CRÍTICA | Jogos Vorazes: Em Chamas

Ação
// 18/11/2013
jogos-vorazes-em-chamas

Desde um relativo tempo, somos obrigados a ouvir que toda nova franquia baseada em uma obra para leitores jovens adultos é o “novo Harry Potter”. E, hoje, ainda temos de aturar os chamados “novos Crepúsculo”. A bem da verdade é que, até então, nenhuma produção que tenha se empenhado para isso se mostrou capaz de unir as duas plateias e nem de demonstrar um mínimo de qualidade para alcançar a franquia da Warner Bros baseada nos contos de J.K. Rowling. Até agora. Jogos Vorazes certamente não vai substituir qualquer um dos dois. Mas prova com Em Chamas que segue firme e forte para ser lembrado ao lado deles pelos fãs.

Não dá para ser inocente e não prever que, quando se tratando de franquias cinematográficas, o próximo longa sempre será estruturalmente maior caso o original tenha dado um resultado bastante lucrativo. O que não dá para adivinhar, no entanto, é se o segundo filme trará os mesmos conceitos e qualidades do antecessor que garantiram a sua então produção. Jogos Vorazes: Em Chamas imediatamente expõe em seu panorama um crescimento quando comparado à empreitada inicial de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence).

Não há dúvidas de que a obra original, escrita por Suzanne Collins, possui a narrativa mais bem amarrada dentre todos os livros que compõem a trilogia Jogos Vorazes – e, para muitos, serve como o título mais atraente da série. Também não há muito o que se questionar, no entanto, quando observado o fato de que a trama geral, apesar de se desenvolver muito bem e delinear com clareza os aspectos e funções de seus personagens, não é lá um grito de originalidade, seja nas suas ideias, seja no seu perfil literário. Contudo, é preciso apontar que quando o assunto é explorar o argumento da obra (que não é o romance entre os personagens) Collins se sai muito bem. E é exatamente esse ponto máximo de seu trabalho que poderia se perder na transposição de linguagens literatura/cinema, ainda mais considerando os trejeitos megalomaníacos dos blockbusters norte-americanos. Por sorte e competência, não é o que se dá no novo Jogos Vorazes.

Em Chamas pode ser facilmente identificado como a história com o maior teor de politicagem dentro da narrativa da série. Os eventos fora da arena possuem tanto significado quanto o que é televisionado para os habitantes de Panem, algo que não estava presente no primeiro capítulo. O bom trabalho da concepção do roteiro se enxerga, assim, quando ele se atém às passagens cruciais para que a evolução da série se faça a partir da revolução que Em Chamas representa para Jogos Vorazes – em comparação, são dois longas extremamente discrepantes. O então romance dos protagonistas, que antes simbolizava uma luta pela sobrevivência, agora se apresenta como um deslize que tanto pode causar o início de uma guerra como determinar o seu fim. Uma tomada que expande o campo de visão que se limitava a dois adolescentes tentando permanecer de pé em meio a uma carnificina para uma encenação coletiva que mescla os interesses de diferentes pontos de controle de um Estado.

Bem ou mal, vistos todos os elementos do livro Em Chamas, o seu respectivo filme poderia muito bem diminuir a importância da manipulação que oculta uma gestão de governo má arquitetada e oportunista para focar suas lentes no embate entre os Campeões dos Distritos ou em um relacionamento amoroso que, por fim, seria tão forçado em tela quanto é, de fato, dentro da própria história. Indo contra a previsibilidade, tanto os acontecimentos pré-arena quanto os 75ºs Jogos Vorazes decidem em igual potência o futuro dos personagens. Não é à toa que a exibição ao vivo dos tributos em rede nacional se porta como um clímax de tudo o que antecede o Massacre Quaternário na história, pois há a necessidade de pontuar o seu peso sobre a mesma. Nessa linha, fica a verdade de que, agora, os Jogos duram em tela bem menos do que no primeiro filme e quase se equiparam às preliminares na sua duração. Compensa-se, entretanto, na intensidade e na qualidade.

A arena em forma de domo com a cornucópia no meio se transforma em um personagem tão vivo quanto os tributos que se digladiam, proporcionando boas sequências de ação. O embate corporal e o uso dos armamentos agora já não se escondem timidamente por uma câmera lenta que busca minimizar o caráter violento que a situação do campo de batalha cobra. Os efeitos visuais e a edição de som estão anos-luz à frente da primeira parte – a cena do relógio girando sobre a água e dos pássaros tagarelas são bons exemplos do uso da computação e de uma adequada mixagem de som. Somado pela fotografia e os bons níveis alcançados por ela (especialmente na versão em IMAX, cujo formato permanece por toda a duração dos Jogos Vorazes dentro do filme – um espanto elogiável), é compreensível o autolouvor indireto e quase metalinguístico que a produção do longa se faz através da fala de Effie quando diz que “esses jogos serão diferentes, a Capital investiu muito mais dinheiro do que antes”.

Não por excesso de acertos, mas talvez por carência de tropeços, Jogos Vorazes: Em Chamas alcança uma pontuação tão alta em uma avaliação generalizada. A técnica se faz suficiente, o roteiro desenrola sua trajetória com firmeza e as atuações entregam mais do que o que se pode esperar em um filme do gênero – afinal, estamos falando de Jennifer Lawrence em sua melhor forma. Mas ainda falta ser ocupada a lacuna das sutilezas, aquela das minúcias que contribuem para que um valor real e cinematográfico seja proposto por um longa. Situações como uma mera conversa entre o Presidente Snow (Donald Sutherland) e Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman) na saleta de operações, na qual a câmera não perde o foco em Heavensbee e afirma que o controle da situação está em suas mãos mesmo observada a alta posição de Snow no Estado vigente, são raros acasos. E, a julgar pela direção de Francis Lawrence, a previsão é a de que esse avanço dificilmente surja nos próximos filmes. Talvez esteja claro que Lawrence, no posto de diretor, também tenha os seus “mentores” que lhe conduzam ao acerto. E que, possivelmente, seja um bom momento para alguém se voluntariar em seu lugar e oferecer um tributo que, após a apresentação à plateia, receba uma nota ainda maior.

——————————————

The Hunger Games: Catching Fire (EUA, 2013). Ação. Lionsgate.
Direção: Francis Lawrence
Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Philip Seymour Hoffman, Woody Harrelson e Stanley Tucci

Comentários via Facebook
Categorias
Ação, Críticas