CRÍTICA: Meu Malvado Favorito

Animações
// 05/08/2010

Depois de ter se tornado a grande surpresa nos Estados Unidos, Meu Malvado Favorito chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira. Voltando ao gênero de animação mais preocupado com o público infantil, o longa não decepciona e mostra o porquê de já ter garantido uma continuação após duas semanas em cartaz lá fora.

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Meu Malvado Favorito
por Arthur Melo

As animações vem ocupando um território precioso. Antes apenas meros atrativos para o público infantil, muitas vezes limitados aos estúdios Disney, hoje este formato do cinema vem arrecadando milhões e contribuindo para o engordo da receita anual de muitos estúdios. Não há um selo hollywoodiano – dentre os médios e grandes – que não tenha lançado um longa animado nos últimos anos. E, com a popularização do 3D, a coisa só tende a progredir. O que expandiu a procura por produções do tipo nos cinemas foi uma remodelagem dos padrões. Shrek, de 2001, é o melhor exemplo disto, e talvez o mais importante, por ter costurado os primeiros moldes desta nova roupagem. A descentralização das histórias, agora também interessadas em atingir a plateia adulta que acompanha as crianças, deu mais frescor e graça, encorajando muitos crescidos a irem sozinhos conferir as projeções que não contavam com atores reais na tela.

É um novo padrão? Sim. Fielmente seguido. Há quase uma década, boa parte das animações que entraram em circuito abocanharam enormes montantes de dólares ao redor do globo graças a esta investida conceitual. As gargalhadas, desde então, dividem espaço com o terno, sutil e comovente. O enriquecimento das histórias é irrefutável e, dignas de aplausos, são impecáveis exemplos de ótimas personalidades desenvolvidas para os pequenos. Mas, convenhamos, o espaço já foi visitado demais. O lugar se tornou comum. Meu Malvado Favorito, primeira animação em 3D da Universal Pictures, é um resgate dos antigos desenhos animados totalmente voltados para o público infantil, de uma época em que o pastelão não era preciso para criar graça e as lágrimas não eram necessárias para emocionar. A surpresa, tamanha que é, convence os dois públicos.

Gru (dublado no Brasil por Leandro Hassum) é um dos maiores vilões do mundo. Financiado pelo Banco dos Vilões, este mestre do crime já realizou roubos inimagináveis e sustenta sua fama através da continuidade de seus atos. Até que, um dia, fora descoberto o roubo de uma das Pirâmides do Egito por alguém que não é ele. Agora, Gru precisa ter acesso a um dispositivo de raio-encolhedor para, assim, conseguir mais um financiamento do banco, o que custeará a construção de um foguete para que Gru encolha e roube a Lua, voltando aos seus dias de glória. O vilão só não contava com a disputa com Vetor (dublado aqui por Marcius Melhem), alguém tão astuto quanto ele. Para tomar a dianteira, Gru terá de usar todas as armas para conseguir o que quer, incluindo três garotinhas órfãs como arsenal.

Esperto, Meu Malvado Favorito se inseriu em um buraco deixado no mercado, atraindo para si os olhares que antes só enxergavam os filmes da Pixar. Mas não faz disso um pretexto para cair na bobice. Infestado de situações feitas com o único pretexto de extrair gargalhadas, o roteiro se desenvolve de modo que todos estes momentos tenham a sua vez e duração calculadas, a fim de não ser redundante no estilo esquecido que se empenha em retratar. Ao máximo, insere aqui e ali algum recorte divertido dos Minions (as criaturinhas amarelas ajudantes de laboratório de Gru), apenas como uma realização de piadas imaginadas pelos roteiristas ou como elo de ligação entre duas cenas que não possuem relações estreitas. Isto, quando os Minions não oferecem auxílio à história em si ou apenas surgem ao fundo fazendo alguma patetice, roubando a atenção momentaneamente sem desviar a trama do foco principal.

O que dá energia à história de Meu Malvado Favorito é a interação dos personagens principais, imergindo-os e chocando-os em seus mundos, consequentemente. A inserção das meninas Margo, Edith e Agnes no universo leviano e perverso de Gru, aliado à transformação que o quarteto sofre ao longo da trama (por mais que isso seja o indicado a ocorrer, portanto, previsível) é que dá o brilho ao filme. O roteiro soube guiar os acontecimentos à uma via em que a infantil inocência das três garotinhas as atraia ao ar ameaçador de Gru, enquanto que, este, vê nesta resposta inesperada o nascer de uma real relação de paternidade. O que funciona na forma mais natural e convincente possível.

A qualidade da escrita de Cinco Paul e Ken Daurio se repete na direção de Chris Renaud e Pierre Coffin. Com poucas falhas que lhe acusavam de estarem sempre resistindo à tentação de chamar mais vezes a presença dos Minions, a dupla comandante cria com bom gosto ótimas tiradas de humor na tela e monta uma sequência de clímax acertada, jogando Gru em posições que transformam seu status de vilão no de verdadeiro herói do filme. Em construções do aspecto geral, a trilha sonora de Pharrel Williams e Heitor Pereira (tutelados por Hans Zimmer) dá o toque final ao sabor da animação, compondo bons acompanhamentos que caem no humor por contrapor o tom maligno com imagens leves ou desengonçadas, firmando uma identidade musical adequadíssima que acompanha todo o filme. Isto sem mencionar o 3D, que se limita a não atirar constantemente objetos através da tela, preferindo compor cenários que almejam alcançar a plateia (a cena da montanha-russa é um bom aproveitamento desta ideia).

Meu Malvado Favorito pode estar muito abaixo de se tornar a animação favorita do público, isto é um fato. Com produções a níveis de Toy Story 3, Up e os primeiros Shreks, é difícil bater de frente com histórias que entregam lágrimas de riso e de comoção ou alguma sagacidade mais crescidinha e ainda terminam com um saldo positivo. Entretanto, é preciso entender que ainda há aqueles que precisam, apenas, de injeções de gargalhadas (e a bilheteria norte-americana comprovou isso), e outros que ainda não são tão grandinhos para entenderem toda e qualquer linguagem, inclusive aquela que comove. Ainda assim, Meu Malvado Favorito é um acerto tremendo.

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Despicable Me (EUA, 2010). Animação. Universal Pictures.
Direção: Chris Renaud e Pierre Coffin
Elenco: Steve Carell, Will Arnett, Julie Andrews

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