CRÍTICA: Machete

Ação
// 10/12/2010

Exibido anteriormente no território nacional no Festival do Rio 2010, Machete, de Robert Rodriguez (amigo próximo de Tarantino) chega às telas em circuito nacional nesta sexta-feira mostrando que é possível fazer de um filme B uma fonte de bons apontamentos a certas posturas racistas, mesmo que em meio a alguns escorregões.

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Machete
por Bruno Cava – Colaborador

Nunca um protagonista de um filme de ação afrontou tanto o padrão de beleza de sua sociedade. O ator ex-presidiário e pra lá de bronco Danny Trejo é Machete Cortez, um brutamonte de impor respeito de tão feio e mal-encarado. Imigrante ilegal na região fronteiriça entre os EUA e o México, Machete não é alguém para se sacanear. Seu facão corta, arranca, mutila, decapita, eviscera. E ainda por cima “Machete don´t text” (sic) – somente um dos inúmeros bordões e frases de efeito disparados pelo herói ao longo do filme, significando algo entre “Machete não manda torpedos” e “Machete não escreve mensagens”.

Do lado dos hispânicos, temos Steven Seagal no papel do barão boa-vida do narcotráfico Rogelio Torrez – arquiinimigo de Machete depois de ter trucidado a sua família na cena-prólogo. A charmosa Jessica Alba encarna Sartana Rivera, agente da imigração americana com dor na consciência por deportar os hermanos, que afinal se aliará a Machete na sua saga de vingança. Michelle Rodriguez faz a gostosona Luz/Shé, que alterna entre vendedora numa barraquinha de tacos e a super-heroína líder da rede de resistência latina. Cheech Marin é Padre, o irmão de Machete que aderiu à Igreja Católica, mas, nem por isso, desaprendeu a explodir as cabeças dos inimigos com sua calibre doze.

Do lado dos brancos, Robert De Niro incorpora o senador racista John Laughlin, cuja campanha política se baseia em classificar os mexicanos clandestinos de parasitas e construir uma cerca eletrificada na fronteira para manter os “cucarachas” do lado de fora. Don Johnson interpreta Von Jackson, líder de um grupo de extermínio de imigrantes em trânsito pelo deserto e financiado pelo senador, que por sinal também participa de suas caçadas humanas. Jeff Fahey é Michael Booth, um assessor maquiavélico do senador que, junto de seus capangas (buchas), persegue Machete o filme todo. Lindsay Lohan é April, filha patricinha do vilão Booth e que atravessa metade do filme pelada, até se converter numa freira armada até os dentes.

Essa trupe cartunesca interage em sequências absurdamente forçadas e mentirosas, num pastiche que presta homenagem aos filmes-B da década de 1970. Não poderia ser diferente, porque o longa nasceu de um trailer fake de 2007, projetado entre Planeta Terror (do próprio Rodriguez) e À Prova de Morte (Quentin Tarantino) – dois filmes igualmente ancorados na tradição B, originalmente projetados um após o outro, em bilhete casado, como nas antigas salas de cinema-poeira (ou grindhouses).

Assim como no gênero exploitation, o sangue jorra e as mulheres se despem, num enredo simplório que opõe mocinhos maneiros e bandidos safados. Assim como no subgênero blaxploitation, há o pano de fundo de afirmação racial, que valoriza uma cultura de resistência e ocupa as telas com as cores e sons das minorias. Não à toa, Machete tenha sido classificado por alguns críticos de mexploitation.

Houve quem o criticasse pela mensagem política no meio de sequências com cabeças voando, intestinos sendo arrancados e mulheres peladas na piscina. Ora, por que não? O sentido político também pode ser construído em gêneros inesperados, como o terror, o policial, a ação, o pornô light.

Machete pode não ter a “seriedade militante” de Ken Loach, em Pão e Rosas (2000) ou a “acidez satírica” de Richard Linklater, em Nação Fast Food (2006) – ambos os filmes críticos da opressão a imigrantes latinos nos EUA. Apesar disso, Machete não deixa de ser um filme sério e forte.

A sua força se faz na combinação de elementos icônicos, na consciência da mimese bastarda e tributária de uma “cinefilia selvagem” em locadoras de VHS, e na sensualidade da carne sendo descoberta, exposta e dilacerada. O rosto deformado de Machete também é o rosto da multidão, na sua voracidade cruenta por violência e sexo, quer dizer, por vida.

Se faltou alguma coisa nesse filme, foi maior ousadia – quem sabe explorando mais as cenas de erotismo entre o horrendo Danny Trejo e as beldades Jessica Alba, Michelle Rodriguez e Lindsay Lohan. A fera mexicana traçando as belas vedetes do cinema americano também serviu de provocação, e com fundo político. Mas poderia ter ido além, se o diretor não tivesse cortado tão cedo a ação.

Machete extravasa de um vigor em todo esse exagero, também verificado no cinema de Tarantino – como se sabe, o diretor mais próximo artisticamente de Robert Rodriguez.

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Machete (Eua, 2010). Ação. Sony Pictures.
Direção: Robeert Rodriguez
Elenco: Robert De Niro, Lindsay Lohan, Jessica Alba
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