CRÍTICA: MIB – Homens de Preto 3

Ação
// 24/05/2012

Retornar a uma franquia dez anos depois do último filme, em tempos de aparente desinteresse por parte da indústria cinematográfica em relação a novas ideias, não é mais nada de estranho. Afinal, nos últimos anos as salas têm sido inundadas com remakes, reboots e adaptações improváveis (Batalha Naval com alienígenas?!). Felizmente, MIB³ – Homens de Preto 3 se encaixa de forma perfeitamente homogênea com as produções anteriores da série, e até acrescenta importantes novos elementos à história dos personagens, em vez de simplesmente ofuscar o público com efeitos especiais e nostalgia.

MIB³ – Homens de Preto 3
Por Gabriel Costa

Comédia, ação, alienígenas engraçados, ameaçadores e nojentos. E Will Smith. Retomar uma receita tão característica da virada do século uma década depois deve ter parecido um desafio espinhoso para o diretor Barry Sonnenfeld. Acrescentemos viagem no tempo à mistura e temos um possível desastre à vista. Com um roteiro competente, fidelidade ao clima dos filmes anteriores e uma atuação impagável de Josh Brolin como o “jovem” agente K, contudo, o terceiro capítulo da saga desses bem vestidos defensores da Terra não faz feio e se revela acima da média das recentes sequências tardias de blockbusters já calejados.

A trama tem início com a fuga do vilão Boris, o Animal (Jemaine Clement, da série Flight Of the Conchords) de uma prisão de segurança máxima na lua, com direito à ajuda da ex-Pussycat Doll Nicole Scherzinger, em breve participação. A sequência já estabelece o tom familiar da franquia, e Boris merece destaque como o vilão mais repugnante da grotesca galeria de antagonistas dos Homens de Preto. Após uma inconsistência científica revoltante até para os padrões da série, o facínora parte em busca de vingança contra o agente que arrancou seu braço 40 anos antes. O detalhe é que ele pretende concretizar isso antes mesmo do fatídico acontecimento, mudando a história com o assassinato precoce de K. E o único homem que pode impedi-lo é o agora veterano agente J, no papel que traz Will Smith de volta às telas após quatro anos.

Tema sempre controverso, a viagem no tempo é tratada de forma surpreendentemente consistente e sólida. Enquanto o processo pelo qual o literal salto cronológico se dá é basicamente “mágico”, as idas e vindas são amarradas de forma exemplar, e pontos que a princípio parecem forçados no enredo são mais tarde explicados satisfatoriamente. O recurso também dá margem a um dos grandes trunfos do filme, o agente K de 1969 na interpretação de Brolin. O ator emula de forma impressionante tanto o jeito de falar quanto as expressões de Tommy Lee Jones – o K “atual” –, mas também não deixa de acrescentar seu próprio toque ao personagem, uma vez que o agente aos 29 anos (!) é menos sisudo e mal-humorado que sua contraparte do século 20.

Smith, por sua vez, volta à pele de J sem traumas, mesmo porque o papel tem as mesmas características fundamentais de personalidade de tantos outros já interpretados pelo ator, como o detetive Del Spooner de Eu, Robô, o capitão Hiller de Independence Day ou mesmo, guardadas as devidas proporções, seu personagem homônimo na série Um Maluco no Pedaço.

Enquanto o carisma permaneceu o mesmo, as tiradas de J não parecem tão efetivas, e em alguns momentos chegam a ser constrangedoras, como durante a mal explicada recusa inicial do personagem em contar a verdade sobre sua identidade e missão para o K do passado. A comicidade acaba então ficando a cargo de K, seja na versão de Brolin ou de Jones, cuja participação é bastante limitada, e do próprio roteiro e direção, que brincam com elementos dos anos 60 e 70 como a viagem do homem à lua, Andy Warhol (em participação inspirada de Bill Hader) e até mesmo o preconceito racial exacerbado da época. Além de aprofundar a relação dos dois principais agentes da MIB, a trama também pincela o relacionamento de K com a agente O (interpretada por Emma Thompson nos tempos atuais e Alice Eve em 1969).

As sequências de ação e se mantêm na tradição da série, e não faltam aliens bizarros – os que circulam pela base da organização no passado são especialmente divertidos –, a obrigatória perseguição em alta velocidade e o confronto de J com uma criatura particularmente nojenta. Os efeitos especiais de nível condizente a uma produção desse porte contribuem para manter a adrenalina em alta e tornar Boris uma figura realmente ameaçadora. O ritmo só cai, curiosamente, na batalha final, um tanto anticlimática, mas a decepção é amenizada pela conclusão esperada, mas ainda assim surpreendente, da história.

Ao acertar mais do que errar nas medidas de seus ingredientes, Homens de Preto 3 consegue ao mesmo tempo não se distanciar demais de suas raízes e injetar algum frescor na série, e cumpre a contento a proposta óbvia de entretenimento não disfarçado e em larga escala, sem apelar para saídas fáceis ou para a muleta do formato 3D. É discutível se ainda há fôlego para novas sequências, mas caso sejam feitas e mantenham o nível desta, não haverá (muito) do que reclamar.

Men In Black III (Estados Unidos, 2012) Comédia/Ação/Ficção Científica. Sony Pictures.
Direção: Barry Sonnenfeld
Elenco: Will Smith, Tommy Lee Jones, Josh Brolin

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