CRÍTICA: Jumper

Ação
// 24/03/2008

Em alguns momentos de falta de criatividade, Hollywood decide explorar terras já antes descobertas e senão muito devastadas. Esse é o infeliz caso de Jumper. Tentando evidenciar um gênero em baixa no atual momento do mercado, o produtor Simon Kinberg nos deu apenas mais um motivo para engavetarmos por mais algum tempo e esquecer o estilo em questão até a próxima empreitada.

Jumper
por Arthur Melo

Hayden Christensen vive um jumper (ou saltador); alguém com capacidade de se teleportar para qualquer lugar do planeta a qualquer momento. Alimentando seu ego com dinheiro e luxo provenientes de seus inúmeros “arrombamentos” de cofres, David (seu personagem) se vê enrascado quando dá de cara com uma equipe especializada em caçar indivíduos com sua habilidade. A princípio, parece ser apenas uma insinuação de um filme de ação comum, sem grandes ordens. No entanto, Jumper apresenta-se pior do que a encomenda.

Apesar da originalidade da idéia, o roteiro é uma sucessão de falhas em progressão aritmética que desemboca numa P.G. de alta complexidade. Não há formulação de personagens, enredo ou conclusões, e sim uma exibição de fatos e ações em seqüência que comandam o filme no piloto automático, ora que o diretor parece ter “saltado” do posto – com o perdão da piada. Doug Liman, que outrora havia se responsabilizado pelo então sucesso , simplesmente esquece a técnica, o apuro e o tato para cenas de ação que ele tanto se mostrou eficaz em seu atecessor do gênero.

O que mais encomoda no longa talvez não esteja na péssima coordenação das cenas de ação ou na ausência de boas tomadas, está no que ele pede para que se acredite. A trama é mal articulada e em nenhum momento houve a preocupação de fixar na mente do espectador qual o motivo que leva a aceitar a presença do protagonista. Sua personalidade é lamentável, prepotente, arrogante e enojadora. O ápice da complicação reside no fato de não se esclarecer quem é o vilão e quem é o mocinho através de conceitos, até porque, oficialmente, não há – é tudo funcional, cada qual desempenhando uma célula. Existe, de fato, uma tomada de valores de cada personagem. Valores estes que se misturam os certos e errados, onde devemos entender (aceitar ainda seria o verbo mais qualificado) que se escolhermos sentar na arquibancada da torcida de David, é porque este detém em sua bagagem psicológica um maior número de bons costumes em relação aos ruins. Afinal, os paladinos (organização que funciona como vilã do filme) é tão mediocrilmente desenvolvida como todo o resto. Sua origem, fundamentos, conceitos e objetivos são omitidos. Onipresente é apenas sua força brutal e manipuladora que, ao olhar clínico dos produtores, é o suficiente para entendermos sua participação na história.

Antes tivesse parado por aí. O que muito se vê neste tipo de filme são os furos no roteiro. Mas Jumper inova, vai além. Comete mais pecados que muitos de seus antecessores e provavelmente sucessores. Os efeitos visuais são fracos, atingindo o apogeu unicamente nos impactantes momentos de teleporte. Os enquadramentos são equivocados e a única ressalva de vida está no criterioso editor Saar Klein, que conserta alguns estragos promovidos pela direção; cortando seqüências na linha certa e somando sempre à câmera exata. A trilha sonora do excelente John Powell (quando anexado ao estilo certo) soa confortavelmente, mas surge em alguns momentos inoportunos. Até mesmo a jovem Rachel Bilson, que prometia ser uma âncora para o filme, decepciona ao não saber relacionar sua personagem ao proposto pela mais jovem e talentosa AnaSophia Robb; um dos poucos méritos do filme em seus primeiros e únicos bons momentos de projeção.

Não é de hoje que bons diretores e péssimos produtores se juntam para dar algum progresso a um trabalho ruim, mas poucas vezes o estrago ganhou essas proporções; principalmente devido à inexplicável queda no padrão qualitativo de Doug Liman, por mais tímido que este seja. Mais controverso que o filme em sí são os projetos futuros para o mesmo. Com baixa bilheteria e fraco tino cinematográfico, a produção já pensa em continuações. Na primeira, por ora, os jumpers serão capazes de se teleportar através do universo; entre planetas e asteróides. Tão convincente quanto, só mesmo o fabuloso final imoral do longa original.

Jumper (EUA, 2008). Ficção-Científica. Ação. 20th Century Fox.
Direção: Doug Liman
Elenco: AnnaSophia Robb, Hayden Christensen, Samuel L. Jackson, Rachel Bilson

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