CRÍTICA | Karatê Kid – A Hora da Verdade

Ação
// 21/08/2010
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Vencedor do Oscar de Melhor Direção em 1976 por Rocky, primeiro filme da série estrelada por Sylvester Stallone, John G. Avildsen parecia ter se especializado em lançar histórias de superação quando, oito anos depois, decidiu lançar Karatê Kid. As luvas de boxe foram trocadas por um quimono e a sabedoria oriental tomou o lugar antes ocupado pelo sotaque italiano de Rocky Balboa – também devidamente substituído por um protagonista anos mais jovem.

Paradoxos como os citados acima podem ser facilmente estabelecidos entre as duas produções. No entanto, Karatê Kid não deve ser tratado como um filme menor, um subproduto imaginativo de um diretor apaixonado por lutas, pois mira – e acerta – em pontos distintos daqueles abarcados por Rocky. A mudança de foco e abordagem deve-se, em primeiro lugar, às características primárias dos personagens em cena. Daniel Larusso (Ralph Macchio) é um jovem que acompanha sua mãe em uma mudança de Nova Jersey para Los Angeles. Ali (a bela Elisabeth Shue) é uma líder de torcida rica que se encanta por Daniel imediatamente após conhecê-lo. Sr. Miyagi (Noriyuki “Pat” Morita, indicado ao Oscar pelo papel) é um velho faz-tudo que se torna amigo de Daniel e passa a instruí-lo para que ele se defenda daqueles que o causam problemas. Os três personagens centrais são, portanto, fundamentalmente diferentes do personagem-título de Rocky, da jovem Adrian e do treinador Mickey.

Em segundo lugar, as motivações que levam Daniel a lutar também são distintas. O garoto passa a ser perseguido pelos valentões da escola quando começa a namorar Ali, causando ciúme em seu ex-namorado – justamente o mais brigão do grupo. Em seguida, se inscreve em um torneio de artes marciais (de que todos os garotos participarão) e passa a receber lições do Sr. Miyagi acerca das técnicas e da filosofia do karatê. Nesse momento surge o principal elemento da trama: não o combate, em si, mas a relação de aprendizado – e, sobretudo, de amizade – entre o mestre e seu aprendiz. A interpretação de “Pat” Morita é serena, e conta com a ajuda de um roteiro (escrito por Robert Mark Kamen) que deixa poucas brechas: todas as suas frases – em maioria, ensinamentos valiosos – são precisamente inseridas na trama, de modo que jamais aparecem soltas ou desconexas. Ralph Macchio, por sua vez, é diferente do estereótipo de galã-mirim do cinema e, talvez por isso, tem grande sucesso em sua interpretação: ele é magro, alto (mas não tem porte de cavalheiro) e enérgico, elétrico.

Com relação aos duelos propriamente ditos, esses são utilizados como pano de fundo para se contar uma história maior, mas conferem grande qualidade à produção, inclusive nos aspectos técnicos. A câmera parece fluir com impressionante naturalidade, os enquadramentos ficam sempre próximos de Daniel e há poucos cortes durante os golpes desferidos por ele, o que favorece a sensação de imersão no combate, fazendo com que o espectador se sinta, de fato, parte do que acontece em tela.

Embora carregue consigo algumas falhas, tais quais vilões extremamente estereotipados e caricatos e uma trilha sonora irregular, inapropriada em alguns momentos cruciais (como aqueles em que um leve instrumental é substituído abruptamente por uma batida pop-rock extravagante), Karatê Kid foi um sucesso estrondoso em seu lançamento, muito por encantar até mesmo os mais exigentes  críticos de cinema e por atrair instantaneamente adolescentes como o protagonista. Hoje, vários anos depois, funciona como uma fonte inesgotável de nostalgia. Afinal, Daniel-san é o jovem que todo garoto dos anos oitenta queria ser. Especialmente sendo treinado por alguém tão carismático quanto o Sr. Miyagi.


Karate Kid (EUA, 1984). Ação. Columbia Pictures.
Direção: John G. Avildsen
Elenco: Ralph Macchio, Elisabeth Shue, Noriyuki “Pat” Morita

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Ação, Comédia