CRÍTICA | Inferno

Críticas
// 14/10/2016
inferno

A terceira aventura cinematográfica do simpático projeto de Indiana Jones Robert Langdon, como as anteriores, é impecável tecnicamente, atrativa visualmente, divertida, até certo ponto informativa, levanta questionamentos éticos e filosóficos interessantes e, ainda assim, o resultado final é irremediavelmente insosso. Ainda que quase completamente desprovido de personalidade ou ambição artística, no entanto, trata-se de um bom passatempo para, digamos, uma tarde de domingo preguiçosa no cinema.

Não seria exagero dizer que Ron Howard goza de status lendário em Hollywood. Responsável por uma lista impressionante de obras altamente populares e aclamadas pela crítica, de Cocoon a Rush: No Limite da Emoção, passando por Willow na Terra da Magia e Apollo 13 – além de trazer ao mundo Bryce Dallas Howard –, o diretor é tão consistente tecnicamente quanto ocasionalmente frio no tom de seus trabalhos, como ocorre por exemplo em Frost/Nixon e Uma Mente Brilhante, filmes de alto nível de produção, roteiro e elenco que passam longe, contudo, de engajar emocionalmente o espectador.

Esse é o caso de Inferno, terceira aventura (nos cinemas) do professor aventureiro nascido nos livros de Dan Brown a reunir Howard e seu colaborador eventual Tom Hanks na respectiva adaptação cinematográfica. Com um encadeamento lógico agradável de seguir, inclusive por não ser desprovido de surpresas e subversões da fórmula da própria série, aliado ao reconhecimento e familiaridade imediatos de Hanks – ainda que o ator, conforme envelhece, pareça estar se metamorfoseando em uma espécie de Frankenstein moderno –, o longa não exige esforço do público para embarcar na trama cheia de reviravoltas. Ao mesmo tempo, 15 minutos após a sessão, já será difícil lembrar a importância exata de cada uma dessas viradas, tamanho é o sabor burocrático de água com açúcar que a coisa toda revela ter ao final das não desprezíveis duas horas de exibição.

A história tem início de forma impactante: Langdon (Hanks) acorda desmemoriado em um hospital em Florença, na Itália. Entretanto, não demora muito até o professor perceber que se encontra mais uma vez na já familiar e desconfortável posição de alvo de uma perseguição por parte de misteriosas organizações governamentais e paramilitares. Na inevitável escapada engenhosa, o protagonista é auxiliado por uma nova mocinha espevitada, a doutora Sienna Brooks, aqui interpretada com empenho e competência por Felicity Jones, de A Teoria de Tudo e o iminente Rogue One: Uma História Star Wars.

Logo, somos apresentados a uma série de agentes e mandantes de uma intricada rede de organizações que competem para chegar primeiro ao professor, cada uma por seu próprio motivo elusivo, colocando Langdon e Sienna em uma sucessão de fugas e enigmas que os levará de Florença a Veneza, e de lá para Istanbul, na Turquia. Entre essas figuras misteriosas, estão o bilionário Bertrand Zobrist e o divertidíssimo e implacável “Mestre” Harry Sims (Ben Foster e Irrfan Khan, respectivamente, ambos ótimos), a doutora Elizabeth Sinskey (Sidse Babett Knudsen), que compartilha uma história antiga com Langdon, a letal Vayentha (Ana Ularu) e o eficiente Christoph Bruder (Omar Sy, do francês Intocáveis e X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido).

Inferno, à primeira vista, parece uma simples reciclagem das duas histórias que o precederam, mas contém inteligentes desconstruções de parte dos muitos clichês que constituem o longa para que tenhamos, assim como Langdon, a sensação de que nada é o que parece. A obra também merece crédito por abordar o espinhoso tema da exponencial expansão da população humana no planeta, e a insustentável situação que ela eventualmente representará para todos nós. Como seria de se esperar de uma produção desse porte, no entanto, ela passa longe de arriscar uma reflexão mais aprofundada sobre o assunto. Sobra o entretenimento. Mas esse é considerável.


Inferno (EUA, 2016). Ação/Suspense/Drama. Columbia Pictures.
Direção: Ron Howard
Elenco:
Tom Hanks, Felicity Jones, Ben Foster, Irrfan Khan, Sidse Babett Knudsen


6-pipocas

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Categorias
Críticas, Thriller