CRÍTICA | John Wick 2: Um Novo Dia para Matar

Ação
// 15/02/2017
john wick 2

Dotada de um promissor universo particular e uma inteligente colagem de referências narrativas que inclui animes e o cinema de ação japonês, filmes noir, videogames e quadrinhos, a (agora) franquia John Wick pode ser considerada uma dádiva para Keanu Reeves. Mais ou menos como aconteceu com Liam Neeson em Busca Implacável, um filme aparentemente despretensioso sobre um especialista aposentado em, digamos, soluções violentas, que é forçado a voltar à ativa – e dessa(s) vez(es) é pessoal – atingiu em cheio os anseios de público e crítica e injetou novo fôlego na carreira do astro em questão. E, naturalmente, lá vem a indústria providenciar as inevitáveis sequências.

A partir do roteiro original do desconhecido Derek Kolstad e sob a batuta dos então diretores iniciantes David Leitch e Chad Stahelski, que foi dublê de Brandon Lee em O Corvo e do próprio Reeves em Matrix, o primeiro filme narrou a vingança do ex-assassino homônimo após gângsters do leste europeu roubarem seu carro e matarem seu cachorro, que havia sido o último presente da esposa falecida de Wick. Um Novo Dia Para Matar, na direção agora solo de Stahelski, segue a cartilha de continuação imediata, ou seja, tem início quase imediatamente após os eventos mostrados na obra original – ainda que Wick pareça ter tido tempo para um corte de cabelo desde então.

A sequência inicial conecta os dois longas, além de proporcionar uma dose imediata de ação e ainda situar eventuais espectadores desavisados. Em seguida, mergulhamos na trama própria da continuação e descobrimos que, para abandonar a vida no crime, John Wick foi obrigado a assumir uma “promissória” junto ao ardiloso Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio). E, após ouvir sobre as últimas proezas do assassino conhecido como Baba Yaga, ou Bicho Papão, entre seus semelhantes, Santino resolve cobrar a tal promessa de pagamento – em sangue. A missão leva Wick a Roma, onde acontecem os melhores momentos do filme, incluindo uma cena surpreendentemente terrível, bela e angustiante que envolve a irmã de Santino, Gianna D’Antonio (Claudia Gerini) e coloca em evidência a afiada fotografia de Dan Laustsen.

Um Novo Dia Para Matar, como toda continuação que se preze, busca levar os pontos fortes do original a novos patamares – e ocasionalmente perde a mão. Temos uma visão mais aprofundada de como funciona o interessante submundo/sociedade secreta internacional de assassinos e criminosos, e o humor latente, bem como os elementos característicos dos quadrinhos e filmes de ação dos anos 80, são elevados ao quadrado, o que é exemplificado na impagável sequência de aquisição de armas de Wick com o Sommelier interpretado por Peter Serafinowicz. E, por contraditório isso possa soar, tendo em vista o gênero que ocupa, o filme até sofre por ter ação demais.

Explico: as muitas sequências de combate são, com breves exceções e eventuais forçações de barra, espetacularmente coreografadas e montadas. O problema é que a trama do filme poderia facilmente partir diretamente do gancho inicial para o que é prometido no final, o que faz com que boa parte das idas e vindas, após a ação em Roma, tenham um desconfortável aroma de encheção de linguiça, em grande parte na forma de tiroteios e mais tiroteios. Assim, a história que evidentemente poderia ser, já aqui, a conclusão da saga de John Wick, é estufada de forma a abrir caminho para o iminente terceiro filme. Afinal, o que seria da Hollywood atual sem espremer até a última gota o que quer que tenha de material popular para transformar em mais uma franquia com retornos progressivamente menores?


John Wick: Chapter 2 (EUA, 2017). Ação. Summit Entertainment / Thunder Road Pictures.
Direção: Chad Stahelski
Elenco: Keanu Reeves, Ian McShane, Laurence Fishburne, Riccardo Scamarcio, Ruby Rose, Lance Reddick, John Leguizamo.

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