CRÍTICA: Homem de Ferro 2

Ação
// 27/04/2010

Com estreia brasileira marcada para uma semana antes do lançamento nos Estados Unidos, Homem de Ferro 2 se prepara para lotar as salas a partir desta sexta-feira – apenas uma semana de Alice no País das Maravilhas, o maior concorrente do longa nesta temporada. Entretanto, o filme pode se valer da pouca expectativa de certa parcela do público, que pode acabar até migrando de sessão.

Homem de Ferro 2 não é uma grande surpresa, mas por ser claramente superior ao primeiro, já tem um público que certamente se sentirá satisfeito (e com razão). Leia a crítica clicando em “Ver Completo”.

Homem de Ferro 2
por Arthur Melo

Apenas dois anos separam a primeira da segunda passagem do Homem de Ferro pelo cinema. E, observando este período, a pouca evolução torna-se até quase justificável. Homem de Ferro 2 é, sim, melhor que o primeiro, mas é um ganho que se deu mais pela quantidade do que por um acréscimo de qualidade. Para a sua sorte, não é nada que o comprometa.

O engate deste segundo episódio é mais rápido. Apresentações são minimamente necessárias e já não há mais uma trajetória de surgimento para ser estabelecida – nisso já são duas vantagens por se tratar de uma continuação. Sabiamente, o roteiro utiliza o tempo economizado para nascer em tela um novo vilão, ainda que não tenha a habilidade de expor suas origens de uma maneira que torne compreensíveis (porém não aceitáveis) as atitudes futuras deste. Há, apenas, um entendimento das respectivas ações e reações.

Desta vez o Homem de Ferro não pode mais contar com o anonimato. Graças ao próprio, o mundo já tem conhecimento de que Tony Stark é o herói enlatado. Mas, enquanto o industrial está preocupado em usar sua tecnologia para as forças humanitárias, o governo norte-americano se empenha em atrair a plataforma Mark (as armaduras) para o seu poderio. Junto a isto, Tony enfrenta um novo inimigo que detém a mesma forma de tecnologia produtora de energia que ele. Como se não bastasse, este rival está disposto a se aliar com o maior concorrente das Indústrias Stark para destruir Tony em todos os aspectos.

O que retira de Homem de Ferro 2 as chances de se chegar a um patamar mais elevado são as repetições de tudo o que funcionou no primeiro filme, agora reaplicadas apenas em doses maiores, sem melhorias. O tipo de humor claro e direto nas tiradas do texto proferido por Robert Downey Jr. (idêntico ao longa anterior – o que é muito bom) dá o ar da boa graça, os deslumbres tecnológicos ficcionais que antes caíam o queixo agora soam mais artificiais tamanha invencionice e, logicamente, a ação se dá em proporções irrefutavelmente enaltecidas – provando, ao menos, que o diretor Jon Favreau teve muito no que pensar para manter a mesma linha de intensidade e realismo durante todo o longa.

A sacada da trama desta continuação é não se demorar em começar a inserir um projeto futuro que os fãs das histórias da Marvel cobram com muita ansiedade: a fusão dos universos dos heróis. Já há algumas produções baseadas nas HQ’s da editora em que as linhas narrativas começam a se cruzar. Entretanto, esta foi a primeira vez que a existência de um espaço e tempo compartilhados passou a interferir diretamente nos rumos de um filme isolado. Um ganho em dobro, pois além de preparar muito bem o terreno cinematográfico para o longa d’Os Vingadores com extrema coerência, traz frescor ao que está sendo contado sobre o Homem de Ferro, retirando o rótulo que a produção poderia ganhar de “só mais uma aventura” e assumindo o papel de um importante fato em um legado que posteriormente estará formado. É o caso da presença eficaz e bem colocada da S.H.I.E.L.D, trazida ao núcleo de Tony Stark por Nick Fury (Samuel L. Jackson). Um tiro certeiro dos produtores bem disparado pelo roteirista Justin Theroux, hábil também em imaginar boas pancadarias.

Se no primeiro filme as necessidades da história cobravam uma permanência da ação em locais estratégicos (se concentrando em peso e emoção no meio e final da projeção), neste ela surge intercalada e ainda mais carregada de explosões e duelos pela narrativa. Em seu auxílio vem um script que faz o possível dentro dos meios cabíveis para que tais sequências não pareçam terem sido alocadas a torto e a direito para fazerem uso dos efeitos visuais que, apesar de excepcionais, não demonstraram novidades em relação ao que já foi visto. Novidade, aliás, veio pelas mãos de Favreau, que construiu um bom clímax por meio de uma batalha final que tenta compensar o vácuo que Homem de Ferro 1 deixou nesta posição; um lucro para o ego do diretor, uma vez que o mesmo roteiro que se mostrou exemplar neste tipo de trabalho em passagens anteriores da história se mostrou vago e ineficaz, reduzindo importâncias que deveriam ser intocadas. Contudo, é esta troca de favores que torna a técnica do filme oscilante. Quando a direção se mostra muito competente em estabelecer planos para certas cenas, se aliando à boa edição, o roteiro resolve falhar. Enquanto que, ao longo, são os efeitos visuais que já não trazem surpresas, apesar de tudo muito bem arquitetado e sem buracos. E,  quando todos estes elementos resolvem estabelecer uma união, nota-se um desinteresse da edição de som. Não fosse a brilhante criatividade dos desenhistas de produção que conseguiram moldar três espetaculares trajes só para o Homem de Ferro e os animadores que as dobram e desdobram (vide a ótima armadura “portátil”), a atenção dos mais criteriosos nestes aspectos poderia se perder.

Inacreditavelmente, diante de pequenos escorregões que poderiam fazer enormes diferenças, Homem de Ferro 2 continua funcionando muito bem. A substituição de Terrence Howard por Dom Cheadle como Jim Rhodes (A Máquina de Combate) foi acertadíssima unicamente pelo fato do ator demonstrar um fôlego para com o personagem que Howard não se ateve. Um preparo repetido por Mickey Rourke, que encara Whiplash com um fervor raro, assim como Sam Rockwell na pele de Justin Hammer. Sobrou apenas para Scarlett Johansson, que não consegue como a Viúva Negra ter o mesmo conforto que o restante do elenco, relembrando que poderia ter sido um bom acréscimo se repetisse os mesmos resultados de suas poucas lutas corpóreas no filme.

Homem de Ferro 2 pode não ser o tipo de filme que se vanglorie por trazer em sua história argumentos válidos para o colocar em um local de destaque entre os filmes de heróis. Até porque não há a mesma seriedade de O Cavaleiro das Trevas ou o mesmo bom senso dos dois primeiros da série Homem-Aranha. Mas a intenção não é esta. Trata-se de um divertimento que, apesar de raso, não exige desligamento cerebral. É uma forma de entreter descompromissada, cujo maior atrativo se sustenta em cenas de ação. Para o seu crédito, elas vêm como o recheio de uma história que quer e precisa ser contada – o que foi feito corretamente, sem rodeios ou floreios, analisando e relacionando muito bem os protagonistas entre si. Um título válido na sessão de filmes de qualquer um.

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Iron Man 2 (EUA, 2010). Ação. Paramount Pictures.
Direção: Jon Favreau
Elenco: Robert Downey Jr, Gwyneth Paltrow, Mickey Rourke, Scarlett Johansson, Samuel L. Jackson, Sam Rockwell, Don Cheadle.

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