CRÍTICA | Jack Reacher: O Último Tiro

Ação
// 10/01/2013

Um ex-militar durão especialista em diversas formas de combate investiga uma trama que envolve vingança, conspiração e uma perseguição automobilística. Se a proposta não soa exatamente inovadora, a apresentação do novo trabalho de Tom Cruise busca trazer algo de novo para uma fórmula mais que saturada. Mas o nível de sucesso obtido nessa empreitada oscila ao longo do filme.

Jack Reacher – O Último Tiro
Por Gabriel Costa

Jack Reacher, o protagonista do romance policial One Shot, de Lee Child, é descrito no livro como um homem loiro com mais de dois metros de altura. As características físicas passam longe das do astro Tom Cruise, que interpreta o personagem em mais uma colaboração com o diretor e roteirista Christopher McQuarrie, com quem trabalhou em Operação Valquíria, e no ainda inédito All You Need Is Kill. Mas como qualquer um que já viu alguma adaptação cinematográfica de uma obra literária – ou seja, todo mundo – bem sabe, o mais importante é que a essência de um personagem seja mantida, não sua aparência literal. E não há dúvidas de que Cruise é um ator versátil. Quando quer.

A história adaptada por McQuarrie (vencedor do Oscar pelo roteiro do ótimo Os Suspeitos, de 1996) tem início com uma angustiante sequência de assassinatos em que um sniper elimina pessoas escolhidas aparentemente ao acaso de um estacionamento próximo a um estádio esportivo em Pittsburgh. As evidências encontradas pela polícia apontam para James Barr (Joseph Sikora), um ex-atirador de elite do exército americano. Barr, frente à pena de morte e sob interrogatório do detetive Emerson (David Oyelowo) e o promotor Alex Rodin (Richard Jenkins), diz que as autoridades devem encontrar o ex-oficial da polícia do exército Jack Reacher. O antigo conhecido do acusado, tem assuntos a tratar com o autor dos disparos e aparece por conta própria. Barr, após se envolver em uma briga com outros presidiários, está em coma. E Reacher, que também tem suas próprias teorias quanto ao que de fato pode ter acontecido, aceita investigar o caso em parceria com a advogada de defesa de Barr, Helen Rodin (Rosamund Pike), que, sim, é a filha do promotor vivido por Jenkins.

Reacher é um exímio investigador com amplo treinamento no uso de armas e lutas marciais. Mas também tem uma personalidade agressiva com pouquíssima paciência para interações sociais. O protagonista basicamente intimida as pessoas com ameaças de violência e insultos até constatar que há, de fato, uma conspiração por trás dos atos de Barr, e que os verdadeiros autores dos assassinatos estão tentando tirá-lo da investigação. A fotografia límpida do veterano Caleb Deschanel revela ainda revelações, traições, e a óbvia tensão sexual entre os personagens de Cruise e Pike na trilha até o cabeça do esquema, um misterioso ancião russo conhecido apenas como Zec. O vilão é vivido por ninguém menos que Werner Herzog, diretor do clássico O Enigma de Kaspar Hauser e do não tão clássico Vício Frenético, com Nicolas Cage. A trama inclui ainda mais um nome digno de destaque, Robert Duvall, que interpreta um dono de loja de armas chamado Cash.

O elenco como um todo não decepciona, ainda que a atuação extremamente fria e dramática de Herzog se aproxime perigosamente do caricato em alguns momentos. O problema é que já faz algum tempo que Cruise, em se tratando de filmes de ação, é basicamente Ethan Hunt – o agente secreto de Missão: Impossível – em tempo integral. Embora existam, são poucas as particularidades que diferenciam Reacher de personagens como os agentes Roy Miller, de Encontro Explosivo, John Anderton, de Minority Report ou o próprio Hunt. Enquanto a personalidade de Reacher é mais direta e inescrupulosa, os olhares intensos, frases de efeito irônicas e charme inabalável são os mesmos. A intenção parece ter sido apresentar a “versão Cruise” do impiedoso herói de ação moderno, no estilo de Jason Bourne, do Bryan Mills de Liam Neeson em Busca Implacável ou mesmo do James Bond de Daniel Craig. Mas a diferenciação apresentada, de fato, é pequena. Tanto que a sequência central do longa é uma eletrizante e clichê perseguição com batidas de carros e temerosas peripécias automobilísticas que têm o atrativo extra de terem sido desempenhadas de fato por Cruise, que dispensou o uso de dublês.

Em última análise, independentemente dos temas batidos, Jack Reacher – O Último Tiro equilibra bem investigação policial, ação, diálogos divertidos e um ritmo fluido. E, ainda que o resultado final possa não alcançar o sabor de novidade que parece almejar, um filme em que Tom Cruise mostra a alguns caras maus quem é que manda não deixa de ser uma premissa interessante o suficiente para, talvez, justificar o valor do ingresso.

—————————-

Jack Reacher (EUA, 2012). Ação/Policial. Paramount Pictures
Direção: Christopher McQuarrie
Elenco: Tom Cruise, Rosamund Pike, Werner Herzog, Robert Duvall

Comentários via Facebook
Categorias
Ação, Críticas