CRÍTICA: Jean Charles

Críticas
// 25/06/2009

Nesta sexta-feira chega aos cinemas a primeira parceria do cinema nacional com o britânico. Jean Charles conta a história real do brasileiro que foi morto no metrô londrino em 2005 ao ser confundido com terroristas. O caso, que teve repercurssão mundial, ainda está em andamento e os culpados ainda não foram detidos.

O longa ganha seu valor por mostrar um personagem real que, mesmo sob as lentes do cinema, não idealiza um mártir. Confira a crítica clicando em “Ver Completo”.


Jean Charles

por Cássia Ferreira

Não fosse o fim trágico, ninguém se preocuparia em saber, em junho de 2009, quem foi Jean Charles de Menezes. O mineiro da cidade de Gonzaga, que tem cerca de seis mil habitantes, no interior de Minas Gerias, foi morto pela polícia de Londres, na estação de metrô Stockwell, em 2005, suspeito de terrorismo. Se ele fosse só mais um dos emigrantes daquela região, hoje não estaríamos escrevendo sobre o filme, no qual Selton Melo interpreta o personagem principal.

É estranho ver um filme de final conhecido, mas com uma história sem desfecho, uma vez que até hoje os policiais acusados de atirar em Jean Charles pelas costas sequer foram indiciados. Essa é uma história de narrativa simples, sem muitos efeitos, mas carregada da natureza humana. Talvez seja simples porque é contata do ponto de vista de pessoas simples, numa metrópole tão distinta da cidade natal e que fascina. É puro sonho de gente simples.

O diretor Henrique Goldman conseguiu traduzir esse olhar “de fora” por ser um brasileiro radicado há mais de duas décadas em Londres. Um emigrante, como os personagens do longa. Essa perspectiva pode ser representada pelas tomadas aéreas da capital inglesa – talvez tenha sido um pouco do cosmopolitismo de Londres que matou Jean Charles… o cosmopolitismo que refina pessoas, mas lhes rouba, de certa forma, a alma… que tornou a alma cinza como o céu e rígida como o metal, a ponto de cegar a visão daqueles que julgaram Jean Charles um terrorista -, que vez ou outra, tomam conta da tela, como se quisesse nos lembrar que estão todos lá, mas que não fazem parte realmente daquele mundo. É o olhar da estranheza e do distanciamento, do sentimento de não pertencimento que toma conta da prima Vívian (Vanessa Giácomo), ao chegar à cidade.

Na sequência inicial, somos apresentados a um Jean Charles cheio de malandragem,que escapa um pouco da personalidade habitual de um mineiro de interior. “Ow véio, esses ingleses são burros demais.”, diz um brejeiro Jean Charles, ao conseguir fazer com que a prima tivesse liberado o visto de entrada. Ponto para o diretor, que também é roteirista da história, e para Selton Melo, que não caíram no erro de transformar o mineiro em santo, ou mártir, como fez a imprensa naquela época.

Ao mesmo tempo em que a história apresenta a vida desses emigrantes, suas lutas, seus desafios, seus desejos e sonhos, é feita uma contextualização de modo que lembremos qual era o cenário de Londres naquela época e que acabou sendo fundamental para o desfecho da história. Em julho de 2005, a capital da Inglaterra vivia amedrontada em razão dos ataques terroristas que mataram sete pessoas e deixaram mais de 700 feridas, no túnel entre as estações de metrô de Moorgate e Liverpool Streel.

Idealizado mesmo é somente o sonho que move os brasileiros. Jean Charles apresentado por Selton Melo, que fez questão de ressaltar ao longo da produção que não se tratava de uma recriação do verdadeiro Jean Charles, é um brasileiro destemido e cheio de determinação, que quer trabalhar, mas também conhecer o mundo e aproveitar dos benefícios do seu trabalho.

A presença do ator baiano Luís Miranda é garantia de boas risadas. Ele interpreta o também primo Alex. Outro momento divertido do longa é visto em um show do Sidney Magal, que só entra em palco depois que Jean Charles usa suas habilidades de eletricista para fazer funcionar o som do estabelecimento onde aconteceria o show. Na história real, Sidney Magal é, na verdade, Zeca Pagodinho, que não pôde participar das filmagens por conta da agenda.

Especialista em documentários, Goldman abandou o formato para contar uma história de ficção baseada em fatos reais. Tão reais que a outra prima de Jean Charles, Patrícia Armani, é vivida por ela própria. Caso semelhante acontece com o patrão Maurício, que é vivido por Maurício Varlotta.

Com estreia prevista para o dia 26 deste mês, Jean Charles, o filme, promete polemizar, já que não deixa de acusar a polícia de Londres pelo assassinato do brasileiro. Esta foi a primeira parceria cinematográfica realizada entre o Brasil e a Inglaterra. No início do projeto, o trabalho seria desenvolvido em conjunto com a emissora de televisão inglesa BBC, que abandonou a de cinco Oscars pelo longa “A Rainha”.

No próximo mês, serão completados quatro anos da morte de Jean Charles. Um ano depois do assassinato, o caso já havia perdido o interesse na Inglaterra. Em Gonzaga, flores, dor e tristeza lembravam a partida precoce de Jean Charles que teria hoje 31 anos. Nos cinemas a partir do dia 26 de junho essa será uma boa oportunidade de conhecer sem preconceitos o ponto de vista dos emigrantes tão humilhados, como a vida é cheia de sonhos e como somos obrigados a mudar constantemente.

nota_4

Jean Charles (2009, Brasil). Drama. Imagem Filmes.
Direção: Henrique Goldman.
Elenco: Vanessa Giácomo, Selton Mello e Sidney Magal.

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Críticas, Drama, Nacional