CRÍTICA | Mary e Max

Animações
// 14/08/2010
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Selecionado para o Sundance 2009, a animação em stop-motion (c/massinha), Mary e Max se constrói ao redor da amizade profunda entre dois personagens esmagados pelos padrões sociais. A estética do grotesco desse longa-metragem encontra referência no paradigmático One night in one city, que também usa puppet-monsters de massinhas.

As cartas unem a australiana Mary Daisy Dinkle, oito anos, e o novaiorquino Max Jerry Horowitz, quarenta e quatro. A primeira é uma criança inadaptada e feiosa, vítima de bullying na escola, criada por uma mãe megera, ladra e alcoólatra. O segundo é um judeu obeso e solitário, acometido da síndrome do pânico, órfão de mãe suicida e pai fugido. Ambos os protagonistas são repletos de idiossincrasias: enquanto ela tem um galo de estimação e sonha em comprar um castelo na Escócia, ele cata guimbas pelas ruas e prepara cachorros-quentes de chocolate. Entre outras esquisitices.

Tudo em Mary e Max é grotesco. As feições, os trejeitos, os animais de estimação, os cenários, a fotografia: do marrom-barrento das cenas na Austrália (Melbourne?) ao preto-e-branco sujo de Manhattan. Se, para Bakthin, o grotesco invoca a carnavalização do poder, nessa animação, ele satiriza a violência aplicada pela normalidade sobre os “excluídos”. O judeu Max sofre preconceito e não se adapta aos sucessivos empregos, todos fracassados, e só escapa da cadeia por ser declarado doente mental. A feia Mary não consegue fazer amigos e não encontra o amor romântico, caindo em depressão. É na amizade através de inusitada correspondência que, juntos, os dois oprimidos vão enfrentar a condição anormal e contornar o absurdo de suas existências.

A força do filme está em boa parte no texto envolvente, direto e elegante, casado com uma trilha instrumental singela sem cair no sentimentalismo — tudo a reforçar o drama singular dos personagens. Isso sem perder de vista um humor seco, por vezes negro, relevante para o estilo grotesco. A direção optou por privilegiar o discurso falado à narrativa por imagens, fazendo deste por assim dizer um filme de roteiro. Em Mary e Max, há poucos diálogos e um narrador oculto é quem vai comandar a organização das sequências e ditar o ritmo. No entanto, o longa em nada perde com a escolha, visto que a riqueza das imagens contribui igualmente para a construção dos muitos sentidos.

O resultado é um filme noturno, denso, angustiante, claustrofóbico, fecundo em tiradas filosóficas, uma espécie de “desanimação”, mas ao mesmo tempo com uma mensagem otimista e liberadora, de sensibilidade a toda prova, qualidades dramáticas produzidas ao longo da interação à distância entre duas amáveis anomalias sociais.


Mary e Max (Austrália, 2009). Animação.
Direção: Adam Elliot
Elenco: Philip Seymour Hoffman, Eric Bana, Toni Collette, Barry Humphries

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Animações, Críticas