CRÍTICA: Inimigos Públicos

Críticas
// 23/07/2009

Johnny Depp volta às telas em um personagem que depois de algum tempo foge dos trejeitos e do espaço suficientes para explorar o bom talento do ator. Mas, ainda assim, ele mostra a que veio. Inimigos Públicos estreia amanhã com elenco afiado e direção implacável de Michael Mann. Confira a crítica clicando em “Ver Completo”.


Inimigos Públicos
Por Arthur Melo

Não é muito raro diretores e atores que adquiriram algum respeito no meio que participam cometerem gafes cinematográficas que ponham em dúvida sua capacidade artístico. Michael Mann definitivamente não faz parte deste grupo, mas algumas de suas escolhas colocam sob suspeita seu bom discernimento antes de optar por produzir um longa. Vide o péssimo Hancock e o insosso Miami Vice. Mas é em atitudes como a de assinar projetos como O Informante e Ali que o diretor e produtor prova seu valor. Em Inimigos Públicos, Mann confirma esta análise.

A história real do primeiro criminoso a ser considerado inimigo público número um dos Estados Unidos, John Dillinger, é um material excepcional nas mãos do diretor e do trio de roteiristas (do qual Mann também faz parte). Dillinger se tornou um ícone e, para alguns americanos que se sentiam injustiçados pelas práticas bancárias, ídolo. Seus assaltos a bancos eram verdadeiras obra arquitetadas milimetricamente – o que veio a se tornar um espetáculo na tela. Suas fugas espetaculares chamaram a atenção de muitos e foram alvo de admiração; por vezes quase ridicularizando a polícia. Mas Dillinger precisava ser detido. Para isto, o diretor do recém-criado e ainda em “testes” FBI, J. Edgar Hoover (Billy Crupud, o Dtr. Manhattan de Watchmen – O Filme), coloca em seu encalço o agente Melvis  Purvis (Christian Bale) com uma dupla tarefa: capturar o maior criminoso da América e restaurar a reputação da polícia e credenciar o FBI ao que ele viria a ser um dia.

Sem grandes margens para discordâncias, o que sustenta o longa é o excelente nível do elenco e a direção aprumada de Michael Mann. Depois do curioso desempenho em Sweeney Todd (que lhe rendeu uma indicação ao Oscar), Johnny Depp está totalmente alforriado de Jack Sparrow – o que já não era sem tempo –, anulando toda e qualquer evidência de que um dia interpretara este personagem. Depp está centrado, determinado e absolutamente confortável. Sua resolução de Dillinger é impassível de correções e a interação com Marion Cotillard (em seu primeiro papel após receber o Oscar de Melhor Atriz por Piaf) passa toda a veracidade do relacionamento amoroso entre Dillinger e Billie Frechette, coroando-a como aquela que de fato é sua maior cúmplice. Christian Bale também acerta o ponto. Na pele do detetive Purvis, Bale atribui sutileza em algumas falas e encarna com facilidade a postura de um oficial, renegando toda a emergência comumente vista em seus personagens, sem vestígios – uma demonstração de caráter técnico como ator.

A condução do filme sob a tutela de Michael Mann é o ápice. O diretor opta por manejar a câmera de perto, em ângulos fechados tantas vezes centralizando a ação verbal, dando uma sensação de participação. Em vários momentos, altera o foco da imagem e parece se despreocupar com o ambiente, expressando um aspecto quase documental a projeção que só a torna mais realística. Aliado ao seu próprio trabalho como membro da equipe de roteiristas, soma mais pontos ao se preocupar em não só mostrar a trajetória de John Dillinger como alguém que estuda de fora os acontecimentos e narra diversas sequências, mas procura ainda valorizar o caráter do personagem, dando-lhe a esfera humana necessária. Apesar de ser praticamente impossível não se aproximar de Dillinger, Mann tomou o cuidado de não enaltecer o criminoso como homem mais do que a história já fez, tampouco não quis enfatizar ou exagerar seu valor como o inimigo público que era. Uma imparcialidade ímpar que apenas contorna os atos de John, definindo-o exatamente através deles.

Nas questões técnicas, o longa dá o exemplo em muitos quesitos. A direção de arte é extremamente cuidadosa, enquanto os figurinos são definitivamente adequados. Os trajes da bela Billie identificam sua parcela social, mas descrevem sua elegância. Assim como há uma nítida diferenciação na forma como se trajam os peritos e os parceiros de Dillinger, ainda que os dois grupos mantenham uma postura impessoal. Já a edição de som faz milagres. As sequências de trocas de tiros alternam os estampidos secos com estalares de vidraças de forma tão nítida e precisa que parecem possuir o poder de transportar os ouvidos para o meio da ação de um jeito poucas vezes experimentado.

Inimigos Públicos é indubitavelmente um clássico exemplar dos antigos filmes policiais investigativos. A ressalva é o avanço em relação a eles ao dar tanto espaço na trama para um homem sem prejudicar sua performance como criminoso e ainda manter em larga escala o embate entre inimigos e Estado. Um tiro certeiro.

Public Enemies (EUA, 2009). Policial. Universal Pictures.
Direção: Michael Mann.
Elenco: Johnny Depp, Marian Cotillard, Christian Bale.

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Críticas, Thriller