CRÍTICA | Katy Perry: Part of Me

Críticas
// 02/08/2012

Há uma certa moda de documentários em 3D que retratam shows. Já foram as vezes dos Jonas Brothers, Hannah Montana, Glee e agora Katy Perry. Entretanto, Part of Me é o primeiro destes tantos que não se preocupa apenas com preparação pra shows e coreografias em meio a pirotecnia. E isso é um ponto bem positivo.

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Katy Perry: Part of Me
por Virgílio Souza

É evidente e inegável que Katy Perry: Part of Me possui características típicas de uma peça publicitária destinada a promover a artista-título, confinadas a uma estrutura própria de documentários produzidos para a televisão e obviamente endereçados aos fãs mais fervorosos. Ainda assim, deixando de lado qualquer resistência pré-estabelecida, é possível extrair aspectos interessantes da trajetória em tela, que, como o título denuncia, não é retratada por completo.

Estabelecendo desde o início seu recorte temporal (a turnê California Dreams), o filme segue linha cronológica ordinária, recorrendo a imagens de arquivo apenas para dar o tom acerca de determinados elementos da história e personalidade de cantora – um recurso que, aparentemente, é empregado em função da incapacidade de se obter contornos mais significativos dos depoimentos de seus familiares, amigos e colegas de trabalho.

Assim, nota-se que não há ampla ambição biográfica, uma vez que o interesse central é a turnê, com elementos prévios sendo tratados “de passagem”, apenas para contextualizar e fornecer sustentação para a composição dos shows da forma como os vemos. Nesse sentido, a megalomania do espetáculo é explicada através dos vídeos da cantora quando criança, ao passo que seu caráter “único” (sua “esquisitice”, como ela mesma se refere) encontra vínculo com a frustração decorrente das pressões anteriores de estúdios para que Katy Perry se estabelecesse como a “nova Avril Lavigne”.

Por outro lado, há uma espécie de pretensão temática, que não chega a se completar satisfatoriamente. Desta forma, o longa falha ao buscar retratar, em um espaço tão restrito de tempo e sem a devida profundidade, tantos elementos, que ainda surgem permeados por números musicais retirados das apresentações da cantora. Embora corajosa, a opção por não se omitir com relação a temas potencialmente conturbados é problemática, pois o documentário não se decide entre as discussões sobre a relação de Katy com os pais, o início no gospel, a formação de sua equipe (majoritariamente composta por colegas que a acompanham desde antes da fama) e o reconhecimento de seu talento por outros artistas, apresentado em depoimentos.

O único aspecto da vida da personagem que talvez tenha recebido a devida atenção, sendo trabalhado com maior zelo pelo documentário, é seu relacionamento com Russell Brand. O tratamento conferido ao casamento é sólido, capaz de não vilanizar o ator (o que é tentador) ou exaltar a cantora, preocupando-se mais em humanizar o convívio entre eles. Deriva daí o melhor e mais genuíno segmento do filme, ambientado durante a passagem da turnê por São Paulo: ver Katy Perry vestir uma máscara sorridente instantes antes de subir ao palco é fundamental para compreender o restante de sua trajetória, e a opção momentânea por fotografá-la de perto, com a câmera quase estática, é precisa.

Não é possível dizer o mesmo sobre outras escolhas da direção de Dan Cutforth e Jane Lipsitz (para além do já mencionado recurso a imagens de arquivo), tais como a exibição de tweets da cantora e de depoimentos gravados por seus fãs ao redor do mundo sobre a importância da música em suas vidas. Desse modo, a dupla de diretores parece não saber exatamente para onde direcionar a câmera, mantendo-se sempre dividida entre registrar o espetáculo ou a responsável por sua existência.

Assim, Part of Me peca por não se situar adequadamente entre as várias camadas da não tão longa jornada de Katy Perry: cantora, ídolo, chefe, irmã, filha, neta, amiga, esposa e futura mãe. A opção por um produto mais adequado e palatável aos fãs, com ares de propaganda e pouco frescor narrativo é perfeitamente compreensível – mas igualmente lamentável.

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Katy Perry: Part of Me (EUA, 2012). Documentário. Paramount Pictures.
Direção: Dan Cutforth e Jane Lipsitz

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