CRÍTICA: Melancolia

Críticas
// 06/08/2011

Estreou ontem no Brasil o novo filme de Lars von Trier (Dogville), Melancolia. Com uma direção segura e um roteiro pontuado por alguns tropeços, Trier entrega uma boa produção que provavelmente habitará os pensamentos de alguns espectadores.

Desta vez, a crítica contém alguns spoilers, uma vez que não seria viável discutir algumas características do longa sem o devido esclarecimento com exemplos. Portanto, a leitura é indicada para quem já viu o filme ou não se importa de entrar na sala de projeção com certos fatos já sabidos.

Você encontra o texto clicando em “Ver Completo”.

Melancolia
por Virgílio Souza

A sequência inicial de Melancolia, realizada com um efeito de câmera lenta que daria arrepios em qualquer figura mais resistente ao uso de alta tecnologia (um seguidor ferrenho do Dogma 95, por exemplo), carrega consigo uma exuberância visual poucas vezes vista no cinema recente. Por essa razão, é decepcionante constatar que o roteiro de Lars von Trier aposte em uma lógica narrativa tão óbvia em todo o restante da projeção, enfraquecendo seu excelente esforço na direção.

Dividido em dois capítulos que não comprometem a ordem cronológica da trama, Melancolia tem início com foco na festa de casamento de Michael (o seguro Alexander Skarsgard) e Justine (Kristen Dunst), que surgem como um casal alegre e realizado para, instantes depois, distorcerem qualquer ideia de estabilidade conjugal. As turbulências apresentadas na primeira metade do longa, reforçadas pela eficiente câmera trêmula de von Trier, são causadas pelo descontentamento da noiva – um sentimento que se revelará uma profunda depressão, em um momento posterior – e pela interferência pouco sutil de seus familiares – em especial a raivosa mãe, Gaby (Charlotte Rampling, em uma participação pequena, mas importante), e a controladora irmã, Claire (Charlotte Gainsbourg, impecável).

O problema surge quando von Trier tenta adicionar elementos para confirmar a instabilidade emocional de Justine: a subtrama envolvendo seu patrão (Stellan Skasgard) e um funcionário da empresa em que trabalha (Brady Corbet), por exemplo, é apresentada e concluída da maneira mais banal possível, com assustadora artificialidade, e só funciona para que Dunst (na melhor atuação de sua carreira) ocupe a tela com qualidade, em sua única explosão de irritação ao longo de 136 minutos de filme.

Assim, ainda que o desfecho da desastrosa cerimônia seja um belo quadro da atriz sentada acima de uma pilha de cadeiras, balançando os pés no ar, os momentos imediatamente anteriores são excessivamente frágeis – desde a despedida do pai (John Hurt, soberbo) à desistência do marido, passando pela abrupta introdução de um jogo para se adivinhar o número de feijões no pote, uma pista do que virá a seguir muitíssimo bem definida por Claire como “incrivelmente trivial”.

É também no segmento inicial do filme que somos apresentados ao elemento que conduzirá a trama: a inquietante presença do planeta Melancholia nas proximidades da Terra. De maneira eficiente, ainda que explícita, Jack (Kiefer Sutherland, em uma de suas mais sólidas atuações) o anuncia como uma estrela da constelação de Escorpião – informação que, desde a sequência de abertura, sabemos que se confirmará equivocada.

O segundo capítulo tem início semanas depois do casório e, de imediato, busca reconstruir sua dupla principal de personagens: agora, Claire não é mais a guardiã inabalável da irmã, mas uma figura ansiosa e temerosa com relação ao futuro, ao passo que Justine assume de vez a depressão e aceita seu infeliz destino. Tamanha melancolia (sem o menor intuito de se criar um trocadilho) inunda a tela de cinza, ressaltando a poderosa fotografia de Alberto Claro e criando um paralelo evidente como as festividades da metade inicial, sempre em tons dourados.

O roteiro de Melancolia, no entanto, se mostra irregular até mesmo ao tentar estabelecer a bidimensionalidade de suas personagens. A temida presença do planeta que dará fim à existência humana, por exemplo, só é notada por Claire quando essa usa a engenhoca construída pelo filho para avaliar sua proximidade – e, no instante seguinte ao desespero que a leva a procurar Jack pela casa (e a ouvir de Justine que “a vida na Terra é má” e que “ninguém sentirá nossa falta”), ela decide tomar café ao ar livre, como se houvesse amanhã (e, todos sabemos, na verdade não há).

Desta forma, o resgate de elementos dispersos ao longo do ato inicial é feito com incrível obviedade, como se a evolução – ou involução – dos personagens diante do fim do mundo já não fosse óbvia o bastante. Por essa razão, determinadas falas (como “ela está doente”, proferida por Claire para justificar as atitudes da irmã) e sequências (como aquela em que Justine diz saber o número de feijões no pote, de modo a provar que “sabe das coisas”) soam estúpidas. Ainda, o momento em que Jack vacila e oferece “um brinde à vida”, instantes antes da suposta passagem de Melancolia pela Terra, é de assombrosa trivialidade – bem como as manifestações inquietas dos cavalos, que se repetem ao longo de todo o filme.

Assim, Melancolia evidencia a diferença entre dois Lars von Trier: o diretor, habitualmente seguro, e o roteirista, que aqui aparece trôpego – não pela premissa do longa, mas por uma série de falhas que tornam frágil e simplista uma estrutura narrativa que deveria ser apenas simples.

Felizmente, a conclusão da trama é realizada com segurança pelo cineasta, que se mostra confortabilíssimo ao resgatar a insistência do filho de Claire em “construir grutas” com a tia e elaborar um maravilhoso plano conjunto, em que o planeta – cuja presença já havia destruído psicologicamennte os personagens – os engole com voracidade.

——————————
Melancholia (Dinamarca/Suécia/França/Itália/Alemanha, 2011). Drama. Ficção Científica. Califórnia Filmes.
Direção: Lars von Trier
Elenco: Kirsten Dunst, Charlotte Gainsbourg, Kiefer Sutherland
Trailer
Galeria

Comentários via Facebook