CRÍTICA | Jersey Boys: Em Busca da Música

Críticas
// 26/06/2014

Transportando a trajetória de Frankie Valli e The Four Seasons dos palcos da Broadway para as telonas do Cinema, Clint Eastwood dá sequência a uma fase morna de sua carreira com este Jersey Boys: Em Busca da Música, cinebiografia que tem um elenco afiado de desconhecidos como seu maior destaque.

Jersey Boys
por Eduardo Monteiro

Anonimato. Ascensão. Sucesso. Queda. Redenção. São esses os elementos fundamentais que, com pequenas variações, definem a estrutura da grande maioria das cinebiografias musicais – e essa recorrência é justamente o principal fator responsável pelo razoável desgaste do subgênero. Ser baseado em fatos reais ou apresentar uma história com altos e baixos expressivos não é mais suficiente para se produzir uma cinebiografia de respeito; é preciso algum diferencial, por menor que seja.

Baseado no livro musical de Marshall Brickman e Rick Elice e em sua respectiva adaptação teatral, Jersey Boys: Em Busca da Música consegue se safar graças, essencialmente, às boas atuações do elenco e à forma como alguns dos dramas e conflitos dos personagens são trabalhados. Abrangendo um período que vai do início da década de 50 e culmina na chegada dos anos 90, o filme apresenta a trajetória do quarteto que, antes jovens delinquentes e músicos amadores, são alçados à fama quase uma década após se unirem como um grupo pela primeira vez. Igualmente veloz, porém, é a eventual ruína da The Four Seasons, motivada tanto por desentendimentos entre os integrantes quanto por uma dívida graúda com mafiosos acumulada por um deles.

Dirigido pelo cineasta veterano Clint Eastwood, Jersey Boys importa alguns elementos evidentes do espetáculo teatral: com exceção do vibrante número musical que encerra o longa, a influência que mais chama atenção é a narração, que promove a quebra da quarta parede ao exibir os próprios personagens se dirigindo ao público para acrescentar informações implícitas ou omissas. Embora cause certa estranheza (inofensiva, no final das contas), as mudanças de narradores que ocorrem ao longo da narrativa acabam refletindo a natureza de cada etapa da trajetória (o narrador da fase mais imatura e inconsequente do grupo, por exemplo, é justamente o integrante que compartilha dessas características) – e, para completar, há uma certa beleza na participação de Fankie Valli (John Lloyd Young) neste rodízio, já que o vocalista principal do conjunto é o último a assumir a função e não chega a dirigir palavras ao público, embora os olhares que lança para a câmera em dois momentos emblemáticos do terceiro ato narrem com eficiência emoções que não precisam ser verbalizadas ou explicitadas.

As atuações, vale reforçar, são o principal mérito do projeto: vencedor do Tony Award pela performance no espetáculo teatral em sua formação original, John Lloyd Young assume o comando do elenco com a segurança esperada de alguém que já reprisou o papel dezenas de vezes no palco e encarna com talento as distintas fases do personagem, mesmo sendo obrigado a, no auge dos seus trinta e tantos anos de idade, assumir também a versão adolescente de Valli. Já o estreante Michael Lomenda, no papel de Nick Massi, surge como o único elo fraco do quarteto principal, ao passo que Erich Bergen representa com competência a evolução e o amadurecimento do centrado compositor Bob Gaudio. Por fim, Vincent Piazza transforma Tommy DeVito em um sujeito instável, explosivo e naturalmente autodestrutivo, enquanto o veterano Christopher Walken rouba todas as cenas de que participa como o curiosamente divertido mafioso Gyp DeCarlo.

O roteiro, por outro lado, não merece muitos elogios. Embora mereça reconhecimento por plantar certas pistas a serem retomadas em momentos posteriores oportunos (como o hábito de DeVito de urinar na pia, que é apresentado discretamente ao público muito antes de se tornar uma queixa de um dos companheiros), o texto acaba se rendendo à convenção de transformar as ideias originárias de grandes hits ou até mesmo a escolha do nome The Four Seasons em pequenas epifanias, o que provavelmente não deve ter acontecido na prática. Para completar, a maquiagem utilizada para envelhecer os personagens em determinada passagem é bastante irregular: o trabalho feito em Vincent Piazza, por exemplo, é muitíssimo mais eficiente do que o executado em John Lloyd Young.

Contando ainda com um estranho, aparente e isolado impulso narcisista de Clint Eastwood (um televisor exibindo uma cena do seriado Rawhide, estrelado pelo cineasta, pode ser visto em determinado momento), Jersey Boys: Em Busca da Música é uma produção bastante… aceitável – e este definitivamente não é o melhor elogio que um filme pode receber.

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Jersey Boys (EUA, 2014). Musical.
Direção: Clint Eastwood
Elenco: John Lloyd Young, Vincent Piazza, Erich Bergen, Michael Lomenda, Mike Doyle e Christopher Walken.

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Críticas, Musicais