CRÍTICA | Logan

Ação
// 02/03/2017
logan

Demorou “apenas” 17 anos, mas aqui está: a performance definitiva de Hugh Jackman na pele do mutante mais popular do planeta é também a adaptação mais apurada do personagem para a tela grande, um dos melhores filmes do já saturado gênero e uma aula de como é possível fazer cinema maduro, sombrio e violento baseado em quadrinhos sem massacrar os sentidos e bom senso do público, numa lição que a Distinta Concorrência faria bem em estudar com afinco. Ainda que longe de uma obra perfeita – é longo, por vezes arrastado, e tem pelo menos um buraco considerável na trama –, Logan é uma bem-vinda injeção de relevância e ânimo artístico em um nicho cinematográfico que já demonstra há algum tempo sinais de esgotamento criativo e dobra perante implacáveis forças mercadológicas.

O terceiro capítulo da inconsistente trilogia solo do canadense de temperamento explosivo se coloca, em todos os sentidos, na ponta oposta do espectro estabelecido pelo tenebroso X-Men Origens: Wolverine. Enquanto o longa de 2009 empregava exageros gráficos e narrativos para contar, de forma desastrada, os primórdios da trajetória do mutante, Logan é, até onde se pode usar esses termos em relação a um filme de super-heróis de 137 minutos, minimalista, elegante e graciosamente conclusivo ao narrar os dias de crepúsculo do personagem que lhe dá título. O destino do planeta não está em jogo, a história não se baseia em promessas para filmes futuros e não há grandes participações especiais, fora a presença fundamental do quase co-protagonista Patrick Stewart, que, assim como Jackman, se despede com máximo estilo do mutante que vinha interpretando desde o surpreendentemente longínquo ano 2000.

Afinal, em 2029, não há mais X-Men. O nonagenário ex-diretor da escola para jovens superdotados que carregava seu nome, Charles Xavier (Stewart), aparenta estar à beira da senilidade e estaria perdido se não fosse pelo apoio de seu antigo aluno Logan – que deixou os dias de heroísmo para trás e ganha a vida como chofer no Texas – e do albino Caliban (Stephen Merchant, grata surpresa). O trio de veteranos é obrigado a abandonar a amarga rotina em que se estabeleceram ao terem o caminho cruzado por uma misteriosa criança chamada Laura (Dafne Keen) e seus perseguidores, os Carniceiros liderados por Donald Pierce (Boyd Holbrook), e enveredar no que é essencialmente uma saborosa road trip mutante.

Desde X-Men 2, de 2003, produtores, diretores e o próprio Jackman prometem e buscam retratar a lendária selvageria de Wolverine no cinema. Livre das amarras mais restritas da classificação etária – nos EUA, o filme recebeu a indicação R, voltada para maiores de 18 anos, enquanto aqui é recomendado para maiores de 16 –, o diretor James Mangold atinge com louvor esse objetivo. O protagonista, e Laura, retalham, empalam, rasgam e conjugam outros verbos desagradáveis para seus alvos em abundância ao longo das mais de duas horas de exibição. Mangold conduz a ação com pulso firme e bom gosto no uso de efeitos visuais, mesmo que as garras AINDA não pareçam de todo convincente.

Ainda assim, nem a violência, nem os palavrões representam o que o filme apresenta de mais pesado. O fatalismo, permeado por esperança e afeto, de Logan e Xavier é retratado de forma pungente, agridoce e ocasionalmente cômica por atores confortáveis o suficiente em seus personagens para explorá-los bem além do óbvio, e que infelizmente não encontram um contraponto digno no unidimensional elenco de antagonistas encabeçado por Pierce/Holbrook e completado pelo estereótipo de cientista inescrupuloso Zander Rice (Richard E. Grant) e o grupo de brutamontes genérico que compõe os Carniceiros. Por outro lado, a Laura de Dafne Keen é muito mais do que uma coadjuvante infantil, e se aproxima mais de um segundo Wolverine do que o próprio Jackman como um segundo Wolverine.

Conforme começa a se encaminhar para a conclusão, o longa perde fôlego ao enveredar por uma meta-reviravolta que permanece mal explicada e explorada, especialmente para fãs do material de origem, mas encontra novamente o ritmo na meia hora final. Caso mantenha a palavra de que não retornará ao personagem, Jackman sai por cima e demonstra notável comprometimento artístico diante da iminente aclamação de público e crítica. E deixa um par de sapatos bem grandes a serem preenchidos por um inevitável sucessor.


Logan (EUA, 2017) Ação / Ficção científica. 20th Century Fox / Marvel Entertainment.
Direção: James Mangold
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Dafne Keen, Stephen Merchant, Boyd Holbrook.

8-pipocas

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Ação, Críticas, HQ's