CRÍTICA: J. Edgar

Biografia
// 26/01/2012

Nesta sexta estreia no Brasil o novo drama dirigido pelo vencedor do Oscar Clint Eastwood, J. Edgar. Sumariamente ignorado pela Academia neste ano (inclusive na categoria Melhor Ator e na da exagerada maquiagem), o filme tem como sua maior dificuldade resolver o que ele pretende ser como filme e como contador da história de seu personagem.

Leia a crítica clicando em “Ver Completo”. Desta vez o texto traz algumas informações sobre a trama do filme. Se for o caso, você pode preferir lê-lo após conferir o longa.

J. Edgar
por Virgílio Souza

Em determinado momento de J. Edgar, Clyde Tolson (interpretado por Armie Hammer) afirma que a história do personagem-título sempre ganha contornos exagerados quando contada. Pois, acreditando-se ou não na confiabilidade da produção como registro histórico, é exatamente isso o que se vê em tela: um exagero de tons escuros, contrastes e camadas de maquiagem, que impõe graves obstáculos à compreensão clara e precisa do objeto da cinebiografia, bem como de parte de suas motivações e angústias.

Ainda que a fotografia incomode pela predominância absoluta, monótona e pouco criativa da penumbra, a utilização de uma paleta de cores que varia quase exclusivamente entre tons de marrom e cinza sugere a relação indissociável entre o protagonista, patrono do FBI, e o meio em que ele trabalha. Como sugere a sequência de abertura, em que a bandeira dos Estados Unidos e a fachada do escritório de J. Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio) aparecem antes mesmo do rosto do personagem, não há distinção entre sua casa e seu local de trabalho. Por essa razão, é natural que suas únicas interações sociais se deem com seus funcionários, com destaque para a Srta. Gandy (Naomi Watts) e o Sr. Tolson, e não surpreende que questões profissionais façam parte até mesmo dos momentos mais pessoais da trama, como aquele em que menciona suas qualidades de homem público enquanto questiona a própria sexualidade em frente ao espelho e próximo da mãe (Judi Dench).

Acompanhando a trajetória de Hoover desde a juventude, o longa roteirizado por Dustin Lance Black estabelece sua dinâmica narrativa logo nos primeiros minutos de projeção, optando por perpassar determinadas missões do bureau para acompanhar a evolução das ameaças combatidas pelo seu diretor – e obtém sucesso em não tornar-se episódico. Inicialmente, era preciso encontrar um precedente para agir com a liberdade e a independência necessárias – por isso somos apresentados ao caso Emma Goldman (Jessica Hecht); posteriormente, o interesse é combater imigrantes comunistas – o que justifica acompanharmos a viagem do protagonista à cidade de Patterson; e, em seguida, o mandato da organização é ampliado e torna-se necessário não apenas manter as coisas em ordem, mas também formular um arcabouço legal para permitir a atuação adequada de Hoover e seus comandados, em especial no combate aos gângsters – o que faz com que o caso Lindbergh,  fundamental nesse sentido, passe a ocupar posição central na trama.

A transição entre presidentes também é realizada com tranquilidade, exceto quando o protagonista se vê obrigado a agir para garantir o funcionamento de seu bureau. Em mais de uma ocasião, vemos Hoover assistindo a desfiles presidenciais da sacada de seu escritório, como se acompanhasse os rumos da história por cima, aparentando estar à margem dos fatos, para, em seguida, vê-lo tomar providências para amenizar todo e qualquer empecilho ao seu trabalho proporcionado pela mudança no comando da nação – note, por exemplo, o tom de ameaça adotado pelo diretor do FBI em sua primeira visita à Robert Kennedy (Jeffrey Donovan), irmão do presidente JFK, e a urgência com que pede à Srta. Gandy para reunir as informações obtidas sobre os supostos casos de adultério de Eleanor Roosevelt, primeira-dama entre as décadas de 30 e 40.

O roteiro, no entanto, não é livre de falhas. Com frequência, opta por retomar momentos prévios em flashbacks desnecessários, pouco sutis e que só alongam o tempo de projeção, já cansativa graças ao recurso de se contar a história em retrospectiva, partindo de um envelhecido narrador ditando a própria biografia. Ainda, a insistência do diretor Clint Eastwood em mostrar absolutamente tudo ao espectador da maneira mais explícita possível enfraquece potenciais bons momentos do longa, como aquele em que Clyde “desmascara” Edgar e a montagem (realizada por Joel Cox e Gary Roach) alterna seu discurso com “versões reais” dos acontecimentos exibidos anteriormente, o que acaba por se mostrar uma escolha das mais equivocadas. A irregularidade do trabalho de Eastwood também aparece em sequências visualmente pavorosas, como aquela em que Mitchell Palmer (Geoff Pierson) sofre um atentado e tem sua queda apresentada em câmera lenta (recurso que, felizmente, não é repetido em seguida). Por outro lado, o cineasta possui méritos pela composição da trilha sonora, que, ainda que discreta em sua totalidade, surge inspirada em momentos importantes da projeção.

O ponto forte de J. Edgar, no entanto, reside na relação entre o protagonista e Clyde, e, em especial, nas reações do diretor do FBI à presença constante de seu colega de trabalho, amigo e affair. DiCaprio compõe Edgar como um homem ambíguo: por um lado, seguro de si em sua missão de defender o país de toda sorte de ameaças e interessado no bem comum; e, por outro, inseguro com relação à própria sexualidade e preocupado com as aparências não por simples vaidade, mas por julgar-se incapaz de se colocar em posição superior apenas pelo tom de voz ou pelo cargo que ocupa. A entrega do ator é merecedora de destaque, uma vez que, prejudicada pela incapacidade de se manifestar adequadamente através de expressões faciais, em função da máscara que o aprisiona (parte do tosco trabalho da equipe de maquiadores), sua atuação é repleta de gestos e pequenos trejeitos, fundamentais para distinguir o funcionário prodígio do abatido senhor – repare na tosse e na respiração ofegante que o acompanham na velhice, em contraste com a imponência e segurança de seus discursos quando jovem.

Armie Hammer, por sua vez, parece funcionar como o jovem Clyde, um rapaz confiante e disposto a conquistar a confiança de Edgar. Com o passar dos anos, no entanto, torna-se uma figura caricata e absolutamente inexpressiva, em função das limitações impostas pelas atitudes intempestivas do protagonista e da péssima maquiagem, que o transforma em uma espécie de boneco de cera. No fim das contas, o Sr. Tolson em nada se parece com o enérgico homem de outrora, que, por ser tão distinto de Hoover, se estabelecia como elemento fundamental para a compreensão dos conflitos que o torturariam até a velhice.

Assim sendo, J. Edgar falha ao não se decidir com clareza entre o romance, a simples biografia de Hoover ou o registro histórico do FBI. Falha porque, buscando abarcar a tríade como um todo, sufoca elementos importantes da construção de seu personagem central, trata com vagueza e relega ao décimo plano questões a princípio importantes – tais como sua interação com a Srta. Gandy e o peso da figura de seu pai –, e torna o retrato em tela pouco conclusivo. Em síntese, desperta o interesse do espectador e suscita indagações que jamais chegam a ser respondidas completa e satisfatoriamente.

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J. Edgar (EUA, 2011). Drama. Warner Bros. Pictures
Direção: Clint Eastwood
Elenco: Leonardo DiCaprio, Armie Hammer
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