CRÍTICA: John Carter

Aventura
// 08/03/2012

Baseado na obra do escritor Edgar Rice Burroughs, criador do Tarzan, John Carter – Entre Dois Mundos é um épico para todas as idades que, embora tenha Marte como cenário, cabe melhor no gênero de fantasia do que no da ficção científica. Não faltam personagens carismáticos e sequências visualmente impressionantes, mas o excesso de idas e vindas do enredo, aliado à duração de mais de duas horas, pode tornar a experiência um pouco cansativa.

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John Carter – Entre Dois Mundos
Por Gabriel Costa

Desde o anúncio de sua produção, John Carter – Entre Dois Mundos foi alvo de comparações a duas obras que, ironicamente, buscaram certa dose de inspiração nos livros originais de Burroughs, lançados no início do século 20: a saga Star Wars e Avatar de James Cameron. O filme dirigido por Andrew Stanton, de Wall-E, certamente tem muito em comum com a narrativa de ambos – especialmente a space opera de George Lucas –, mas, com uma trama apoiada em elementos como viagens astrais, navios voadores, criaturas semi-oniscientes e uma princesa-guerreira, também não fica tão distante, por exemplo, do universo apresentado na série d’As Crônicas de Nárnia.

O personagem-título, interpretado por Taylor Kitsch (o Gambit de X-Men Origens: Wolverine), é um oficial durante a Guerra Civil Americana que, desiludido com o conflito, busca no deserto o tesouro descrito em uma lenda indígena para construir uma vida tranquila longe das infindáveis disputas humanas. Encurralado entre o exército que o persegue pela deserção e os ferozes apaches, Carter buscar refúgio em uma caverna onde aparentemente encontra seu objetivo. Um encontro inesperado, contudo, acaba por transportá-lo para uma estranha terra onde ele, a princípio, mal consegue se movimentar, tamanha a altura dos saltos que executa ao tentar dar um simples passo. A força sobre-humana – e também “sobre-alienígena” – do protagonista deve-se à menor gravidade de Marte, equivalente a cerca de um terço da exercida pelo nosso planeta. Cabe ressaltar que essa é praticamente a única parte da trama que realmente lida com alguma explicação científica.

Em Marte  ou Barsoom, como o planeta é chamado por seus habitantes –, Carter se envolve com os Tharks, criaturas verdes de quatro braços que vivem à margem da guerra entre duas facções humanoides. O terráqueo se torna um misto de protegido e escravo do líder dos Tharks, Tars Tarkas – personagem animado com movimentos, expressões e voz de Willem Dafoe –, e termina, é claro, por se envolver no conflito. A situação é crítica para os humanoides habitantes da cidade de Helium, uma vez que o líder dos adversários, Sab Than (na atuação de Dominic West, de 300 e da série The Wire), é portador de uma terrível nova arma. A única alternativa para o impasse parece ser o casamento da princesa de Helium, Dejah Thoris (Lynn Collins) com Than. Mas um certo forasteiro superpoderoso pode mudar os rumos da situação cuidadosamente arquitetada pelos Therns, a raça mais poderosa da superlotada trama, liderada por Matai Shang (Mark Strong, o vilão do primeiro Sherlock Holmes).

O grande número de personagens, raças e motivações não chega a prejudicar o entendimento do enredo, que, no fim das contas, segue uma estrutura clássica no(s) gênero(s) em que se encaixa, ainda que não esteja livre de inconsistências. O grande problema, na verdade, é a falta de concisão por parte de Stanton. O diretor poderia ter “enxugado” alguns momentos redundantes do desenvolvimento da história que falham em balancear o ritmo entre as cenas competentemente construídas de batalhas em grande escala. Os confrontos, aliás, são os momentos em que os recursos 3D são melhor aproveitados, enquanto nas sequências passadas na Terra tais recursos praticamente não aparecem. Já os efeitos visuais propriamente ditos servem bem às sequências, mas não vão além do que já foi feito em produções anteriores.

Kitsch compõe um protagonista carismático, divertido e mesmo crível, dentro de um padrão heroico. Collins e West, por outro lado, exageram nas caras e bocas ao ponto de gerar irritação. Na pele do verdadeiro grande vilão do filme, Strong mantém a consistência da atuação mesmo em alguns dos diálogos mais forçados e mal explicados do filme. Menos pretensiosos, os grandalhões Tharks acabam sendo a raça mais interessante entre as retratadas, e trazem ainda outras figuras relevantes como o rival durão de Tars, Tal Hajus (também interpretado por um antagonista da trilogia do Homem-Aranha de Sam Raimi, Thomas Haden Church) e a desastrada “mãe adotiva” de Carter, Sola (Samantha Morton).

A verdadeira salada de referências, do início com atmosfera de faroeste à viagem interplanetária, passando pelo conto de fadas, culmina em uma aventura saborosa, embora de digestão algo trabalhosa. É interessante levar em conta que a primeira adaptação digna de uma obra pioneira chega às telas depois de dezenas de produções influenciadas pelo trabalho original. Esse paradoxo, contudo, é melhor discutido fora da sala de exibição. Lá dentro, pelo menos nesse caso, basta o entretenimento.

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John Carter (EUA, 2012) Fantasia/Aventura/Ficção Científica. Walt Disney Pictures
Direção: Andrew Stanton
Elenco: Taylor Kitsch, Willem Dafoe, Lynn Collins, Mark Strong
Trailer
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