CRÍTICA | João e Maria: Caçadores de Bruxas

Ação
// 24/01/2013

Bem diferente do corre corre e tiroteio que os trailers podem sugerir, João e Maria: Caçadores de Bruxas é mais do que isso. Não que isso seja uma boa notícia. Apesar de bem sanguinolento e até ter um pouquinho, bem pouquinho de nudez (um pacote completo que já deixa bem estranho o lançamento no Brasil ganhar classificação livre), o filme é uma enxurrada de má elaboração técnica.

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João e Maria: Caçadores de Bruxas
por Arthur Melo 

João e Maria: Caçadores de Bruxas não poderia começar mais previsível. Sabendo-se de que o longa contaria a vida adulta dos irmãos que quando crianças foram atraídos para uma casa feita de doces para serem devorados por uma bruxa, era de se supor que toda o conto que já conhecemos fosse repassado de uma só vez na cena de abertura do longa. E o filme não fez a menor questão de imaginar alguma ideia mais criativa para não causar a primeira má impressão nos primeiros cinco minutos.

A bem da verdade é que a ação, com toques de fantasia e aventura, é bem diferente da imagem que a produção possa ter passado em seu trabalho de divulgação. E isso, felizmente, é um algo positivo. O contraponto da balança está naquilo que não seria surpresa, aqueles elementos que deveriam constar para se contar uma trama que envolva bruxas e feitiçaria. Todos eles estão lá. Mas mal construídos.

O desgosto evolui ao mesmo passo da narrativa. E isso se dá pela inexpressividade da produção como um todo. De fato, a ideia de duas pessoas utilizarem artilharia pesada para caçar bruxas é atraente. Mas toda a proposta perde o brilho unicamente por conta da técnica mal composta; em praticamente todos os aspectos. A fotografia é básica. Em cenas noturnas em interiores, apela para a divisão vertical de tons frios escurecidos com o iluminar de poucas velas que propõem um enorme clarão alaranjado, o que revela uma preguiça para compor um visual mais aprumado. A direção de arte se limita à repetição do básico para compor um espaço de época, assim como os figurinos que em nada acrescentam aos personagens ou sua evolução ao longo da fita. E a mecânica dos voos de vassouras, em que a realização nas filmagens achou que seria interessante que as bruxas flutuassem por mais alguns metros penduradas em cabos de aço mesmo após desmontarem dos objetos, passa uma sensação extremamente artificial e amadora. Se somar isso aos efeitos visuais e sonoros do uso das varinhas, dá para se verter lágrimas de vergonha ao se comparar com o que foi feito por uma década em Harry Potter.

Nem quando está acertando o faz por completo. O design das bruxas pode ser interessante algumas vezes, mas extremamente mal executado quando até na escolha da coloração das lentes de contato deu para tropeçar. Isso sem mencionar a aplicação de próteses e produtos que gritam, por exemplo, que o que estamos vendo no rosto da bruxa de cabelo espetado, em um close feito na floresta, é uma aplicação em excesso de cores da mesma maquiagem que qualquer mulher deve ter na bolsa. Para terminar de estragar, as lutas corporais não convencem. Pode até ser um argumento verdadeiro o de que, na trama, as bruxas, por conta de seus poderes, possuem uma força ligeiramente maior do que a dos humanos. Mas não é o que o visual da grande maioria delas demonstra, tornando graficamente esquisito um embate com movimentos rápidos e certeiros entre elas e os heróis da trama – acrescentando mais usos dos cabos de aço para saltos cujo ângulo e trajetória não casam; bastante risíveis. Ao menos não há economia de violência. Tanques de sangue são derramados ao longo do filme em cenas em que membros arrancados e corpos humanos se explodindo são nítidos e bem enquadrados.

A outra salvação do longa é o personagem de Maria. Da cena pré-créditos e passando por todo o desenrolar da história, Maria é a figura durona da trama e Gemma Arterton. Suas frases de efeito e respostas físicas são as mais interessantes e chegam ao ápice ao formar uma amizade improvável com um ser cujo nome é ainda mais improvável, mas uma piada pronta que remodula comicamente todo diálogo travado entre os dois. Por outro lado, o romance entre João e Mina já não surge com uma postura tão fluente quanto a amizade formada por Maria. Uma vez que os protagonistas são um casal de irmãos, o que torna o desenvolvimento amoroso impossível, Mina surge como uma figura forçada inserida apenas com o pretexto de fornecer alguma informação útil ao final, mesmo que sua participação pudesse ser descartada e substituída por algo tão mais interessante quanto o amigo de Maria e, as respostas, vindas através de outro meio.

Não é o proposto pelo filme que tira severos pontos da contagem de João e Maria: Caçadores de Bruxas, mas a sua realização. Com um orçamento de apenas 60 milhões de dólares – baixo para o tipo de produção que se quer realizar – o longa sofre consigo mesmo e com comparações de outras histórias populares que recentemente foram readaptadas com um tom mais maduro nos cinemas. Sejam elas feitas com o deleite estético de Branca de Neve e o Caçador (que até rendeu ao filme duas indicações em categorias de valor visual ao filme), seja com A Garota de Capa Vermelha, cuja mediocridade caminha de mãos dadas pela floresta com João e Maria.

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Hansel & Gretel – Witch Hunters (EUA, 2013). Ação. Aventura. Fantasia. Paramount Pictures.
Direção: Tommy Wircola
Elenco: Gemma Arterton, Jeremy Renner, Peter Stormare.

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