CRÍTICA | Milk – A Voz da Igualdade

Biografia
// 20/02/2009
milk

Um filme pode nos transportar ao âmbito político de uma época, sem nos poupar de nenhum detalhe que constrói o jogo nem sempre limpo de candidatos e aliados e, ao mesmo tempo, ser comovente, tocando a sensibilidade do público. Disso e muito mais é capaz Milk – A voz da igualdade, o mais novo longa sob a direção do cineasta Gus Van Sant, também responsável por filmes de uma linha mais cult, como o aclamado Elefante (2003).

Em sua nova obra, Van Sant repete o trabalho bem sucedido que lhe concedeu grande reconhecimento nas mais nobres rodas sociais e premiações do cinema. O longa, que leva no título o nome de seu protagonista, trata da biografia do ativista Harvey Milk, o primeiro homossexual assumido a conquistar um cargo público nos Estados Unidos, em 1977. Um ano mais tarde, porém, para a comoção das minorias que defendeu e de todos aqueles que apoiaram sua causa, Harvey seria assassinado pelo adversário político Dan White.

A narrativa se foca no período entre a chegada de Milk e seu companheiro Scott Smith a São Francisco, mais especificamente à região de Castro, e sua chegada ao poder depois de algumas derrotas e recusa em desistir de seus ideais. Logo de início, o longa procura, através de manchetes de jornais da época, contextualizar o público sobre que realidade os homossexuais americanos estavam enfrentando quando Harvey se atreveu a lutar por seus direitos. Tratava-se de uma época que a polícia, invés de defender seus cidadãos, ajudava na repressão àqueles que, segundo a sociedade, não respeitavam os valores familiares, hipocritamente protegidos por uma parcela homofóbica dos cidadãos. Aqueles que escolhiam “sair do armário” sabiam que andar na rua era correr o risco iminente de ser morto. Insatisfeito em se calar e se retirar da vizinhança de Castro Street, Milk Harvey decide tentar ser eleito como seu representante político com a ajuda de amigos e habitantes da região, até que finalmente consegue vencer a oposição dos adversários.

A recomposição dos elementos da década de 70 é um atrativo à parte. Além do noticiário que coloca o público em contato com o preconceito existente então, o filme muitas vezes usa de gravações originais da época. Entram em cena os próprios personagens que construíram, de certa forma, a biografia de Milk. São suas próprias palavras, nada é distorcido para que se criem as figuras do mocinho ou do vilão. Está tudo lá, documentado e apresentado àqueles que assistem à projeção. Isso tudo, junto a um figurino cuidadosamente remontado, nos convence facilmente que se trata de uma obra cheia de minúcias, tudo em prol da fidelidade aos fatos.

O grande destaque do longa, que concorre a 8 Oscar na premiação que acontece dia 22 de fevereiro, é a brilhante e impecável atuação de Sean Penn. Seus trejeitos, a entonação de voz, enfim, todo seu comportamento em cena dão ao personagem-título do filme uma autenticidade comovente. Impossível não sermos convencidos por suas palavras ou vibrar mentalmente com seus discursos e o debate que trava na corrida pela vitória. De acordo com a maioria das pesquisas realizadas em sites e revistas especializadas em cinema, Penn deve provavelmente perder o prêmio da categoria Melhor Ator para seu concorrente, Mickey Rourke (O Lutador), apontado como grande favorito. Mas não seria nenhuma injustiça se Sean Penn saísse da cerimônia com a estatueta.

Além de Melhor Ator, Milk – A voz da igualdade concorre a Melhor Filme e Melhor Diretor. É bastante difícil que a biografia de Harvey Milk consiga alcançar o feito de vencer, mas isso não deve decepcionar aqueles que torcem pelo longa. A história de vida de Harvey Milk é, sobretudo, uma mensagem de incentivo à coragem e à esperança. Não desistir, apesar de todos os problemas que iria enfrentar, foi o que fez o ativista homossexual conquistar o direito de uma minoria reprimida e o respeito de seus eleitores e amigos. E esse, certamente, seria para ele a maior vitória de sua vida, aquilo pelo que lutou durante uma breve e bem sucedida carreira política.


Milk (EUA, 2008). Drama. Biografia. Paramount Pictures.
Direção: Gus Van Sant
Elenco: Emile Hirsch, Sean Penn, Diego Luna, Josh Brolin e James Franco.

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Biografia, Críticas, Drama