CRÍTICA | Interestelar

Críticas
// 06/11/2014

Um clássico imediato da ficção científica levada a sério, tanto como gênero quanto como via de discussão sobre o passado, presente e futuro da espécie humana. Um dramalhão pretensioso de elenco inflado. O possível ápice – e início da derrocada, em termos artísticos, comerciais e de público – da “renascença” da carreira de Matthew McConaughey e da impressionante sequência de sucessos do diretor Christopher Nolan. Todas essas definições podem ser usadas para definir, com variáveis graus de precisão, Interestelar. Ou podemos sintetizar o filme em uma palavra: espetacular.

Interestelar
Por Gabriel Costa

Não se trata de um gênero famoso por sua sutileza e low profile. Não temos aqui um diretor que costuma assumir projetos despretensiosos e abordar conceitos ordinários. E o protagonista não é conhecido por manter uma participação contida e discreta nos filmes em que atua. Já considerado o possível candidato a ser o primeiro filme do gênero a receber o cobiçado Oscar de Melhor Filme na próxima cerimônia de premiação da Academia, Interestellar não poupa tintas no enredo, no escopo da trama e nem mesmo no lado científico propriamente dito. Ainda que haja evidentes extrapolações, o respeito e fidelidade às leis da física e do tempo e espaço ao longo da produção do longa foi tamanha que levou a avanços científicos reais. Como qualquer obra de tais proporções – e ambições –, contudo, ela encontra tanto benefícios quanto percalços em seus vários excessos, entre os quais o primeiro e mais evidente, claro, é o aspecto visual.

Ao retratar a jornada do ex-piloto e engenheiro Cooper (McConaughey) de sua modesta fazenda nos recônditos de um futuro devastado e nada glamuroso até os confins inimaginavelmente amplos e distantes do espaço sideral, Nolan, com o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema e a consultoria do físico teórico Kip Thorne – que já colaborou em nível acadêmico com nomes como Carl Sagan e Stephen Hawking– compõe panoramas assombrosos e deslumbrantes, em tom de evidente homenagem e citação à referência obrigatória 2001 – Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, inclusive na trilha sonora de Hans Zimmer. O espaço pode não parecertão profundo e inóspito quanto em Gravidade, do ano passado, mas é igualmente fascinante. O design inteligente e cool das naves Endurance, Ranger e Lander contrasta grave e astutamente com o dos robôs TARS e CASE, cujas “performances” merecem destaque mesmo em meio a atores oscarizados e experientes como Michael Caine, Anne Hathaway e Matt Damon.

O que nos leva ao segundo ponto evidente de excesso no filme: o sentimentalismo e drama quase Armagedônico, especialmente se levarmos em conta que boa parte do enredo se apoia na relação entre Cooper e sua filha Murph (Mackenzie Foy, quando criança, e Jessica Chastain, adulta). McConaughey deixa de lado aqui a bem sucedida tendência recente em interpretar personagens idiossincráticos e imperfeitos e assume a persona de astronauta bronzeado (?) e quase inumanamente nobre. O paralelo temporal entre o desenvolvimento da história no espaço, onde, devido à proximidade do campo gravitacional de um colossal buraco negro giratório o tempo passa mais lentamente; e na Terra, é encadeado de forma exemplar, e é, sim, comovente, mas há momentos em que o chororô atinge níveis alarmantes sem uma exploração mais aprofundada dos sentimentos envolvidos na coisa toda. Ainda que não seja uma má atuação, a sensação é de uma nítida interrupção, ou pelo menos um engasgo, na “mcconnaissance” – o “fenômeno” de reconfiguração da carreira e interpretações de McConaughey a partir de suas atuações impecáveis em obras aclamadas pela crítica como Clube de Compras de Dallas, O Lobo de Wall Street e True Detective. Já Chastain compõe uma personagem de conteúdo emocional mais bem dimensionado, e deve expandir a atenção conquistada desde A Hora Mais Escura, de 2012.

Por fim, o terceiro ponto do que chamamos até aqui de excesso, mas não se trata mais exatamente disso, é o necessário compromisso entre arte e indústria, ousadia e familiaridade, necessário para que um projeto dessa magnitude chegue ao público. A atmosfera e clichês hollywoodianos nunca estão muito longe da inovação proposta pela discussão nessa escala de teorias e conceitos científicos já provados e comprovados para os quais, inevitavelmente, parte dos espectadores vai torcer o nariz como “mentiras”. Nolan, aqui mira mais alto até mesmo do que em A Origem ou Amnésia, e se perde repetidas vezes na própria ambição. Mas o filme não deixa de ser, em toda a acepção do termo, um espetáculo.

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Interstellar (EUA/Reino Unido, 2014). Ficção Científica. Paramount Pictures / Syncopy
Direção: Christopher Nolan
Elenco: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Jessica Chastain, Michael Caine, Matt Damon, CaseyAffleck

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