CRÍTICA | Jogador Número 1

Aventura
// 28/03/2018

O cineasta responsável por alguns dos maiores e melhores filmes de aventura e ficção científica em todos os tempos retorna com uma homenagem irresistível a um meio que hoje está longe das emulações minimalistas de jogos de pingue pongue onde surgiu, e já rivaliza em potencial narrativo com o próprio cinema: o videogame. Enquanto a trama de Jogador Nº 1 é cativante, mas também decepcionantemente rasa, o longa mais que compensa a ausência de inovação narrativa com sequências de ação alucinantes e, em uma era obcecada por universos compartilhados, uma série de encontros inacreditáveis entre medalhões cult e personagens e ambientações clássicas da cultura pop do cada vez mais longínquo século XX e das primeiras duas décadas de seu sucessor.

O filme passa a sensação de ter surgido a partir da pergunta de um bilhão de dólares da indústria do entretenimento mundial: em um contexto de cultura de massa altamente direcionado por monolíticas entidades corporativas, voltadas para a expansão e manutenção de ambientações já familiares nos quais o público pode se embrenhar continuamente por anos a fio sem precisar se expor a reais novidades temáticas e conceituais, como é possível apresentar uma história nova que dialogue com interesses atuais dos jovens, ainda que por um prisma predominantemente nostálgico?

A resposta do lendário Steven Spielberg a essa questão é engenhosamente simples: é só entupir o negócio de referências incríveis a esses mesmos universos que compõem o saturado mosaico cultural das últimas décadas. Para isso, o diretor parte do futuro distópico descrito no livro de mesmo nome de Ernest Cline, lançado em 2011 e ambientado em 2045, quando grande parcela da humanidade passa boa parte do tempo na realidade virtual conhecida como OASIS, que funciona tanto como plataforma para jogos multiplayer online em escala global quanto como uma verdadeira sociedade alternativa à do mundo real, onde os usuários podem assumir qualquer identidade que queiram, humana, animal, imaginária ou qualquer combinação dos três, incluindo muitas caras, focinhos, equipamentos e veículos quase universalmente reconhecíveis – produto de um esforço hercúleo de obtenção de direitos autorais por parte da Warner Bros.

Um exemplo disso, cujo olhar é nossa janela para o mundo apresentado, é o adolescente Wade Watts (Tye Sherridan, o Ciclope de X-Men: Apocalipse, e uma espécie de Miles Teller com desconto) que compete virtualmente, sob o nome Parzival, contra centenas de outros jogadores e os representantes de uma corporação tecnológica, a IOI, por certos itens escondidos pelo falecido criador do OASIS, James Halliday (Mark Rylance). A posse desses itens, e a resolução dos enigmas correspondentes propostos, dão acesso ao controle do OASIS e à trilionária fortuna de Halliday. Nessa busca, Watts conta com a ajuda de sua crush digital, Art3mis (Olivia Cooke), e de seus parceiros de jogo Aech, Daito e Sho, e enfrenta a oposição do presidente da IOI, Nolan Sorrento (Ben Mendelsohn), que por sua vez é auxiliado, além do exército de facínoras anônimos sob seu comando, pela implacável F’Nale (Hannah John-Kamen), no mundo real, e pelo irascível i-R0k (o constantemente hilário T. J. Miller), no virtual.

Entre sequências eletrizantes de corrida, ação – a tipicamente massiva batalha final é nada menos que histórica – e até dança, o arco do romance entre Watts/Parsival e Samantha/Art3mis é constrangedoramente ingênuo, e, quando as identidades de Sho, Daito e Aech no mundo real de 2045 são reveladas, o filme deixa de aproveitar uma interessante chance de subverter a fórmula rasa do relacionamento dos protagonistas. E, mesmo com todas as situações espetacularmente irreais apresentadas o tempo todo na tela, é particularmente difícil acreditar que uma corporação maquiavélica quanto a IOI iria simplesmente se submeter ao processo de jogar o game para assumir o controle do OASIS. Nada disso tira, porém, a majestade das muitas surpresas e homenagens realizadas, tão memoráveis que, acredite, não foi nada fácil não spoilar algumas delas ao longo desse texto.


Ready Player One (EUA 2018). Aventura / Ficção Científica. Warner Bros. / Amblin Entertainment.
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, Lena Waithe, T.J. Miller, Mark Rylance, Simon Pegg.

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