CRÍTICA | Killing Them Softly (O Homem da Máfia)

Críticas
// 29/11/2012

Divulgado com certa confusão no Brasil, chega às telas amanhã o novo filme estrelado pelo consistentemente impressionante Brad Pitt. O Homem da Máfia – “tradução” peculiar e pouco imaginativa para o título original Killing Them Softly – é um thriller conciso, envolvente e crítico que concentra seu impacto nos diálogos, e não na ação, mas pode deixar algo a desejar no alcance da história que conta. 

O Homem da Máfia
Por Gabriel Costa 

Embora seja um dos temas mais queridos e fascinantes do cinema, o mundo da máfia já foi explorado à exaustão por Hollywood. Da trilogia O Poderoso Chefão a Os Infiltrados, passando por Scarface e Os Bons Companheiros, não chega a ser um absurdo afirmar que já se disse praticamente tudo o que poderia ser dito sobre o assunto. Para justificar sua incursão no gênero, o diretor Andrew Dominik – de O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, também protagonizado e produzido por Pitt – recorre a recursos estilísticos ousados e uma abordagem contemporânea que relaciona os negócios e relações entre gângsters aos percalços econômicos enfrentados pelos Estados Unidos nos últimos anos.

O roteiro fluido de Dominik, baseado no livro Cogan’s Trade, de George V. Higgins, parte da história de Markie Trattman (Ray Liotta), “empresário” que promove jogos de carta clandestinos nos quais quantias pesadas trocam de mãos entre mafiosos. Tão pesadas que Trattman já tirou vantagem de sua situação privilegiada para promover um assalto aos próprios clientes. Desde então, os jogos foram interrompidos e, depois de um tempo, recomeçaram, sob o consenso geral de que o empreendedor não seria estúpido de tentar um novo golpe. E é dessa situação que se aproveitam Johnny “Esquilo” Amato (Vincent Curatola) e seus parceiros-capangas Frankie (Scoot McNairy, de Argo e Monstros) e Russell (Ben Mendelsohn, de Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge): em uma jogada arriscada, o trio recolhe o dinheiro sujo do pôquer ilegal, esperando que Trattman leve a culpa novamente.

Dessa vez, contudo, o conselho dos chefões locais não pretende deixar barato, e convoca o “facilitador” Jackie Cogan (Pitt), parceiro do durão local Dillon (Sam Sheperd, em breve participação). Embora seja instruído pelo porta-voz dos chefões (o veterano Richard Jenkins) a buscar os culpados de forma imparcial, Cogan está convencido de que Trattman também deve ser punido, tendo ou não participado de fato do roubo, pela simples questão de manter as aparências frente à “opinião pública” – ou seja, a comunidade criminosa da área. O jogo de gato e rato inclui ainda o matador deprimido alcoólatra Mickey, vivido por James Gandolfini, da série Família Soprano e mais uma porção de “filmes de mafioso”.

Não há perseguições automobilísticas explosivas ou tiroteios épicos em O Homem da Máfia. Várias das negociações entre Cogan e o personagem anônimo de Jenkins têm como pano de fundo discursos dos presidentes George Bush e Barack Obama relativos à crise financeira atravessada pelos Estados Unidos, e não são poucos os paralelos criados entre os modos de agir de políticos e mafiosos. Dessa forma, o desenrolar do caso é quase todo apresentado na forma de diálogos bem construídos, que seguem a tradição celebrizada por Tarantino de apresentar, sem pressa, anedotas, histórias e divagações dos personagens entremeados aos elementos relevantes ao enredo. Embora o mesmo tom geral seja mantido ao longo de quase todo o filme, os temas tratados vão do humor chulo à reflexão existencial, passando pela crítica social e pelo comentário político, e culminam em um discurso vitriólico de Pitt em que Cogan desfila críticas ao governo, história e modo de vida americanos.

Os pontuais momentos em que o público é exposto aos modos violentos de resolver problemas da máfia, entretanto, são apresentados de forma contundente e cuidadosa, e incluem uma bela sequência em câmera lenta que tem efeito além do esperado para uma técnica tão saturada. Merece menção a fotografia bem cuidada de Greig Fraser (de Deixe-me Entrar), cujo tom varia, assim como a própria pegada da direção de Dominik, de acordo com os personagens abordados em cada sequência. Russell, drogado e inconsequente, por exemplo, protagoniza momentos não menos que psicodélicos, enquanto as aparições do personagem de Jenkins são sempre caracterizadas por uma atmosfera sóbria, quase corporativa.

Dessa vez Pitt, para variar, não aparece comendo algo a cada cinco minutos, mas se mostra tão seguro e à vontade quanto em qualquer um dos seus papéis recentes. A partir do momento em que aparece pela primeira vez, Cogan torna-se uma das principais bases de sustentação do enredo, muito embora sua posição de protagonista seja praticamente dividida com Frankie, interpretado de forma convincente por McNairy. Mendelsohn, na pele de um Russell maltrapilho e viciado, é um destaque à parte, e responsável por momentos que beiram o cômico – em tom de humor negro, obviamente. Já Liotta e Gandolfini, como atores mais que habituados ao gênero,  apresentam a competência esperada. Se Dominik pega algo emprestado de Tarantino nos diálogos, ele também dialoga com Scorcese no tratamento impiedoso dispensado aos personagens, tanto nos acontecimentos quanto no próprio tempo de tela dos mesmos. Há pelo menos um par de momentos em que o espectador pode se pegar pensando “É isso? Foi essa a participação dele?

É possível concluir que, ainda que os meios utilizados para tal não sejam de todo originais, O Homem da Máfia obtém sucesso em trazer algum frescor para o nicho que ocupa. A duração modesta de 97 minutos é medida com precisão para narrar o caso específico do assalto à casa de apostas de Trattman e despejar um punhado de reflexões político-sociais, e talvez justamente por isso deixa a impressão de que esse é apenas um lado de uma trama maior. Por outro lado, não deixa de ser significativo quando um dos pontos menos satisfatórios de uma obra é o desejo por mais.

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Killing Them Softly (EUA, 2012). Thriller. Plan B Entertainment
Direção: Andrew Dominik
Elenco: Brad Pitt, Scoot McNairy, Richard Jenkins, Ray Liotta, James Gandolfini

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Críticas, Thriller