CRÍTICA | Incêndios

Críticas
// 11/06/2011
incendios

Em Maelström, filme de 2000 do mesmo diretor quebequense, assistimos à extração cirúrgica de um feto ao som de “Good Morning, Starshine“. No começo de Incêndios (2010), sucesso-de-crítica-e-público, ouvimos Radiohead enquanto crianças endurecidas, de algum lugar do Oriente Médio, têm os cabelos raspados por guerrilheiros, presumivelmente aguardando um destino sombrio.

De fato, destino sombrio sintetiza bem o que acontecerá na tela.

Se os dilemas pessoais de Maelström caíam no gênero existencial, Incêndios se banha na tragédia. Lá, conflagração interior e angústia. Aqui, personagens aplainados, sem muita psicologia, reduzidos a joguetes de uma verdade terrível, que fatalmente se abaterá sobre todos.

A referência só pode ser Édipo. Um drama familiar, bem ao gosto do senso comum de multiplex, ganha contornos trágicos. Não há closes de melodrama nem autocomiseração humana. O sofrimento recebe-se com secura, pois inevitável. Existe atitude mais trágica do que cantar enquanto se aguarda a vez de ser torturado? Como na fala de Paulo Martins (Terra em Transe), a mais trágica das criaturas glauberianas: “é preciso resistir e é preciso cantar”.

Como na peça grega, tem-se um quebra-cabeças que só vai revelar-se aos personagens no final, embora o espectador saiba antes. É que o enredo se desenrola de dois tempos, alternando presente e flashback. Um esquema trivial, mas que se justifica. Usualmente, o flashback vem em socorro de algo que ocorre no presente, explicando-o, como seqüência lógica. Em Incêndios, contudo, o passado em flashback antecipa o que acontecerá no presente, mostrado a seguir. Assim, quando os irmãos vão descobrir uma nova peça do quebra-cabeças, já sabemos do que se trata, porque a cena em flashback já nos mostrou. Como se fosse um flash-forward.

Assim como em Édipo, não só sabemos de antemão a verdade, mas também que chegará a hora fatal dela ser revelada aos pobres mortais na história. Mas o personagem epônimo está faltando. Pelo menos na maior parte do filme. Essa história é contada por outros parentes: a mãe, os irmãos, o amigo advogado. Os irmãos se encarregam de juntar os estilhaços da biografia materna, tanto mais horrenda quanto mais próximos do fim da charada. A mãe, no tempo passado, vive o horror. Porém, como na tragédia, o filme não se envolve em demasiado com as vítimas: a câmera guarda distância, insensível, implacável. Daí a cena da menininha morta pelas costas destoar do conjunto, pela estetização (do inestetizável).

O palco da tragédia se passa no Líbano, mas isso pouco importa. Poderia ser qualquer região convulsionada do planeta. Não há tomada de posição. Mesmo porque, para o filme, as verdadeiras vítimas são os civis de ambos os lados, indiscriminadamente trucidados em sequências de sangue e gritos. Numa cena, um franco-atirador mata qualquer um que cruze a sua linha de tiro.

Em Incêndios, o Oriente Médio não passa de um mundo ínfero sem sentido ético ou político. Um mundo além da interpretação, um poço inesgotável de fanatismo, ódio, brutalidade e vendeta. É a realização do absurdo camuseano, porém sem espaço para uma vida absurdamente vivida. Qualquer passo mal dado leva à morte imediata. E pior, indiferente. Como na aula de matemática pura do começo do filme, “sejam bem-vindos ao reino da solidão”, da recriminação, da coletivização da culpa. Nenhum discurso aqui pode servir para nada. Todas as variáveis se anulam numa equação sem solução, ficando apenas uma constante: sofrimento.

Vago, genérico, mistificado? Perplexo. Por um lado, não apresenta horizonte. Por outro, essa falta não deixa de configurar, ela mesma, um certo olhar: a estupefação diante da catástrofe. Não admira que só reste como desfecho um rasgo messiânico. Tão religioso quanto os credos em conflito, mas em vez de levantar as mãos contra o inimigo, joga-as aos céus atrás de redenção. Solução que, suponho eu, é forjada de fora da família edipiana, por meio da figura do advogado. Um terceiro excluído, não por acaso ocidental, que resolve pôr fim à vingança infinita.

Enfim, perdoemos o agressor, porque somos todos culpados, rompamos o ciclo vicioso, amemos incondicionalmente e vivamos em paz. Ingênuo? Insuficiente.

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Die Frau die singt (Canadá/França, 2010). Drama.
Direção: Denis Villeneuve
Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin e Maxim Gaudette

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Críticas, Drama