CRÍTICA | Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Ação
// 04/07/2017

Um desafio extremo superado com louvor. Em um cenário supersaturado de filmes de super-heróis, com o último reboot do personagem tendo acontecido há meros cinco anos, não é exagero nenhum definir Homem-Aranha: De Volta ao Lar – uma obra divertidíssima, mas repleta de conteúdo e consideração pelo material original e pelos fãs, igualmente – dessa forma.

O que temos aqui é a atualização do mito do herói aracnídeo que a trilogia inacabada comandada por Marc Webb e estrelada por Andrew Garfield buscou, mas não sucedeu plenamente fazer. A diferença aqui, e vantagem óbvia para o diretor Jon Watts, é se tratar do primeiro filme em que o Aranha está em seu “devido lugar”, ou seja, o já estabelecido Universo Cinematográfico Marvel. E essa conexão é feita de forma exemplar, talvez mais do que qualquer outra tentativa de ligação entre os longas anteriores da ambientação, tornando claro em que momento na cronologia o longa se passa, e sem deixar o clássico questionamento “mas onde estão os outros heróis enquanto isso acontece?” no ar.

De Volta ao Lar leva o Amigão da Vizinhança mais uma vez de volta aos tempos de escola, sem se preocupar, no entanto, em recontar – desnecessariamente – os percalços imediatos após a morte do Tio Ben, que ensina a clássica lição sobre poder e responsabilidade ao herói, que, na interpretação de Tom Holland, é mais próximo do prodígio bem articulado de Garfield do que do nerd desajeitado de Tobey Maguire, mas, mesmo sendo mais jovem que ambos, tem uma personalidade própria que se aproxima mais do tom dos quadrinhos nas últimas duas décadas que qualquer uma das encarnações anteriores de Peter Parker no cinema.

O Homem-Aranha de Holland é ainda terrivelmente inexperiente, e ao longo de boa parte do filme causa mais danos que benefícios à Nova York que busca proteger. Os dilemas adolescentes de Peter são retratados com competência igualável à da ótima trilogia de Sam Raimi, mas de forma ainda mais pungente e cheia de consequências, sem o ar de “conto de fadas” que a permeava. Nesse contexto, a voz da razão vem na forma do mentor/pai substituto Tony Stark, em performance contida de Robert Downey Jr, cuja presença não domina o filme, como parte dos fãs chegaram a temer a partir dos trailers e pôsteres liberados nas últimas semanas.

A questão do uniforme tecnológico, por exemplo, que também causou estranhamento quando apresentada, acaba sendo bem aproveitada ao resolver algumas questões inverossímeis de logística para um herói adolescente desprovido de recursos financeiros, além de proporcionar um interlocutor pras célebres elucubrações solitárias do aracnídeo. Aliás, um dos maiores méritos do longa é que, mesmo com a conexão impecável feita com o restante do universo retratado, a história é apresentada como algo plenamente autossuficiente e fechado em si mesmo, e não como um amontoado de teasers para produções vindouras.

O elenco de apoio, salpicado com nomes emergentes de algumas das melhores séries da atualidade, como Breaking Bad / Better Call Saul, Silicon Valley e Atlanta, é uma confluência multicultural de etnias, também retrata com muito mais realismo a realidade tanto de uma escola quanto a de um megacentro urbano como Nova York do que nas habituais pasteurizações caucasianas de Hollywood. Michael Keaton, que num primeiro momento parece subutilizado na pele do vilão Abutre – em uma espécie de diálogo metalinguístico com sua atuação quase oscarizada em Birdman – acaba ganhando intenso peso dramático no terceiro ato do filme. Com ritmo fluido, ação eletrizante e tom cômico na medida certa, De Volta ao Lar pode não parecer, à primeira vista, o filme do Homem-Aranha que os fãs queriam. Mas certamente é o filme do Homem-Aranha de que eles precisavam.


Spider-man Homecoming (EUA, 2017). Sony Pictures.
Direção: Jon Watts
Elenco: Tom Holland, Zendaya, Robert Downey Jr, Michael Keaton

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