CRÍTICA: Histórias Cruzadas

Críticas
// 02/02/2012

Com o anúncio dos indicados ao Oscar no último dia 24, admiradores da sétima arte em todo o mundo já começaram a fazer suas apostas. Detentor de 4 indicações ao prêmio – entre elas, melhor filme e atriz – é a vez do drama Histórias Cruzadas, sucesso de público, aterrissar por aqui. Vale o ingresso?

Histórias Cruzadas
por Matusael Ramos 

Desde 1915, com o lançamento da controversa obra-prima do produtor e diretor D. W. Griffith, O Nascimento de Uma Nação, a temática da segregação racial tem sido explorada por Hollywood das mais diferentes maneiras e com os mais diferentes propósitos. Como qualquer outra forma de manifestação artística – e talvez pelo inegável apelo popular – o Cinema sempre esteve muito suscetível às transformações sofridas pela sociedade, do mais simples costume, a mais radical ideologia. De que outro modo, pois, explicar o fato de que a mesma Hollywood, que nas décadas de 20, 30 e 40, produzia filmes onde atores brancos exibiam faces grosseiramente pintadas de negro, agraciaria, muitos anos depois, um casal de atores negros com o seu prêmio máximo?

Os tempos mudaram e isso não é novidade. Se no início do século passado o cenário político e a mentalidade escravagista norte-americana fomentavam o sucesso de um filme onde negros eram retratados como seres ignorantes e sexualmente incontroláveis, quase um século depois, filmes como Histórias Cruzadas – que tem estréia prevista para essa sexta-feira, em todo o país conquistam o público e a crítica ao promover, justamente, a inversão desses papéis, expondo a classe média norte-americana e condenando o seu racismo nem tão velado.

Histórias Cruzadas é a adaptação para o Cinema do romance homônimo da escritora americana Kathryn Stockett, publicado em 2009. A história se passa na cidade de Jackson, Mississipi (estado americano historicamente marcado por manifestações racistas), para onde a jovem Skeeter (Emma Stone) acaba de voltar após se graduar na universidade. Idealista e sem qualquer pretensão amorosa, Skeeter percebe que já não partilha de muita coisa em comum com suas antigas amigas e que tampouco é capaz de corresponder aos anseios de sua mãe, no que se refere à conquista de um bom partido. Sem maiores perspectivas à vista, a garota passa a escrever para a coluna de serviços domésticos do jornal local, recebendo, para tanto, a ajuda de Aibileen (Viola Davis), empregada doméstica de uma de suas amigas. É graças a essa aproximação e à iminente aprovação de um decreto-lei que proíbe às empregadas domésticas negras o uso do mesmo banheiro dos patrões, que Skeeter decide colher em segredo os depoimentos dessas mulheres, a fim de denunciar à sociedade as humilhações infligidas àquelas que zelavam por gerações de suas famílias.

O maior mérito de Histórias Cruzadas – e nesse ponto as premiações foram quase unânimes até agora – é o seu elenco, essencialmente feminino. Sem exceção, todas as atrizes brilham durante as quase duas horas e meia de projeção. A composição das personagens, cada qual com personalidades bastante definidas, se configura como peça fundamental na garantia do envolvimento do público espectador – e em Histórias Cruzadas elas nos fazem rir, chorar e odiar. Viola Davis, que já havia deixado claro todo o seu potencial no drama Dúvida, de 2008, volta a surpreender no papel de uma mãe que sofre em silêncio e que encontra, na iniciativa da inexperiente Skeeter, uma maneira – também silenciosa – de denunciar. Essa carga dramática, entretanto, é sabiamente contrabalanceada pela presença de Octavia Spencer, também no papel de uma empregada doméstica. Fazendo-se do uso de trejeitos adoravelmente afetados, Spencer integra, ao lado da própria Emma Stone e de nomes como Sissy Spacek e Jéssica Chastain, o lado cômico (ou o mais próximo de) do longa. Bryce Dallas Howard, por sua vez, faz as vezes de vilã, como a detestável idealizadora do projeto de lei.

A despeito da temática a princípio delicada, Histórias Cruzadas surge como talvez, o filme mais brando dentre os concorrentes ao Oscar. Ainda que fruto de uma adaptação literária, o roteiro é de fácil assimilação e sem conflitos muito significativos. Um incômodo bom-mocismo paira sobre boa parte do longa, em oposição a uma vilania quase caricata. Os ataques da Klu Klux Klan ou os discursos de Martin Luther King não são mais que pincelados na trama. Considerando, entretanto, que o filme (ao contrário de sua própria protagonista), não tem maiores pretensões no que tange o engajamento da causa – um ponto a seu favor – tais aspectos são facilmente perdoáveis. Ora, pois, não seria justo condená-lo por uma suposta superficialidade quando o seu propósito inicial foi senão, o de tomar por exemplo essas mulheres e contar as suas histórias.

Como na indústria do Cinema ainda é papel do público dar o aval a quaisquer de suas realizações (e no caso de Histórias Cruzadas esse mesmo público já verteu nada menos que 200 milhões de dólares aos cofres da Buena Vista, sua distribuidora), é bastante provável que sua receita quase adocicada, feita para agradar, conquiste também os espectadores brasileiros. É esperar para ver.

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The Help (EUA, 2011). Drama. Disney Pictures.
Direção: Tate Taylor
Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer e Bryce Dallas Howard
Trailer
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Críticas, Drama