CRÍTICA | Homem de Ferro 3

Ação
// 26/04/2013

Poucos filmes são tão ansiados como Homem de Ferro 3. Uma vez por ano, damos de cara com uma figura dessas na indústria do Cinema. E é por essas vias que surgem a expectativa e o jogo duro dos produtores para entregar um longa sem precedentes. Se vai funcionar, aí é outra história.

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Homem de Ferro 3
por Arthur Melo

Não há nada mais nocivo para uma continuação cinematográfica do que o desejo declarado de seus produtores de superar o que já foi visto nos capítulos anteriores. Quando se trata de um longa de ação, então, o problema tende a causar danos maiores. Homem de Ferro 3 cai neste conceito genérico, tendencioso às cenas movimentadas, mas falho na concepção de seu argumento, ainda que o roteiro em si não seja tão ineficaz.

No filme, Tony Stark precisa lidar com uma série de atentados terroristas inexplicáveis quanto a sua realização, descobrindo que tudo está arquitetado através de uma poderosa (e incrível, literalmente) tecnologia de manipulação genética, ao passo que tem de aprender a lidar com os avanços de sua própria engenharia de fabricação dos trajes de Homem de Ferro.

Direta ou indiretamente, a pedra no sapato de Homem de Ferro 3 é Os Vingadores. Indubitavelmente, o time de heróis se mostrou uma poderosa máquina de dinheiro que superou as baixas expectativas e se provou um divertido – e bem amarrado – blockbuster de pancadaria sem tanto fundo dramático, mas ainda assim bastante divertido. Pertencia à Marvel, a partir de então, o desejo de sobrepor os atrativos da trama e das ótimas sequências de batalha do grupo da S.H.I.E.L.D. Difícil, mas alcançável, porém não atingido. O filme dirigido por Shane Black tem, de fato, ótimos momentos, mas tem também um conceito que não casa com o perfil do Homem de Ferro.

A venda da imagem do Mandarim (Ben Kingsley) como o vilão principal é uma das falhas. É de se entender, apesar dos pesares, que isso contribui para que o espectador seja pego por uma das maiores reviravoltas do filme – e há várias, das pequenas e irrelevantes à trama até as que causam verdadeira surpresa, ainda que nem sempre isso seja um ponto positivo. No entanto, isso assume uma verdadeira pobreza quanto à criatividade do argumento principal em adaptar para a estrutura narrativa do Homem de Ferro no Cinema aquilo que é contado nos quadrinhos. A bem da verdade, diferente de toda a ideia criada em torno do filme, Mandarim sofre uma profunda diminuição de sua importância em nome da valorização de um novo vilão que está anos-luz atrás de ser tão icônico nas páginas da Marvel. À primeira vista, soa como uma boa investida dos roteiristas, mas em poucos minutos de avanço da fita fica claro que a emergência de poder de Aldrich Killian (Guy Pearce) é uma estratégia para fugir do contexto dos Dez Anéis do, então, poderoso Mandarim, uma vez que não haveria união verossímil com o universo de Tony Stark; não da maneira como ele tem sido exposto nas telas – um percalço que já causava dúvidas aos próprios produtores em época de pré-produção do filme.

No final das contas, Homem de Ferro 3 utiliza de suas voluptuosas sequências de pancadaria para desviar a atenção do fato de que Os Vingadores praticamente não interferiu no panorama global dentro da história, quase que em uma negação a todo o trabalho para instaurar o mencionado e insistido Universo Marvel nos cinemas (a S.H.I.E.L.D sequer é mencionada). Querendo fugir do conceito mágico alienígena dos Dez Anéis para não cair no estranhamento, opta pelo uso de uma tecnologia genética de realização e efeitos totalmente inverossímeis – com o agravamento de um vilão muito menos atraente à demanda dramática – quando, na verdade, poderia ter residido no conceito alienígena mencionado e estabelecido um paralelismo imediato com a ameaça que vimos em Os Vingadores – que é citada diversas vezes pelos personagens.

O peso cai totalmente sobre Robert Downey Jr. e a técnica, ambos mantendo o valor de produção do filme. Enquanto um recorre às conhecidas piadas dos três capítulos anteriores em que deu o ar da graça – mas nada excepcional se já se conhece a atuação de Downey Jr. –, o outro entrega um produto sem falhas até aos olhos mais atentos. Pela primeira vez é possível ver um filme cuja transposição de imagens no chroma key funcione tão bem, sem erros de diferença de iluminação – vide o espetacular resgate aéreo dos passageiros do Força Aérea Um, uma das melhores criações em Homem de Ferro 3. E a animação gráfica só entrega a presença de computação pelo simples fato de sabermos que aquilo que está na tela é fisicamente impossível de ser filmado.

Ainda assim, o saldo final lembra com remorso a existência de recursos clichês, como o típico figurão desengonçado de começo de filme que, por uma ausência de noção, acha que pode ser levado a sério quando não sabe o momento, o ambiente e a maneira propícios de se portar a alguém a quem se quer alcançar, mas que no segundo ato retorna com discernimento e rancor. Ou os furos honestos, como um homem em chamas que emerge do ferro em ponto de fusão mantendo suas roupas intactas. Ou, ainda, o repeteco do personagem aparentemente avariado, mas que fica um clímax inteiro oculto, esperando para reaparecer durante o último suspiro.

Longe de ser um filme ruim, Homem de Ferro 3 sofre do grande mal da expectativa e do direcionamento ruim de sua ideia, e não de seu roteiro, direção, efeitos visuais ou atuações. Mas sofre, principalmente, com a incapacidade de ser tão emocionante quanto a película do time de super-heróis de 2012 ou de ser a diversão comum, mas pelo menos de elementos palpáveis, que foram os dois primeiros filmes.

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Iron Man 3 (EUA, 2013). Ação. Disney Pictures. Marvel Studios.
Direção: Shane Black
Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Don Cheadle, Rebecca Hall, Ben Kingsley

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