CRÍTICA | La La Land

Críticas
// 13/01/2017
la la land

Engarrafamento. Mais um dia ensolarado em Los Angeles. Uma a uma, as pessoas saem de seus carros e começam a cantar, dançar e fazer acrobacias. Suas notas falam sobre sonhos e o que tiveram que deixar para trás tentando realizá-los, os riscos, desafios e certezas. Não há uma gota de arrependimento. Pelo contrário. Orgulham-se do caminho que percorreram até ali, são felizes pelo que conquistaram, têm motivação para buscar mais e querem servir de inspiração para os sonhadores que possam vir a cruzar seus caminhos. Tudo isso em plano sequência. É assim, com música animadora e coreografia eletrizante, que a cena de abertura de La La Land: Cantando Estações mostra a que veio o filme. É um musical. É bem-humorado. É divertido, envolvente, leve e descontraído. E, acredite, tem potencial para conquistar até aqueles que mais torcem o nariz quando os atores começam a cantar e dançar sem motivo algum.

O diretor e escritor Damien Chazelle sabe a história que quer contar e o faz com maestria. Seu terceiro longa gerou uma expectativa altíssima após a consagração do excelente Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014) que, entre outros – muitos – prêmios, levou para casa nada menos que três estatuetas do Oscar (melhor ator coadjuvante para J.K. Simmons, melhor montagem e melhor mixagem de som), além de ter sido indicado para concorrer a outras duas (melhor filme e melhor roteiro adaptado). Foi a onda de premiações deste filme, vale dizer, que garantiu a luz verde para a produção de La La Land após ter sido negado por tantos anos pelos mais diversos estúdios. E, em sua nova empreitada em Hollywood, Chazelle não decepciona. Ele faz parecer fácil coordenar cada detalhe do que está acontecendo, seja em foco ou fora dele.

A fluidez das cenas musicais é de uma qualidade que não se vê todos os dias. As letras são escritas de forma apaixonada e apaixonante, integrando-se ao roteiro com uma naturalidade encantadora. A trilha sonora, composta por Justin Hurwitz – parceiro de Chazelle desde seu primeiro filme, Guy and Madeline on a Park Bench (2009) – leva a música de fundo a se transformar na canção do momento e vice-versa. A transição dos diálogos falados para os cantados é praticamente imperceptível. Este mérito é também dos protagonistas Ryan Gosling e Emma Stone, que navegam tranquilamente entre fala e canto, caminhada e dança, além de ter uma química inegável e deliciosa de assistir. Os dois cantam bem e só desafinam, propositalmente, nas cenas mais intimistas, justamente para reproduzir a vida como ela é – imperfeita – e como pode ser – feliz e repleta de risos. A dupla já atuou junta em outros dois filmes – Amor a Toda Prova (2011) e Caça aos Gângsteres (2013) – e cultiva uma amizade de anos que, somada à experiência do trabalho conjunto nas obras anteriores, ajuda a trazer um realismo raro a sua relação nas telas.

Mia (Stone) é uma aspirante a atriz que equilibra sua carreira entre o trabalho em uma cafeteria dentro dos estúdios da Warner e incontáveis audições que são constantemente interrompidas, ignoradas e nunca dão qualquer tipo de retorno. Sebastian (Gosling), um pianista de jazz que quer trazer um novo fôlego ao gênero, mas vive no e do passado. Ambos se veem rapidamente na cena de abertura, mas é mesmo uma ironia do destino que faz os dois se esbarrarem, literalmente, na noite de Natal. Mesmo tendo começado com o pé esquerdo, a passagem das estações do ano – daí o título no Brasil – narra a evolução de seu relacionamento do sarcasmo ao amor, passando pelo desejo, a amizade e a cumplicidade.

Ainda que as estações na Califórnia não sejam muito bem definidas e isso possa parecer um fator limitante para a criatividade da fotografia, ela dá um apoio significativo à narrativa e se faz excepcional justamente por sua simplicidade. Não existe qualquer vergonha, por exemplo, em escurecer os ambientes e posicionar um foco de luz onde interessa ou criar composições que parecem fantasiosas demais. Pelo contrário, há orgulho nisso. Trata-se, afinal, de um ode à magia do cinema. O “La La” é uma referência a “L.A.”, Los Angeles, a capital mundial da Sétima Arte.

Por melhor que seja, entretanto, o longa tem seus problemas. Falta representatividade e os personagens secundários poderiam ter mais destaque. Mesmo assim, com uma participação bastante pequena, eles cumprem sua missão: todos impulsionam o casal principal, levando Mia e Sebastian aonde precisam estar.

O roteiro usa e abusa de clichês, mas nunca de forma cansativa. Pelo contrário! É um deleite ver aquelas cenas clássicas de Hollywood – o café derramado na roupa e a dança ao pôr do sol, por exemplo – se desenrolando na telona. Chazelle se aproveita da familiaridade desses momentos para trabalhá-los de uma forma original, espalhando essas tantas referências à era de ouro do cinema em um filme contemporâneo, com atores relevantes para o público de hoje e ambientado em uma metrópole que todo mundo conhece, mesmo sem jamais tê-la visitado.

Não à toa, La La Land: Cantando Estações faturou sete estatuetas do Globo de Ouro este ano (melhor filme de comédia ou musical, melhor ator em comédia ou musical para Ryan Gosling, melhor atriz em comédia ou musical para Emma Stone, melhor diretor, melhor roteiro original, melhor trilha sonora e melhor canção original – a belíssima e inspirada City of Stars), consagrando-se como a obra cinematográfica mais vitoriosa da história da premiação. Um dos favoritos ao Oscar, é exatamente o tipo de filme que muita gente nem sabia que sentia saudade ou sequer gostava. Vai ser difícil deixar a sala de cinema sem vontade de sair sapateando.


La La Land (EUA, 2016). Musical. Lionsgate.
Direção: Damien Chazelle
Elenco: Emma Stone, Ryan Gosling

9-pipocas

 

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