CRÍTICA: I Love You Phillip Morris

Comédia
// 03/06/2010

Demorou bastante. Mas o tão comentado filme com temática gay protagonizado por Jim Carrey e Ewan McGregor desembarca só amanhã no Brasil – um atraso considerável. Falado talvez nem pela proposta do longa, que para tantos já deixou de ser tabu. Mas, em terras nacionais, o olhar caiu mesmo sobre a participação do ator Rodrigo Santoro, que interpreta um personagem também homossexual.

Bem fundamentado, O Golpista do Ano (I Love You, Phillip Morris) vai além do aprofundamento neste universo. Leia a crítica clicando em “Ver Completo”!

O Golpista do Ano (I Love You, Phillip Morris)
por Gabriel Giraud

Um homem com tiradas cômicas em um meio trágico e com atitudes abjetas com razões nobres. Esse é retrato pós-moderno do protagonista de O Golpista do Ano, redutora tradução de I Love You Phillip Morris, título que é o coração do mau comportamento do personagem e, portanto, a principal razão dos eventos do filme. O personagem de Jim Carrey, Steven Russel, nos é apresentado como um policial bem-sucedido, honesto, pai de família, bem-casado, religioso e todas as outras características bem-quistas pela sociedade pequeno-burguesa judaico-cristã ocidental caucasiana e heterossexual.

E com socos e pontapés, os diretores e roteiristas John Requa e Glenn Ficarra mostram Russel rompendo todos esses valores. Ele é adotado e gay – motivo pelo qual ele começa a dar golpes, já que viver o “gay lifestyle” custa caro. Na prisão, Russel se apaixona à primeira vista por Phillip Morris (Ewan McGregor). A partir de então, toda a sua vida flui em torno desse amor. É aqui que há uma visão mais crítica sobre essa busca incessante pela felicidade por meio da aquisição de bens materiais e da ostentação.

Isso é tratado pela montagem seca e moderna do filme, com transições entre cenas que chocam tanto quanto assistir à uma ópera na qual o tenor começasse a cantar Britney Spears. A edição intercala o ápice e o fundo do poço a todo o tempo, numa tentativa vitoriosa de usar a linguagem pós-moderna de narrativas que não explicam nem criticam – apenas expõem, lançando mão do choque para efeito cômico. Na verdade, pode-se considerar que há duas críticas no filme, mas elas não se traduzem no campo da montagem, mas sim no roteiro.

Um roteiro que poderia ter usado a busca da felicidade pela aquisição de modo transitório preferiu destacar isso – primeira crítica! –, já que, para muita gente, é essa a garantia de manter o amor. “Amor”, a grande palavra de quatro letrinhas que é o sinônimo de “felicidade” para toda a sociedade (quiçá mundial). “Felicidade”, que é atingir o autoconhecimento completo; não se sentir sozinho, não ser vazio. “Vazio”, a grande questão do homem pós-moderno, pois só conseguimos ver o que somos a partir do que os outros dizem da gente. É essa a segunda crítica.

Machado de Assis já usou esse tema no seu conto O Espelho, onde o protagonista deixa de ser ele para ser o militar e, assim que não há mais ninguém para servi-lo, ele deixa de ser militar e passa a não ser (o verbo “ser” com seu sentido intransitivo) – e, ao ver-se no espelho, ele não se vê. Há apenas um vulto, uma imagem embaçada. Essa cena existe exatamente igual no filme. Quando Phillip Morris diz a Russel não saber quem ele é, Russel cai em depressão. Quem era ele afinal? Depois de vários nomes e várias profissões, Phillip Morris, o seu grande amor, tira toda a existência do ser de Russel e faz com que ele não seja. E isso acarreta a grande reviravolta do filme.

Jim Carrey e Ewan McGregor brilham em suas atuações, apesar de comum nos depararmos com citações do tipo “Jim Carrey é ótimo quando não faz personagens cômicos”. Pois, aqui, ele faz um personagem cômico brilhantemente, e sua atuação é realçada pelo trágico do seu meio e de seu caráter. McGregor é um mutante que busca atingir os mínimos gestos e detalhes de seus personagens e, mais uma vez, ele consegue. Destaque para a carismática Debbie, vivida por Leslie Mann e para o primeiro namorado de Russel, Jimmy, encarnado em Rodrigo Santoro – que protagoniza uma bela cena no longa.

A trilha sonora de Nick Urata beira o sonho e a loucura, e é muito bem preparada, especialmente quando intercalada com o leitmotiv das nuvens, que segue a vida de Steven Russel desde a sua infância, remetendo à verdade e à liberdade que o personagem deseja viver. E o supercômico leitmotiv das “salsichas de homem” que está por toda parte. O tônus tragicômico é bem marcado desde a primeira cena.

E eis que a grande frase do início do filme é esquecida ao longo da narrativa: “Essa história realmente aconteceu. Ela realmente aconteceu.” A história é, realmente, incrível. Na verdade, o homem pós-moderno pode fazer qualquer coisa – estranho, então, seria se ela fosse demasiadamente crível.

I Love You, Phillip Morris (EUA, 2009). Comédia. Imagem Filmes.
Direção: Glenn Ficarra e John Requa
Elenco: Jim Carrey, Ewan McGregor, Rodrigo Santoro.

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Comédia, Críticas