CRÍTICA | Magnólia

Críticas
// 14/06/2009
magnolia

Um suicida é acidentalmente atingido por um disparo no improvável instante em que seu corpo cai em queda livre do nono andar de um prédio. Não fosse pelo tiro, sua vida seria salva por uma rede de segurança colocada dias antes por lavadores de janelas. E mais; a autora do disparo é sua própria mãe, que, alguns andares abaixo, discutia com o marido.

Estranho, não? Pois é por meio de exemplos como esse que o diretor norte-americano Paul Thomas Andersen dá início a Magnólia, segundo grande título de sua filmografia, sobre a imprevisibilidade de circunstâncias que transformam nossas frágeis vidas.

Assim como em Boogie Nights (sobre um astro pornô iniciante), o roteiro de Magnólia é fragmentado em pequenas tramas que de algum modo se entrelaçam e que, para tanto, se utiliza de vasto (e talentoso) elenco – que além de Tom Cruise inclui outros queridinhos de Andersen, como Philip S. Hoffman, John C. Reilly e Julianne Moore. Para cada qual, Andersen constrói personagens particularmente complexos, em geral estigmatizados por um passado difícil. E nesse ponto o diretor é especialmente eficaz, pois, ainda que mostrados em situações do presente, a história de vida de suas personagens parece impregnada em cada cena do filme.

Comecemos por Linda, que de acordo com o próprio diretor (responsável também pelo roteiro e edição) foi a personagem que serviu de inspiração para a criação das demais. Linda (interpretada por Moore) é uma golpista que se descobre apaixonada pelo marido em seu leito de morte. Ele, por sua vez, arrepende-se amargamente de ter abandonado à sorte a esposa e o filho quando ainda jovem. O filho (Tom Cruise) agora é um famoso conselheiro amoroso/sexual, porém intimamente frustrado. Do outro lado temos Philip Baker Hall como o apresentador de um quiz show infantil, com poucas semanas de vida e desejoso pelo perdão da filha – viciada em drogas e emocionalmente abalada; o participante do quiz show, um garoto-prodígio oprimido pelo pai e o policial incorruptível cuja maior vergonha é ter perdido sua arma.

Magnólia pode ser visto como um vasto ensaio sobre o perdão. No longa há aqueles que anseiam por perdão e os que se resignam em perdoar, passando ainda pelos que o fazem quando seu papel é exatamente o contrário – que policial perdoa um ladrão pego em flagrante? Tampouco é tarde demais ou vergonhoso arrepender-se, afinal é justamente na iminência da perda que as coisas revelam seu real valor.

Famoso pelos 190 “fucks” repetidos ao longo das quase três horas de projeção, o filme guarda relação quase cabalística com os números 23 e 82. Esse último, inclusive, é uma alusão à passagem bíblica (Êxodos 8:2) “Mas se recusares a deixá-lo ir, eis que ferirei com rãs todos os teus termos”, que teria servido como fonte de inspiração para uma das sequências mais impressionantes do filme – quiçá da história do cinema.

Magnólia talvez não agrade aos mais afoitos ou racionais, mas  é , definitivamente, uma boa pedida.


Magnolia (EUA, 1999). Drama. New Line Cinema.
Direção: Paul Thomas Anderson
Elenco: Tom Cruise, Philip Seymour Hoffman, Juliane Moore.

Comentários via Facebook
Categorias
Críticas, Drama