular – o Cinema sempre esteve muito suscetível às transformações sofridas pela sociedade, do mais simples costume, a mais radical ideologia. De que outro modo, pois, explicar o fato de que a mesma Hollywood, que nas décadas de 20, 30 e 40, produzia filmes onde atores brancos exibiam faces grosseiramente pintadas de negro, agraciaria, muitos anos depois, um casal de atores negros com o seu prêmio máximo?
Os tempos mudaram e isso não é novidade. Se no início do século passado o cenário político e a mentalidade escravagista norte-americana fomentavam o sucesso de um filme onde negros eram retratados como seres ignorantes e sexualmente incontroláveis, quase um século depois, filmes como Histórias Cruzadas – que tem estréia prevista para essa sexta-feira, em todo o país - conquistam o público e a crítica ao promover, justamente, a inversão desses papéis, expondo a classe média norte-americana e condenando o seu racismo nem tão velado.
Histórias Cruzadas é a adaptação para o Cinema do romance homônimo da escritora americana Kathryn Stockett, publicado em 2009. A história se passa na cidade de Jackson, Mississipi (estado americano historicamente marcado por manifestações racistas), para onde a jovem Skeeter (Emma Stone) acaba de voltar após se graduar na universidade. Idealista e sem qualquer pretensão amorosa, Skeeter percebe que já não partilha de muita coisa em comum com suas antigas amigas e que tampouco é capaz de corresponder aos anseios de sua mãe, no que se refere à conquista de um bom partido. Sem maiores perspectivas à vista, a garota passa a escrever para a coluna de serviços domésticos do jornal local, recebendo, para tanto, a ajuda de Aibileen (Viola Davis), empregada doméstica de uma de suas amigas. É graças a essa aproximação e à iminente aprovação de um decreto-lei que proíbe às empregadas domésticas negras o uso do mesmo banheiro dos patrões, que Skeeter decide colher em segredo os depoimentos dessas mulheres, a fim de denunciar à sociedade as humilhações infligidas àquelas que zelavam por gerações de suas famílias.
O maior mérito de Histórias Cruzadas – e nesse ponto as premiações foram quase unânimes até agora – é o seu elenco, essencialmente feminino. Sem exceção, todas as atrizes brilham durante as quase duas horas e meia de projeção. A composição das personagens, cada qual com personalidades bastante definidas, se configura como peça fundamental na garantia do envolvimento do público espectador – e em Histórias Cruzadas elas nos fazem rir, chorar e odiar. Viola Davis, que já havia deixado claro todo o seu potencial no drama Dúvida, de 2008, volta a surpreender no papel de uma mãe que sofre em silêncio e que encontra, na iniciativa da inexperiente Skeeter, uma maneira – também silenciosa – de denunciar. Essa carga dramática, entretanto, é sabiamente contrabalanceada pela presença de Octavia Spencer, também no papel de uma empregada doméstica. Fazendo-se do uso de trejeitos adoravelmente afetados, Spencer integra, ao lado da própria Emma Stone e de nomes como Sissy Spacek e Jéssica Chastain, o lado cômico (ou o mais próximo de) do longa. Bryce Dallas Howard, por sua vez, faz as vezes de vilã, como a detestável idealizadora do projeto de lei.
A despeito da temática a princípio delicada, Histórias Cruzadas surge como talvez, o filme mais brando dentre os concorrentes ao Oscar. Ainda que fruto de uma adaptação literária, o roteiro é de fácil assimilação e sem conflitos muito significativos. Um incômodo bom-mocismo paira sobre boa parte do longa, em oposição a uma vilania quase caricata. Os ataques da Klu Klux Klan ou os discursos de Martin Luther King não são mais que pincelados na trama. Considerando, entretanto, que o filme (ao contrário de sua própria protagonista), não tem maiores pretensões no que tange o engajamento da causa – um ponto a seu favor – tais aspectos são facilmente perdoáveis. Ora, pois, não seria justo condená-lo por uma suposta superficialidade quando o seu propósito inicial foi senão, o de tomar por exemplo essas mulheres e contar as suas histórias.
Como na indústria do Cinema ainda é papel do público dar o aval a quaisquer de suas realizações (e no caso de Histórias Cruzadas esse mesmo público já verteu nada menos que 200 milhões de dólares aos cofres da Buena Vista, sua distribuidora), é bastante provável que sua receita quase adocicada, feita para agradar, conquiste também os espectadores brasileiros. É esperar para ver.
——————————
The Help (EUA, 2011). Drama. Disney Pictures.
Direção: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer e Bryce Dallas Howard
Trailer
Promoção
























Eu já vi tantas opiniões diferentes sobre esse filme. Fico cada vez mais curiosa pra poder dar o meu pitaco.
Acho que esse filme vai ser a grande zebra do ano, abocanhando o Oscar de Melhor Filme.
Eu adorei o filme! Muito bom; merece estar na lista de melhor filme do Oscar.
Filme de extremo mal gosto, chato, que só tem apoio nas atuações da Chastain e da Davis,
o filme e bom mas não chega a ser um gnomeo e julieta
Sei que a crítica é uma opinião, no qual mostra os pontos que agradaram ou desagradaram o crítico. Eu não concordo com a nota. E por esse motivo irei discordar.
Histórias Cruzadas é razoável, o ponto alto são as interpretações de Davis e Spencer, no entanto, o roteiro(a alma de qualquer filme) é mediano e clichê, não consegue se a profundar em debater o racismo – até hoje assombram a sociedade- de um jeito inovador e corajoso, os personagens são caricatos que não me proporcionou um aproximação com seus dramas e dilemas.
A direção e a fotografia é medíocre.
The Help foi um projetado para agradar a Academia e outras premiações, ele não foi desenvolvido para debater de uma forma mais ampla e profunda, no máximo, relatar e mostrar o preconceito étnico de um modo leve,o que uma pena.
Se caso o longa ganhar as estatuetas de melhor filme ou roteiro, sinto em dizer que não merece.
Ja tinha visto o filme e gostei muito mesmo, feito para emocionar! Se alguma parte do roteiro falha, ou etc… quem liga, com um TIME ESPETACULAR daqueles e com excelentes atuações de todas! Viola perfeita, e Jessica um amor, construção brilhante de um personagem!
E eu já vi The Iron Lady, baixei, rsrs, apesar de amar Viola, Meryl ta soberba!
Achei esse “Vale o ingresso?” da introdução lamentável!
Essa Emma Stone tá em todo o lugar, hein? Arroz de festa.
Concordo com o Paulo: “Achei esse ‘Vale o ingresso?’ da introdução lamentável!”
E outra coisa, daria 10 pipocas.
Eu estava subestimando este filme, comecei a ver esperando qualquer coisinha sem graça, e aí tudo mudou.
Já tinha reparado (no trailer e no pôster) que ia gostar do figurino. Ficou uma composição belíssima da época, tudo de muito bom gosto. Aliás, todo o visual do filme é bonito e bem feito: casas ricas, casas simples, paisagens. Aquele cantinho da casa da Skeeter com o banco sob a árvore é uma graça!
Sobre a questão racial exposta no filme, também acho que souberam colocar muito bem. A intenção de Histórias Cruzadas não é, como sugere a “Nerd Girl”, realizar um debate acerca do racismo, nem supérfluo e nem profundo, e é por isso que tal debate não acontece. É simplesmente expor a situação daquele tempo e retratar a coragem de pessoas que estavam dispostas a mudar a realidade. Qualquer um que se dispõe a batalhar contra algo incrustado na sociedade corre riscos enormes, é bonito de se ver.
No fim das contas, foi pra mim uma agradável surpresa. Atuações impecáveis, história linda e emocionante. E não me importa que as personagens sejam caricatas ou que o filme seja cheio de clichês, ele sabe cumprir o seu papel.
E, olha, chorei como uma criança. E não foi uma só vez! Recomendo fortemente, mas minha torcida para o Oscar ainda vai para O Artista.
Poxa, por que a carinha/avatar dos meus comentários é a mais feia? NÃO CURTI. u_u’
Olá Marcela, hoje li seu comentário. Entendo o motivo no qual você tenha adorado o longa, no entanto discordo em vários pontos. Não acho que a trama de The Help expõem as situações daquele tempo e nem tão pouco mostra a coragem dos ativistas e das pessoas que lutaram pela liberdade étnica e direitos civis nos Estados Unidos ,pelo contrário, o roteiro escrito por Taylor ameniza e até apaga inúmeros incidentes importantes na história dos EUA ocorridos naquele estado, como por exemplo: o assassinato de Medgar Evers(eles só mencionam um pouco), o ativista afro-americano morto por um membro da Ku Klux Klan e a sua julgamento ou sobre Martir Luther King ou Rosa Parks ou sobre John Kennedy entre outros…
Lamento em digitar isso, mas ele não cumpre o seu papel. As Histórias Cruzadas se mostra um filme maniqueísta e racista ao meu ver, em seu contexto (a trama coloca as empregadas domésticas como marginais e ao mesmo tempo complacentes e passíveis com seus patrões brancos, não revelando os abusos físico e verbais sofridos por elas. Não as vi se rebelando contra o preconceito antes da chegada de Skeeter. Que consegue ser mais inusitado, que é preciso uma jovem caucasiana vinda de NY para salvar a comunidade negra do Mississipi contra os outros caucasianos malvados).
Não entendo a principal razão do longa está concorrendo ao Oscar.
Aos que defendem o filme, reflitam sobre o script e também leiam a carta aberta da Association of Black Women Historians a respeito de “The Help” (em inglês):
http://www.abwh.org/index.php?option=com_content&view=article&id=2%3Aopen-statement-the-help